terça-feira, 26 de novembro de 2013

FEIRA HIPPIE DE IPANEMA

A capa do Caderno D deste último domingo foi minha. O tema foi a festa de 45 anos da Feira Hippie de Ipanema, com vários shows (entre eles, uma apresentação do padrinho Serguei) e uma estranha mistura de hippies com punks: a banda Commando faria um show de covers dos Ramones, com direito à participação do irmão do vocalista Joey Ramone (1951-2001), Mickey Leigh. Procurei focar nesse lado punk da feira, com os sacrifícios que essa galera passa, as dificuldades para a profissionalização de artesãos, o pouco caso da prefeitura, etc. Já passou a festa, mas fica aí como registro - assim como o belo trabalho de Mariana Erthal, que fez a diagramação. As fotos são do amigo Luciano Oliveira.

Como costumo fazer nas matérias que escrevo sobre eventos factuais (como rola nas capas do
Guia Show e Lazer, etc) busquei informações históricas interessantes que complementassem o evento, não fiquei só no que ia acontecer por lá. Bati um papo com Ney Matogrosso, que lembrou da ocasião em que viu Janis Joplin por lá e aproveitou para esclarecer melhor uma informação que até seu site oficial dá como verdadeira, e que ele desmente - ele nunca teve barraca na Feira Hippie. Leiam aí.


Fica aqui meu agradecimento a todos os barraqueiros da Feira, à amiga produtora-assessora Jô Rocha e, em especial aos pioneiros da Feira, como Ivan Jilek e Victor Gomez, que me deu uma cópia autografada de seu livro (abaixo), cheio de contos fantásticos e surrealistas.
FEIRA HIPPIE DE IPANEMA FAZ FESTA DE 45 ANOS E RELEMBRA SUA HISTÓRIA

Local por onde já passaram famosos como Ney Matogrosso e Janis Joplin comemora aniversário com show de rock, samba e até pagode gospel
Publicado em O Dia em 24 de novembro de 2013


"Pô, mas a gente vai posar com bandeira dos Ramones? A gente tem é que homenagear o Serguei, que é o nosso padrinho!”, exclama Ivan Jilek, o Croata, 65, um dos pioneiros da Feira Hippie de Ipanema. A mais tradicional feira ao ar livre do Rio completa hoje 45 anos com show, sem esquecer os ideais libertários, mas em clima punk. O evento une o rock do próprio Serguei (que se apresenta com a banda Pandemonium) ao grupo Commando, que faz cover... dos Ramones. E ainda traz Mickey Leigh, irmão do vocalista Joey Ramone (e autor do livro Eu dormi com Joey Ramone, sobre o brother ilustre) em participação.


“O espírito do punk não está fora da feira, não”, garante Paulo Sérgio Torres, 59, que vende camisetas, buttons, colares e demais apetrechos de rock na sua barraca. Buttons de bandas como The Clash e Sex Pistols, de poucos acordes e muito peso, saem bastante lá. “Mas também vendemos muita coisa de artistas dos anos 60 e 70, como The Doors, Jimi Hendrix, Black Sabbath".

Era o som preferido dos pioneiros do local. “A gente ouvia Janis Joplin, Jimi Hendrix. Os hippies se concentravam na praça”, recorda Roberto Luiz, 65 anos, o popular Robertinho de Niterói, um dos primeiros a vender artigos de couro por lá. O médico Sergio Susana, 63, que vende artigos de vidro, lembra: “Os hippies e os artistas não tinham onde expor. O (artista plástico) Hugo Bidet (1934-1977) começou a vender os quadros eróticos dele aqui e, depois, veio todo mundo”. Glauco Brasil, 63 anos e braços cobertos de tatuagens, personifica o estilo rocker lá, na barraca que vende pirogravuras em couro.

O clima “punk” vai para o estilo de vida dos expositores. Muitos moram em lugares bem distantes de Ipanema. Acordam bem cedo para levar quilos e mais quilos de material. A valorização do trabalho de artesão também não vem de graça — e muita gente sustenta famílias com esse trabalho. “Para se profissionalizar, você tem que correr atrás. Fiz escola técnica de desenho. E o trabalho não é só domingo. Às vezes, passo 12 horas por dia criando”, diz Glauco. “A prefeitura precisava olhar para a gente. Não temos banheiro nem estacionamento. A luz sai do nosso bolso. Um tempo atrás, fecharam a feira por um dia”, reclama Marcos Sandro, 42, o Marcão, presidente da feira, e filho de uma pioneira, dona Joanita, 79.


“Mas, para mim, tudo compensa. Tinha outra profissão antes e desisti quando pintou o ‘ter que fazer’. Minha vida é mais livre hoje. E, sempre que precisei, alguém me ajudou”, diz Ivan Jilek. Ele nasceu mesmo na Croácia e tem 60 anos de Brasil. E documenta a história da feira em fotos, que tira desde 1968. “Quero lançar um livro com essas imagens”, diz Ivan, mostrando o acervo para dois outros amigos veteranos no local: Oscar Andersons, o popular Pica-Pau, e Victor Gomez. Bem pertinho, a Carmen Miranda local, Rosy Reis, dá um toque tropicalista ao local, vendendo só artigos ligados às cores da bandeira do Brasil. “Os turistas fazem muitas fotos aqui. A feira roda o mundo!”, garante.

NEY VIU A JANIS A Feira Hippie de Ipanema sempre atrai famosos, nacionais e internacionais — uma produtora da Madonna já foi vista por lá e atores e atrizes, como Eliane Giardini, já foram clicados dando rolé entre as barracas. Mas é Janis Joplin que é citada por dez entre dez expositores pioneiros como uma famosa que marcou época — ela esteve no Brasil em fevereiro de 1970 e, claro, visitou o reduto hippie. “Eu a vi por lá. Era uma mulher muito alta, de óculos cor-de-rosa. Lembro que ela tirou uma garrafa de Fogo Paulista da bolsa e bebeu no gargalo. Fiquei chocado”, recorda Ney Matogrosso, que frequentava o local nos anos 70. Uma época em que ser hippie era (vá lá) uma experiência quase punk. “Eu mesmo era revistado pela polícia quase toda hora”, diz Ney, aproveitando para esclarecer que, ao contrário do que se diz, nunca possuiu uma barraca na feira. “Vendi produtos de artesanato numa feira em São Paulo, mas foi uma fase rápida".

SERGUEI TAMBÉM O padrinho da feira se apresenta cantando clássicos do rock neste domingo por lá, acompanhado da banda Pandemonium. Como é público e notório, o relacionamento do cantor com a roqueira morta em 1970 não se resumiu a um passeio. “Fui com ela lá e só estava preocupado em protegê-la e apresentá-la a todo mundo. Todos a reverenciaram”, recorda Serguei, convidando todo mundo para curtir o show e ver as modas. “A feira é um lugar em que todo mundo pode ser diferente. Uma amiga minha acaba de fechar uma loja de roupas em São Paulo por causa da caretice. Todo mundo se veste igual. Cadê a revolução que a gente fez?”

VEM PRA FEIRA, BICHO! Não tem só rock na festa de 45 anos da feira. Tem até pagode: às 10h30 tem show do grupo de pagode gospel Labaredas de Fogo e ao meio-dia, samba de raiz com o grupo Samba Cultural. Bem antes, às 9h30, tem arte e recreação para as crianças. Às 14h começa o rock com Makcy T-Rex Suarez, tocando os clássicos do estilo. A banda Dona Penha segue às 15h e, às 16h, o padrinho Serguei toca com a banda Pandemonium. Às 17h30, tem cover de Ramones com a banda Commando. O irmão do vocalista Joey Ramone, Mickey Leigh, participa do show. Mickey lembra que o irmão adorava a música dos anos 60 e 70. “Era um grande fã de The Who, do Jefferson Airplane”, diz.

Um comentário:

  1. Obrigado amigo Ricardo. Muito boa sua reportagem sobre o aniversário de 45 anos da Feira Hippie de Ipanema.

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