terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

AXÉ MUSIC EM 15 CANÇÕES


Eu não sou fã de axé. Nunca tive um disco de axé em casa, nem pretendo - não ficaria ouvindo, não colocaria numa festa em casa. Axé para mim é mais ou menos a mesma coisa que trance. Ou que certos rappers. Reconheço que tem algo ali. Mas é um som alienígena demais, sem muita função dentro do tipo de uso que eu faço de música. E isso dentro de uma leitura não-preconceituosa, que é a que eu tento fazer de algo que, para mim, representa trabalho, mais até do que gosto musical.

Mas tem suas diferenças: não dá para NÃO ter nenhum tipo de simpatia ou memória afetiva com relação a um estilo de música que circunda a todos, fãs ou não, há mais de vinte anos. E tem canção ali. É possível ser fã de heavy metal e ter dado o primeiro beijo na boca numa festa de colégio ao som da Banda Eva. Ou lembrar daquela época em que todo mundo, inclusive quem tinha os gostos musicais mais underground, tentava se convencer de que dava para frequentar as mesmas festas de quem escutava as músicas mais popularescas. No mais, desgostos musicais à parte, esse tal de axé sempre atraiu garotas. E, diz o velho ditado, onde há garotas, sempre há muitos garotos. Eu já passei por essa fase, claro.


Se alguém resolver comemorar o carnaval com uma festinha em casa, recordando alguns clássicos da axé music, este estilo tão controverso, sugiro começar por essas 15 canções - chequem os links do YouTube que aparecem ao longo do texto.



"MISTÉRIO DAS ESTRELAS" - CHICLETE COM BANANA (1983) - O grupo liderado pelo barbudo Bell Marques consegue ser pré-axé, axé e pós-axé. Começaram a gravar em 1981, com o compositor e cantor Missinho, hierarquicamente, acima de Bell nos créditos dos álbuns. O primeiro hit dessa fase foi Mistério, com seu refrão "iê ô/iê ô/iê ôôôô". Logo depois Missinho sairia e, sob o comando de Bell, o grupo estouraria nacionalmente. A primeira música que muita gente lembra dessa fase é Gritos de guerra, de 1986, que conquistou o Cassino do Chacrinha e figurou no álbum de mesmo nome, que ainda trazia um dos primeiros hits escritos por Carlinhos Brown (É difícil, dos versos "é difícil te encontrar/é como fazer edifício"). De lá para cá... bom, dispensa explicações.


"FRICOTE" - LUIZ CALDAS (1985) - A culpa é dele: se você odeia música baiana, saiba que praticamente tudo o que conhecemos hoje como "axé music" veio daí. O primeiro sucesso de Luiz (lançado por um selo independente ligado à PolyGram, o Nova República, criado pelo produtor Roberto Santana) varreu o Brasil, trazendo uma mescla de música pop e ritmos latinos que, como estilo, passou a ser imediatamente chamada de "fricote". Na sequência, vieram hits entre o axé de luxo e o pula-pula pop, como as clássicas Lá vem o guarda, Atual realidade e o trocadalho pacifista Grande Gandhi. Só para registro: Fricote teve também uma série de paródias-imitações-releituras, como Frico-fricote e Vamos dançar fricote (ambas de 1986, de uma cantora chamada Fernanda, lançamento do produtor que pôs Gretchen no mercado, Mister Sam) e Dance frikote (do grupo Chocolate, criação do cantor e compositor brega Claudio Fontana, no mesmo ano). Hoje, Luiz divide-se entre o axé e (acredite) o heavy metal. E, mesmo fora da mídia, faz shows lotados. 


"MADAGASCAR OLODUM" - BANDA REFLEXU´S (1987) - A lembrança que eu tenho é a de que a banda Reflexu´s, formada na Bahia (e seguindo a tradição dos grupos com "dono", comuns por lá), conseguia passar batida como sendo "grupo de reggae" (ou "samba-reggae"). Faziam e gravavam canções de protesto como Oração pela libertação da África do Sul (Gilberto Gil), Libertem Mandela e Canto para o Senegal (dos versos, tão criativamente modificados por aí, "Sené, Sené, Sené/Sené, Senegal"), partiam para o mela-cueca baiano em Banho de beijos, mas tiveram seu hit mesmo foi no hino Madagascar Olodum. Ok, fizeram também uma versão mole da gasta Pra não dizer que não falei de flores (Geraldo Vandré) no segundo disco, Serpente negra (1989), mas isso a gente esquece.


"A RODA" - SARAJANE (1987) - No livro Anos 70: Novos e baianos, o letrista Luiz Galvão (Novos Baianos) revelou que a morena de olhos verdes Sarajane chegou a ser oferecida por ele à gravadora Som Livre, sem sucesso. Ela acabou indo parar na EMI e teve seu primeiro disco (Rio de leite, que na música título faz uma referência ao branco dos trajes do bloco Ilê Ayê) lançado no mesmo formato Mini-LP pelos quais saíram as estreias de Plebe Rude e Zero. O segundo disco, História do Brasil, de 1987, trazia uma salada de composições do então iniciante Carlinhos Brown, do reggaeman Edson Gomes, do ex-Chiclete Com Banana Missinho e, acredite se quiser, do BRoqueiro Kiko Zambianchi (Nessas horas). Já A roda (dela, de Robson de Jesus e Alfredo Moura) dispensa prolegômenos (é aquela: "vamos abrir a roda, enlarguecer"). Recentemente Sarajane publicou post no Twitter pedindo trabalho.


"TE FUTACO" - CID GUERREIRO (1988) - "Eu te futaco, te futeco, te futuco/Tô maluco". Os nada machadianos versos de um dos hits do duplo-triplo-quádruplo sentido no axé, Te futaco, foram compostos por Cid Guerreiro e Dito (que nos anos 70 fazia dupla com Tom e lançava hits como o tema do seriado A grande família, Tamanco malandrinho e Malandragem dela). Seguindo uma espécie de linha infantil do axé e da lambada, o baiano Cid estourou outros hits, como Coisa brasileiraIlariê, a própria (parceria com Ceinha e Dito), gravada pela Xuxa. Hoje virou cantor gospel.


"PREFIXO DE VERÃO" - BAMDAMEL (1990) - Entre 1990 e 1992 era impossível escapar disso: "aê, aê, aê, aê/ei, ei, ei, ei/ô ê ô ê ô ê ô ê ô ê ô ê ô". Vinha à mente perto de qualquer sujeito (um amigo, um professor, um chefe) que usasse um "aê" para falar com as outras pessoas, só para citar um exemplo. Virava opção para levantar plateias - ou até para variar passagens de som, em vez dos tradicionais "ei, a, a, alô, sssssom, testando". Na sequência, vinham versos como "quando você voltar/numa próxima estação/te espero no verão/ (...) eu sou do Pelô/o negro é raça, é fruto do amor", complementando uma canção que, queiram ou não, hoje faz parte da história da boa música pop brasileira. E está na memória afetiva de muitos.



"SISSI NÃO QUER TREPAR" - AVATAR (1990) - Ok, lambada não é axé. Diz isso para quem frequentava as areias de locais aprazíveis como Arraial do Cabo e Cabo Frio nos anos 90 e assistia a exibições de uma certa "lambaeróbica" nos palcos montados à beira-mar. O grupo Avatar, lançado na mesma fartura de novidades baianas da gravadora Continental, trazia uma mescla do ritmo popularizado mundialmente pelo grupo Kaoma com música baiana e forró. A letra... bom, só ouvindo para acreditar.


"RALA O PINTO" - ZÉ PAULO (1991) - Deve ter gente que desconfia que essa música nem existe - afinal, muitos lembram-se apenas do refrão, "e rala o pinto/rala o pinto" e da sequência de nomes de dancinhas eróticas baianas que vinha depois. No eixo Rio-São Paulo, foi bastante divulgada pelo célebre programa Documento especial (Rede Manchete), que em um de seus episódios focalizava diversões praieiras e danças bizarras. O que muita gente mal deve saber é que a música é de um sujeito chamado Zé Paulo, compositor baiano que teve outros hits como Feijão com arroz (dos versos de protesto "deixa de bobeira, deixa de bobagem/já virou sacanagem") Dança do xenhenhém e Barriga vazia. Inesquecível é também O amor é lindo, que fala em "alô, rapaziada que gosta de dançar/alô rapaziada que gosta de cantar/lá lá lá lá lá lá lá lá lá/din din din gum gum gum/lá lá lá lá lá lá lá lá lá/lá lá lá lá lá lá lá lá lá" - e na sequência questiona "e a poesia?". Ora, a poesia...



"ESTRELA PRIMEIRA" - BANDA BEIJO (1992) - Metal e axé: tudo a ver. Se a vertente mais sombria do peso metálico saiu do álbum Black metal (1982), do Venom, o nome "axé music", criado ainda nos anos 80 na Bahia, deve sua popularização em todo o Brasil por causa do álbum Axé music: aconteceu, do grupo então liderado pelo vocalista Netinho. "O" hit dessa época é esse, com percussões dosadas, estrutura Bahia-teen-pop e versos como "amor, eu fico/nesse balanço você baila comigo".


"NÃO TEM LUA" - ASA DE ÁGUIA (1992) - Acredite ou não, mas Durval Lellys, guitarrista e compositor do Asa de Águia, é fanático por Pink Floyd e pelo colega de instrumento David Gilmour. O Asa começou como banda de rock, mas por necessidade financeira, caiu dentro do axé;. De músicas como Dança da manivela, Dança do vampiro e Xô satanás dá, no mínimo, para dizer que divertem. Mas tem canções bem legais ali, como Não tem lua. Dança aí!


"REQUEBRA" - OLODUM (1993) - Difícil de acreditar. Mas o Olodum já mereceu resenhas-cabeça em revistas de música (como a Bizz) e já foi visto por muitos críticos como a salvação da esfera pop nacional. Aliás, diga-se de passagem, toda a música baiana desfrutou de certo apoio da critica antes de se tornar o som oficial do carnaval e bem antes do termo "axé music" ganhar massificação. No fim dos anos 80/começo dos 90, o som percussivo e a alcunha de "banda reggae" (além do fato de terem participado de The rhythm of the saints, álbum de Paul Simon, em 1990) garantiam isso ao Olodum. Bem... o sucesso no axé mais popularesco viria a galope, com hits safados como Requebra ("embaixo, embaixo, embaixo, embaixo/ôôôô/em cima, em cima, em cima, em cima/ôôôô") e Alegria geral (dos eufóricos versos "Olodum tá hippie, Olodum tá pop/Olodum tá reggae, Olodum tá rock". E não tem quem não saiba cantar isso, até hoje.


"BEIJA-FLOR" - TIMBALADA (1993) - Uma matéria na mesma Bizz explicava, nessa época, que Carlinhos Brown ainda "iria ser o nosso super herói". Não foi o que aconteceu, como ficou público e notório. Mas no que dependesse da estreia da Timbalada, bons ventos apareceriam nos caminhos do percussionista e compositor baiano, que estreou nas rádios com uma fileira de hits - incluindo Beija-flor, que por sinal não é dele, e sim de Xexéu e Zé Raimundo. O nome "timbalada" acabou virando quase um genérico para a música pop baiana, em meio à popularização do termo "axé music" - a Rádio Cidade, no Rio, chegou a pôr no ar um programa chamado Timbalada da Cidade, só com axé.



"MELÔ DO TCHACO" - TONHO MATÉRIA (1993) - A dança do tchaco não apareceu apenas neste hit - foi lembrada também em pérolas do É O Tchan, como Dança gostosa e Dança do bumbum. A conta moral e musical foi toda parar no bolso de Tonho Matéria, ex-cantor do Ara Ketu e do Olodum, que propagou a dança e o hit ("tchaco, eu tô em cima eu tô embaixo", "é tchaco pra frente, é tchaco pra trás" - você dançou, não?) no carnaval de 1993. Tonho ainda continua gravando e fazendo shows - confira seu site.


"ARA KETU BOM DEMAIS" - ARA KETU (1994) - Para levantar estádios: é aquela música que você conhece, com os versos "não dá pra esconder/o que eu sinto por você, Ara". Foi gravada originalmente em 1994 no disco Bom demais (Sony) mas efetivamente só viraria sucesso nacional em 1998, quando o bloco a regravou num disco ao vivo. Mesmo quem odeia música baiana acaba cantando.


"PAU QUE NASCE TORTO/MELÔ DO TCHAN" - É O TCHAN (1995) - A primeira faz tchan, a segunda faz tchum e... "Tudo o que é perfeito a gente pega pelo braço/joga lá no meio, mete em cima, mete embaixo/depois de nove meses você vê o resultado". Campanhas pelo uso de camisinha à parte, o espírito do carnaval, em sua versão mais realista e menos romântica, está aí. Gravada quando o grupo ainda se chamava Gera Samba, acabou batizando a banda após o imbróglio judicial com uma formação baiana de mesmo nome. E marcou época - virou o divisor de águas do som baiano, quase um alambrado entre o romantismo e o star system no axé.

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