segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

QUARENTA DISCOS DE 1974

O ano de 1973 foi imbatível musicalmente. Sem discussão quanto a isso. Já 1974, há quarenta anos - por acaso, o ano em que eu nasci - foi...

Não sei dizer, e geralmente consigo pensar nele mais pelo que ele NÃO foi. Não foi o ano em que uma verdadeira renovação na MPB chegou às lojas na forma de vários álbuns de artistas novos - Fagner, Sérgio Sampaio e Luis Melodia estavam nessa lista. Não foi o ano de Houses of the holy, do Led Zeppelin (1973). De The rise and fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars, de David Bowie (1972). De Electric warrior, do T Rex (1972). Não foi igualmente o ano em que os Secos & Molhados lançaram o primeiro disco (1973), que os Mutantes lançaram Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets (1972), o último sem Rita Lee. Novo aeon, de Raul Seixas, e Physical graffiti, do Led Zeppelin, só sairiam em 1975. E, claro, nem sombra de Never mind the bollocks, dos Sex Pistols, lançado em 1977.

Ele talvez tenha sido - ok, para ter certeza, melhor perguntar a quem tinha idade para pensar sobre isso na época - um ano, musicalmente falando, fragmentado, confuso, meio na dúvida entre os rococós do progressivo e algo mais demolidor. Ou entre a credibilidade de rua (por acaso, foi o ano em que os Ramones surgiram) e a grandiloquência e a opulência de uma época em que discos vendiam e shows de rock rolavam quase sempre em grandes estádios. Havia algo mais no ar do que os aviões de carreira. Ou o avião que o Led Zeppelin usava, com o logotipo da banda, para rodar o mundo, fazer turnês monumentais, traçar fãs e destruir hotéis. Alguém iria pagar por essa conta, digamos assim.

Antes do punk surgir, quem queria renovação estava ligado na purpurina do glam rock. Quem queria rock "jovem" podia se ligar nas fanfarronices do Queen ou no começo do heavy metal. Um estranho gosto por rock sinfônico, que surgira dos intestinos do rock progressivo (e de encucações "eruditas" como Atom heart mother, o disco de 1970 do Pink Floyd), já dominava as paradas de sucesso.

Quem nasceu em 1974 chega em 2014 aos 40 anos, uma idade em que... Bom, em que você não é mais jovem MESMO. Em que luta com o fato de que a velhice está chegando aí. Ou não luta, a escolha é sua, mas que é complicado, é. E em que sabe que pode viver menos do que já viveu. Sim, é confuso.  Mas de certa forma, tudo a ver com um ano como 1974.

Seguem aí abaixo 40 álbuns lançados em 1974 que dão 40 motivos para todo mundo se orgulhar, musicalmente falando, de um ano que costuma ser muito pouco lembrado quando se trata de álbuns clássicos. Alguns deles mudaram vidas. Outros introduziram artistas que, em pouco tempo, lançariam discos melhores no mercado. Consigo reconhecer em alguns deles uma riqueza que, mesmo quatro décadas depois, ainda não foi devidamente avaliada.

1974 nunca vai ser igual a 1973. Mas também foi o ano. Descubra aí. E ouça tudo.



"OLD, NEW, BORROWED AND BLUE" - SLADE (Polydor). Responsáveis pela face beberrona e gritalhona do glam rock, os ingleses do Slade vinham de álbuns bizarros como Slade alive (1972), no qual guitarras e berros misturavam-se a arrotos (na balada Darlin' be home soon). A evolução vinha com baladas açucaradas como Everyday e rocks com cara de Beatles e Who como My friend Stan. No mesmo ano, lançariam um pacote com disco e filme, Slade in flame. A trilha aberta por mais duas canções docinhas (How does it feel e Far far away) poderia até fazer a banda crescer mais, mas a descaracterizaria a ponto de gerar baladões de FM como My oh my, anos depois.

"AUTOBAHN" - KRAFTWERK (Philips) - O grupo alemão ainda usava guitarras (elas podem ser ouvidas miando em Mitternacht) e instrumentos acústicos (traziam pianos, flautas e um koto japonês em Morgenspaziergang). E tinha recém saído de uma fase em que, ostentando cabelões enormes, quase emulavam o Pink Floyd e o King Crimson. Em Autobahn, inovaram por homenagear as fabulosas autoestradas alemãs com uma canção de 22 minutos, repleta de diferentes climas, tentando criar na cabeça do ouvinte uma viagem de automóvel por diversas paisagens. Tornou-se chiclete de ouvido de nomes como David Bowie.

"TODD" - TODD RUNDGREN (Bearsville) - Rotulado como músico "progressivo" por falta de definição melhor, Todd vinha de dois trabalhos que pareciam insuperáveis,  Something/Anything?, de 1972, e A wizard, a true star, de 1973. Continuou misturando som pop e experimentalismo neste álbum duplo. Puxado pelo hit A dream goes on forever, escondia outras belezas, como o instrumental The spark of life e o gospel Sons of 1984.


"IT´S ONLY ROCK´N ROLL" - ROLLING STONES (Rolling Stones/Atlantic) - Sai o clima pesado de Exile on main street (1972) e some o tom exageradamente pop de Goat's head soup (1973, com o hit Angie batendo a carteira de fãs e não-fãs). A ordem agora é a de leveza e boas canções inspiradas pelo rock básico e pelo soul, como em If you can't rock me, Short and curlies, If you really want to be my friend, Time waits for no one e outras. Ain't too proud to beg, cover dos Temptations, surge como um presente da banda, em meio à boa safra de Mick Jagger e Keith Richards.

"WONDERWORLD" - URIAH HEEP (Bronze) - O primeiro disco do Uriah Heep com visual "normal" na capa vinha após vários anos de descaracterizações na formação da banda. Deu uma desagradada nos fãs e até no próprio grupo. Firme na mistura de heavy metal e rock progressivo, estava bem longe de ser um disco ruim, graças a músicas como Suicidal man e o single Something or nothing.

"SHININ' ON" - GRAND FUNK RAILROAD (EMI) - Após algumas mudanças na formação, o GF, com Todd Rundgren operando a produção, soava menos garageiro e estridente, e mais chegado ao soul e ao blues. E em paz com as FMs. O hit foi uma releitura de The loco-motion, hit da fase compositora-de-aluguel de Carole King (em parceria com Gerry Goffin), com os dois pés no gospel. Tocou em rádio até no Brasil.


"461 OCEAN BOULEVARD" - ERIC CLAPTON (RSO) - Clapton estava longe da heroína e finalmente amasiado com Pattie Boyd, musa do desecantado hit Layla e ex-mulher do amigo George Harrison, que - ah, os anos 70 - perdoou a furada dupla de olho. Para comemorar a boa fase, o guitarrista-da-mão-lenta reuniu amigos e se reempacotou como artista pop num álbum ensolarado e repleto de releituras. A mais famosa é I shot the sheriff, de Bob Marley.

"BURN" - DEEP PURPLE (Purple) - A máquina do hard rock não podia parar: reestreando com David Coverdale nos vocais e o supermúsico Gleen Hughes no baixo, o Deep Purple mostrava um retorno discreto ao passado progressivo do grupo (na faixa-título) e inseria detalhes de black music em outras canções. Discão.

"BUDDHA AND THE CHOCOLATE BOX" - CAT STEVENS (Island) - O oitavo disco do cantor vinha cheio de encucações religiosas e filosóficas. O título vem de uma viagem de Cat sobre desapego, após ver-se, durante um passeio de avião, com uma miniatura de Buda numa das mãos e uma caixa de chocolates na outra. Canções como Jesus e Oh very young apontam caminhos espirituais que o artista seguiria no futuro.

"RELAYER" - YES (Atlantic) - O Yes tinha acabado de lançar um disco duplo com quatro faixas, Tales from topographic oceans (1973). Não havia limites na hora de compor canções que ocupassem todo um lado do álbum ou que dessem trabalho na hora de escolher um single. Em Relayer, primeiro LP gravado após a saída do tecladista Rick Wakeman (Patrick Moraz tomou seu lugar), isso ainda funcionou. Trechos de The gates of delirium (22 minutos!) aparecem, de vez em quando, até hoje como música-tema de reportagens na TV.


"ODDS & SODS" - THE WHO (Polydor) - O objetivo de John Entwistle, baixista do Who, com este disco, era atacar a pirataria com uma boa coletânea de singles do grupo, voltando até o começo da história da banda (o compacto I'm the face, dos High Numbers, primeira encarnação do quarteto). Não funcionou direito porque boa parte do material já rolava em LPs piratas e não deixaria de rolar por causa disso, mas foi a base da caixa de CDs 30 years of maximum r&b, lançada em 1994.

"BRIDGE OF SIGHS" - ROBIN TROWER (Chrysalis) - Lançado ao mercado como o "novo Jimi Hendrix", o ex-guitarrista do Procol Harum vinha armado com seu próprio Experience - além dele, tinha James Dewar no baixo e Reg Isidore na bateria. Seu segundo álbum solo angariou vários fãs e acabou virando um clássico poderoso. O hit Day of the eagle já foi usado até como vinheta do programa CQC (bati um papo com Trower certa vez para o Jornal do Brasil - leia aqui).

"HOTTER THAN HELL" - KISS (Casablanca) - Ensanduichado entre uma estreia poderosa (também de 1974, homônima) e o campeão Dressed to kill (de 1975, com o hit Rock n roll all nite), o segundo do Kiss era a prova de que o grupo americano estava pronto para o sucesso, para as turnês monumentais e para a demanda dos (inúmeros) fãs. Got to choose, Parasite, Hotter than hell e Mainline são imbatíveis até hoje.

"HAMBURGER CONCERTO" - FOCUS (Atco) - Tido como o último grande álbum do grupo progressivo holandês por muita gente séria, foi também o começo da falta de estabilidade na formação da banda - o batera Pierre Van Der Linden saiu e deu lugar a Colin Allen, que vinha da banda escocesa Stone The Crows. Daí para a frente, o line-up pouco parou quieto, com discos cedendo a pressões das gravadoras (fizeram até disco music no - bom, vá lá - Focus con Proby, gravado ao lado do crooner americano P.J. Proby, em 1978). Traz o hit Harem scarem.


"DIAMOND DOGS" - DAVID BOWIE (RCA) - Bowie, que havia se mudado para os Estados Unidos, tentara montar um musical baseado no livro 1984, de George Orwell, mas foi impedido pelos herdeiros do escritor. A solução foi criar um álbum que unia os temas do livro às visões aterradoras do futuro que o cantor tinha na época. Diamond dogs, o disco-resumo de todas essas ideias, saiu glam, pesado e até mais conceitual (ou "progressivo", vá lá) do que álbuns anteriores. Revelou duas gemas pop, Rebel rebel e Diamond dogs, a disco-music 1984 e o soul We are the dead. Ganhou também tons amedrontadores em músicas como Big Brother. Durante a tour, Bowie cai de nariz no pó, emagrece como nunca, entra em órbita e é flagrado pelas câmeras da BBC nesse estado, no documentário Cracked actor.

"SALLY CAN'T DANCE" - LOU REED (RCA) - O ex-Velvet Underground podia até não vender muitos discos. Sua gravadora não deixava de apostar mesmo assim: entravam e saíam produtores e músicos, discos eram lançados duas vezes num ano. Sally can't dance fez a RCA começar a ver a grana entrando, graças a canções cáusticas como Kill your sons, na qual Reed refere-se à sua internação num sanatório na adolescência, providenciada por seus pais. Doug Yule, ex-colega do Velvet (que carregou sozinho o nome da banda após todo mundo debandar), toca baixo em Billy. Foi nessa época que o judeu Lou, mais perdido que cego em tiroteio, circulou pela noite novaiorquina com uma cruz gamada raspada na cabeça.

"WALLS AND BRIDGES" - JOHN LENNON (Apple) - Separado de Yoko Ono por 18 meses, John Lennon fez um disco tão bom quanto confuso - e que gerou seu primeiro single número 1 nas paradas americanas, Whatever gets you thru the night. Estava tudo muito estranho: enquanto reatava com amigos como Mick Jagger e com o próprio filho Julian (que toca bateria em Ya ya), Lennon patinava no desequilíbrio, abusando de drogas e álcool. Foi nessa época que o ex-beatle, numa festa na Mansão Playboy, destratou convidados e apagou um cigarro num quadro de Henri Matisse ("Nem me importei. O quadro passou até a valer mais: Matisse reinterpretado por John Lennon", diria anos depois o dono do império Playboy, Hugh Hefner, em entrevista à sua própria publicação).


"ROCKAROLLA" - JUDAS PRIEST (Gull) - Disco de estreia do grupo britânico de heavy metal, que, mesmo cheio de boas canções, não deixou a banda nada satisfeita. O produtor Rodger Bain, que havia cuidado dos primeiros álbuns do Black Sabbath, exagerou no controle, mandando a banda substituir canções que já faziam sucesso nos shows por músicas novas. Vale ouvir mesmo assim. O título e o logotipo fazendo referência a uma certa bebida gasosa deram muita dor de cabeça para a banda - que foi processada e obrigada a mudar a capa do álbum.

"CHICAGO VII" - CHICAGO (Columbia) - Lançando um disco por ano e sempre retrabalhando criativamente seu logotipo (que nas capas dos álbuns, era transformado em imitação de madeira, chocolate, porta-retrato, papel-moeda, etc), o grupo americano retornou com um álbum duplo, cada vez mais jazzístico. Foi o último disco em que o percussionista brasileiro Laudir de Oliveira atuou com o status de músico convidado - ele seria efetivado a partir do Chicago VIII, de 1975.

"BAD COMPANY" - BAD COMPANY (Swan Song) -  A história deles lembrava um pouco a do Led Zeppelin - e o grupo acabou sendo um dos primeiros contratados do selo dirigido pela banda, Swan Song. Assim como Page, Plant, Jones & Bonham, eram um supergrupo formado por músicos com tempo de janela: o cantor Paul Rodgers vinha do Free, o guitarrista Mick Ralphs foi do Moot The Hoople, e vai por aí.  Misturando influências e experiências, surgiu o disco de estreia, com clássicos como Can't get enough.

"JOURNEY TO THE CENTRE OF THE EARTH" - RICK WAKEMAN (A&M) - Para o segundo disco solo, o ex-tecladista do Yes não mediu esforços - vendeu até alguns de seus carros para pagar todos os músicos de orquestra e, mesmo arriscando-se a comprometer o resultado, optou por uma gravação ao vivo no londrino Royal Festival Hall para baratear custos. Sofreu incompreensões dentro da própria gravadora (que de início recusara-se a lançar o disco), mas virou clássico instantâneo: nos anos 70, mesmo no Brasil, não havia quem não tivesse uma cópia em casa. Em 1975, Wakeman viria ao Rio dividir o palco com o maestro Issac Karabtschevsky no Projeto Aquarius.

"THE HOOPLE" - MOTT THE HOOPLE (Columbia) - Abençoados por David Bowie - que lhes dera All the young dudes em 1972 - o Hoople virava mania. Tudo podia acabar de uma hora para a outra, mas ninguém largava o osso. No último disco da fase glam, vinham com mais um single primoroso, The golden age of rock and roll, e caíam na estrada em turnê aberta pelos então novatos do Queen (no ano anterior, a banda de abertura era nada menos que o Aerosmith). Após o álbum, o guitarrista Ian Hunter sairia para iniciar uma carreira solo à sombra de Bowie e o grupo passaria a se chamar apenas Mott.


"COURT AND SPARK" - JONI MITCHELL (Asylum) - Marcada pessoalmente pelo fato de, quando bem jovem, ter entregue uma filha para adoção - e artisticamente pela competição com Bob Dylan, por quem já nutriu da adoração desmedida ao mais profundo desprezo - Joni Mitchell une jazz, soul e pop agridoce de violão-e-piano naquele que se tornou seu disco mais bem sucedido comercialmente. Entre os destaques, a desesperada Help me, Free man is Paris (dedicada ao "patrão" David Geffen, fundador do selo Asylum) e Raised on robbery.




"SHEER HEART ATTACK" - QUEEN (EMI) - Mais do que criticados, os quatro rapazes do Queen chegavam a ser ofendidos pela crítica dos anos 70. Como não existe propaganda ruim, os fãs seguiam comprando mais e mais discos do grupo. O terceiro álbum, Sheer heart attack, foi o primeiro sucesso mundial da banda e ainda conseguiu ganhar aceitação da crítica de modo geral. O som que influenciou de Metallica e Ratos de Porão (João Gordo é fã ardoroso) a Killlers e Fun voltou mais pesado e mais elaborado, em clássicos como Killer Queen (tida, de fato e de direito, como o primeiro thrash metal) e Stone cold crazy. Muita gente séria considera como o melhor disco deles.

"ON THE BEACH" - NEIL YOUNG (Reprise) - Lançado em CD só em 2003 após anos de indisponibilidade (fãs precisaram fazer uma petição para que o cantor, que odeia CDs, liberasse o lançamento), foi considerado pela Rolling Stone como "um dos álbuns mais desesperadores dos anos 70", herdeiro do tom quase dark de Tonight´s the night (gravado em 1973 e só lançado em 1975). Com acidez e ódio na ponta da língua, Young zoa o QG da geração de "cantores sensíveis" dos anos 70 (Laurel Canyon, em Los Angeles) em Revolution blues e sai de novo no tapa com o Lynyrd Skynyrd em Walk on.

E agora, os nacionais:


"GITA" - RAUL SEIXAS (Philips) - Os anos 70, por um viés pop-rock, estão aqui. A fórmula inclui padrões de produção até hoje não igualados (só na faixa-título, que você já conhece, são mais de 50 músicos), grandes canções (Sociedade alternativa, se puxada num estádio lotado, faz todo mundo cantar), apego rocker às raízes do estilo e à nação Woodstock (além dos vocais apontando para Elvis Presley, Super heróis encapsula Kansas City, hit do rock dos anos 50 gravado por meio mundo, e S.O.S chupa descaradamente Mr. Spaceman, dos Byrds), nordestinidade (em O trem das sete e no repente As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor). E um melting pot esotérico nas letras, herdadas dos controversos escritos de Aleister Crowley, mas apontando, a seu jeito, para Jesus Cristo e religião hindu.

"LÓKI?" - ARNALDO BAPTISTA (Philips) - Um dos mais belos e intensos álbuns lançados na história da música popular brasileira. Gravado às pressas em meio a crises emocionais e depressivas de Arnaldo - que havia perdido Rita Lee para sempre - traz canções pop confessionais, à moda dos anos 70, feitas ao piano. Será que eu vou virar bolor? é o quase hit, mas ainda tem o rescaldo dos Mutantes Uma pessoa só, o rock-piano-bar de Navegar de novo, a tristeza prog de Desculpe e Te amo podes crer e outras surpresas.


"DRÁCULA I LOVE YOU" - TUCA (Som Livre) - Um estranho e pouco conhecido equivalente feminino de Lóki?. Revelada no auge da era dos festivais, Tuca (Valeniza Zagni da Silva) gravou este disco na França, três anos depois de ter participado ativamente de La question, clássico da cantora Françoise Hardy. O som é triste e misterioso, unindo MPB, rock, pop agridoce, lisergia, soul e feridas emocionais - Françoise conta em sua autobiografia que a amiga estava numa baita fossa por causa da atriz italiana Lea Massari. A cantora morreria em 1978.



"A TÁBUA DE ESMERALDA" - JORGE BEN (Philips) - Até o veterano suingueiro carioca aderiu, a seu modo, ao trem esotérico que levou Raul Seixas e Tim Maia. Além do hit Os alquimistas estão chegando e de viagens como Hermes Tri Errare humanum est, personalidades da alquimia como Paracelso e Nicolas Flamel tornam-se personagens de músicas como O homem da gravata florida O namorado da viúva, respectivamente. Na raiz samba-rock, entra um toque folk-pastoril que perduraria no violão de Jorge por alguns anos - Minha teimosia, uma arma pra te conquistar lembra, de leve, Lay lady lay, de Bob Dylan.

"BELCHIOR (MOTE E GLOSA)" - BELCHIOR (Chantecler) - Um dos raros artistas brasileiros a combinar letra de música e poesia de verdade - e talvez o único letrista verde-e-amarelo que poderia bater no peito e falar: "Sou o Bob Dylan brasileiro". Estreando em disco, combinou experimentalismos (Bebelo, Mote e glosa), romantismo herdado de Beatles (Todo sujo de batom, Passeio) e melancolia jovem (A palo seco, Na hora do almoço). Num país sério, Belchior seria tão cultuado quanto Dylan e John Lennon.

"TUDO FOI FEITO PELO SOL" - MUTANTES (Som Livre) - A estreia da fase progressiva dos Mutantes, com Sergio Dias no comando, saiu em meio a tensões (Liminha, co-autor de várias músicas, abandonou o grupo pouco antes do disco) e um ou outro nariz torcido da crítica (que preferia o grupo em fases menos sisudas). Revelou um grande disco do estilo e acabou vendendo mais que os álbuns anteriores. O repertório tem sido revivido pelo grupo, com a mesma formação da época, em shows ocasionais.

"ELIS & TOM" - ELIS REGINA E TOM JOBIM (Philips) - Em vez de exigir uma Mercedes como luvas para renovar contrato em seus dez anos de carreira na gravadora, Elis pediu para gravar um disco nos Estados Unidos com Tom Jobim. Realizado em pouco mais do que 15 dias, revestiu de suíngue canções do repertório de Tom como Inútil paisagem e Só tinha de ser com você. E apresentou a definitiva e desencorajadora versão de Águas de março. Boa parte do álbum foi ensaiada no estúdio caseiro de ninguém menos que Wanderléia - a musa jovemguardista morava em Los Angeles por aqueles tempos (sobre isso, leia aqui).

"LÍNGUAS DE FOGO" - SIDNEY MILLER (Som Livre) - Lançado igualmente na era dos festivais e grande fornecedor de canções para Nara Leão (Vento de maio, disco dela de 1967, é quase todo composto por ele e por Chico Buarque), Sidney chamou a galera do Som Imaginário para acompanhá-lo naquele que seria seu último disco. Caiu dentro de um caldeirão que misturava MPB, rock e psicodelia, bem diferente de seus outros álbuns. A garageira Dois toques chega a lembrar o começo da carreira do Grand Funk, ou canções dos pré-punks do MC5. Sidney suicidou-se em 1980.

"ATRÁS DO PORTO TEM UMA CIDADE" - RITA LEE (Philips) - O título surgiu de uma conversa pirada com Raul Seixas - que não foi creditado. O álbum que Rita fez após ter tido um disco inteiro recusado pela Philips (que geraria, anos depois, o piratão Cilibrinas do Éden) é um dos raros momentos em que o glam rock foi levado a sério e feito com categoria no Brasil, sem deixar de lado a tecladaria do rock progressivo. Menino bonito e Mamãe natureza foram os hits.

"VILA SÉSAMO" - TRILHA SONORA (Som Livre) - Composta e gravada pelo golden boy da segunda geração da bossa nova, Marcos Valle, num estúdio caseiro - com a ajuda de músicos como Novelli (baixo) e Nelsinho (bateria) - traz mais conexões com o espírito da época do que os temas infantis fazem supor. "A gente tinha reuniões com pedagogas, psicólogas. A mensagem que queríamos passar para as crianças era 'acredite em você, você pode derrubar a ditadura!'", me disse certa vez. Entre o soul e o rock herdado de Beatles, há pérolas como o tema de abertura Alegria da vida, a grudenta Abecedário e o discurso antibullying de Funga funga.

"1990 - PROJETO SALVA TERRA" - ERASMO CARLOS (Polydor) - Realizado a partir de encontros de Erasmo com músicos como Gabriel O'Meara (A Bolha) e Jorge Amiden (ex-O Terço), é o disco que tem hits como Sou uma criança, não entendo nada Cachaça mecânica, além de uma releitura hard rock de Negro gato. Sofreu a ação da censura, que cortou Vida blue, cuja letra fazia referência ao Esquadrão da Morte - no lugar, Erasmo gravou Bolas azuis, um improviso rock´n roll da sua banda, com letra em inglês.

"DIMENSÃO 75" - WILSON SIMONAL (Philips) - O lado "classe A" do showbusiness brazuca se despedia do cantor carioca aí. Dimensão 75 saiu pouco após Simonal realizar, durante seis meses, a temporada do show Circus, no Canecão - quase um musical, repleto de convidados, e sempre com casa cheia. Samba, soul, rock e pop adulto misturam-se em canções como A pesquisa (uma paródia de O vira, dos Secos & Molhados), a toada Sabiá laranja, o samba-rock Cuidado com o bulldog (de Jorge Ben, um dos raros hits do disco) e outras.


"MILAGRE DOS PEIXES AO VIVO" - MILTON NASCIMENTO E SOM IMAGINÁRIO (EMI) - Milton não vendia muitos discos. Mas após pequenos fracassos de público na época do clássico Clube da esquina (1972), já atraía multidões a seus shows. Ciente disso, a EMI agendou a releitura ao vivo de seu censuradíssimo disco Milagre dos peixes (1973) para uma data no Municipal de São Paulo, com orquestra regida por Paulo Moura, além dos músicos do Som Imaginário. Clima progressivo-orquestral de primeiríssima, que quase foi registrado em filme. Marcio Borges, parceiro de Milton, e o cineasta Sérvulo Siqueira chegaram a iniciar as filmagens, mas esbarraram na falta de estrutura e no apoio zero da gravadora, deixando o projeto inconcluso.

"NUNCA" - SÁ & GUARABYRA (Odeon) - Com o fim do trio Sá, Rodrix e Guarabyra, cada um foi para o seu lado. Como dupla, Sá e Guarabyra começaram em 1974, unindo Beatles, Crosby, Stills, Nash & Young e pop mineiro (o som que ganhou o nome "rock rural" após Casa no campo, de Zé Rodrix) em canções como Divina decadência, Segunda canção da estrada e As canções que eu faço. Com eles no estúdio, a formação de O Terço que lançaria o álbum Criaturas da noite, em 1975.


"FLAVIOLA E O BANDO DO SOL" - FLAVIOLA E O BANDO DO SOL (Solar/Rozenblit) - Patrimônios do pop recifense, os discos lançados pelo selo independente Solar nos anos 70 - um deles é Paebiru, de Zé Ramalho e Lula Cortes - nunca tiveram um projeto de reedição em CD no Brasil. Lamentável. O álbum de Flaviola, cujo grupo teve o próprio Zé Ramalho como integrante, chega a ser desesperador de tão psicodélico, em músicas como Canto fúnebre, O tempo, Como os bois e Brilhante estrela.


"LEMBRANÇAS" - ODAIR JOSÉ (Polydor) - Na capa, Odair aparece de peruca - o cantor havia sido convencido pelo amigo Wagner Montes (o próprio) a raspar a cabeça numa cerimônia de umbanda. É o disco que traz músicas como Noite de desejos (que originalmente se chamava A primeira noite de um homem e havia sido censurada), Amantes, Barra pesada e A noite mais linda do mundo (entrevistei Odair para o jornal O Dia sobre a caixa que acaba de sair com quatro CDs dele - leia aqui).

Você acha que está faltando algum disco aí? Qual? Comente aí.


TODAS AS LISTAS DE QUARENTA:

- quarenta discos de 1974 parte um dois
- quarenta micromúsicas
- quarenta momentos em que a macumba virou pop
- quarenta músicas que você tem que ouvir parte um e dois
- quarenta melhores momentos de Hermes & Renato
- quarenta fatos sobre o Abba
- quarenta discos de 1984 parte um dois
- quarenta fatos sobre o Menudo.

4 comentários:

  1. Um álbum importante desse ano e pouco comentado até entre os fans de Metal é o "Fly To The Rainbow" do SCORPIONS. Apesar de ser o segundo álbum da banda, é o primeiro que realmente definiu o estilo que o consagrou. O Heavy Metal melódico, tipicamente germânico, foi inaugurado com esse álbum. Detalhe: é o primeiro álbum com o Ulrich Roth na guitarra.
    Outro álbum importante desse ano é o "Second Helping" do LYNYRD SKYNYRD. Só a primeira música, "Sweet Home Alabama", já vale o álbum e a imortalidade.

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  2. Tô fazendo outra lista, vai ao ar em fevereiro. Vão entrar esses!

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  3. 1974 foi um ano com muita fartura. Acho legal você analisar esses álbuns tb que saíram nesta data: Animais Irracionais [Dom & Ravel], Artistry [Eumir Deodato], Atlantis [Daniel Salinas], Ave Sangria [Ave Sangria], Baiano e Os Novos Caetanos [Baiano e Os Novos Caetanos], Cartola [Cartola], Dark Horse [George Harrison], Secos & Molhados II [Secos & Molhados], L.A. Turnaround [Bert Jansch], Marcos Valle [Marcos Valle], Moto Perpétuo [Guilherme Arantes], Palhaços e Reis [MPB4], Quen II [Quem] e Snegs [Som Nosso de Cada Dia].

    Renato Militani

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  4. Senti a falta de RED do King Crimson, Kansas primeiro álbum homônimo da banda kansas, Mirage da banda Camel; Phaedra dos alemães do Tangerine Dream, Dancing Machine dos The Jacksons 5 (Motown). No Brasil foi o ano de lançamento do "debut" do Made in Brazil (álbum homônimo).

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