sábado, 7 de junho de 2014

PAULO CESAR DE ARAÚJO FALA SOBRE "O RÉU E O REI" E ROBERTO CARLOS

O jornalista André Barcinski, do portal R7, fez em seu blog um texto muito bom sobre a história relatada por Paulo César de Araújo em seu livro O réu e o Rei - Minha história com Roberto Carlos, em detalhes. Diz mais do que eu poderia dizer. Leia aqui

Para mim, vale citar que conheci o trabalho de Paulo ainda no livro Eu não sou cachorro não, no qual ele faz uma defesa da música dita brega, "cafona", dos anos 70. E mostra que a ditadura perseguiu gente até como Odair José, que foi censurado e se exilou em Londres. Os livros de Paulo têm a saudável característica de fazer com que a gente não ouça mais música do mesmo jeito. É um escritor e biógrafo sem igual no Brasil.

Impossível ouvir Roberto Carlos do mesmo jeito após ler o sustado
Roberto Carlos em detalhes, que conta tudo sobre o Rei e sobre sua obra. O mesmo acontece, só que de maneira trágica em O réu e o Rei, no qual Paulo destrincha o que aconteceu em sua vida desde que começou a esmiuçar a vida de Roberto - incluindo os acontecimentos após Roberto Carlos em detalhes ser recolhido.

É triste ler os relatos de como Paulo tentou arduamente uma entrevista com Roberto Carlos para falar da biografia. E é torturante (sim, é, e confesso que li essa parte quase pulando as páginas) saber tudo o que rolou no encontro de Paulo com Roberto no tribunal, para tratar da proibição do mesmo livro. Dá nojo, dá vontade de pegar as caixas dos anos 60, 70 e 80 de Roberto (que reúnem o melhor da sua obra) e jogar no lixo. Ou vender baratinho no Mercado Livre. Paulo chorou na frente do ídolo e se dispôs a tirar as partes com as quais o cantor não concordava. O juiz ameaçou fechar a editora - que deu apoio ridículo ao escritor.

Nem só de Roberto vive o livro. Paulo detalha toda a pesquisa sobre MPB que gerou seus dois primeiros livros - incluindo uma amizade telefônica com João Gilberto que o fez reaproximar-se do pai, com quem não mantinha mais contato. E dá a cobertura definitiva do grupo Procure Saber e do envolvimento de Roberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil (e Paula Lavigne) com a questão das biografias. Também é de dar nojo, já aviso.

Conversei com Paulo para o jornal
O Dia, em matéria que você lê aí em cima ou lá embaixo. Lá pelas tantas, como você vê na matéria, perguntei para Paulo o que ele sentiu quando soube do Procure Saber. O que ele respondeu, você lê no texto: "Quando noticiaram que Roberto estava se encontrando com Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, pensei: 'Que bom que ele vai conviver com essas pessoas, que são leitores, escrevem livros. Para meu espanto e do país inteiro, o Roberto é que influenciou o Caetano, o Gil e o Chico, que é filho do (historiador) Sérgio Buarque de Hollanda'.".

O engraçado é que depois de responder, Paulo deixou o lado jornalista falar mais alto e me perguntou: "Você também não achou isso esquisito? Isso do Roberto influenciar o Chico e o Caetano?". Não entrou na matéria, mas respondi: não, Paulo, não estranhei. Nem um pouco: sempre achei que esses caras querem mesmo é grana, e que a grana, em muitos casos, está acima da dignidade artística e pessoal. Não estou falando de patrulhamentos babacas como o que fizeram com Tom Zé quando ele gravou uma vinheta para a Coca-Cola. Falo de coisas bem piores e mais escrotas.

Acho normalíssimo um cara como Caetano, que já acusou jornalistas de música dos anos 70 de serem "uma mistura de Roberto Marinho e Luís Carlos Prestes" (numa época em que a associação ao comunismo dava cadeia, tortura e morte - o caso está no livro
O rebelde do traço - A vida de Henfil, de Dênis de Moraes), associar-se a um golpe imbecil contra a liberdade de expressão, que é o que o Procure Saber é. E também acho normal que ele se associe à visão mercantilista e anal-retentiva de Roberto no que diz respeito à sua própria história - que, de tão entrecortada e cheia de personagens, já nem pertence mais a ele. Enquanto o Brasil não aprender a lidar com temas como liberdade de expressão e cultura, coisas como essas vão continuar acontecendo.


E vai aí o papo com Paulo. Depois leia o livro (link original da matéria aqui).

LIVRO DESTRINCHA A HISTÓRIA DA PROIBIÇÃO DA BIOGRAFIA DE ROBERTO CARLOS
Paulo Cesar de Araújo lança O réu e o Rei - Minha história com Roberto Carlos, em detalhes

Publicado em O Dia em 22 de maio de 2014

Lançado de surpresa, o novo livro de Paulo Cesar de Araújo, O réu e o Rei — Minha história com Roberto Carlos, em detalhes (Companhia das Letras, 528 págs., R$ 45) destrincha a história de sua obra anterior, a biografia Roberto Carlos em detalhes, e sua proibição. Ao DIA, Paulo fala sobre o Procure Saber (associação de artistas que querem proibir biografias não autorizadas) e diz que Roberto Carlos em detalhes pode virar filme. Para o autor, quando houver a modificação da lei de biografias no Brasil, cantor será o último censor, “em plena era da Comissão da Verdade”.

Como você está preparando a sua defesa caso o Roberto breque, o novo livro? Não houve nem tempo de pensar nisso, mas não acredito que façam algo. Os juízes estão bem mais esclarecidos, a sociedade está mais intolerante com esse tipo de censura. Até me perguntaram: ‘Mas você foi escrever de novo sobre o Roberto?’. Eu sou historiador, isso é a coisa mais natural do mundo. É um livro sobre meu objeto de estudo. As trevas não podem prevalecer sobre a luz, como eu costumo falar.

O fato de o livro ter o nome dele na capa não pode trazer dores de cabeça? Olha, só para exemplificar, no caso do Roberto Carlos em detalhes, sabe com o que ele mais implicou? Com o uso da palavra Detalhes, que vem de um canção dele. O termo não pertence a ele, ele não é dono da língua portuguesa. Ele é autor da música e eu sou autor do livro, são obras diferentes. Imagina se eu não posso citar meu próprio livro?

Você ainda ouve as músicas do Roberto? Sim. Inclusive ao escrever meu novo livro fui reouvir os discos dele. Analiso como cada disco era recebido pelos fãs e pela crítica. Não vou passar a achar que ‘Detalhes’ é uma música feia porque ele me processou. Só posso lamentar. E ele é apenas meu objeto de estudo. Ele é que brigou comigo, eu não briguei com ele.

O que você tem a dizer para quem chama você de oportunista? Espero que quem me chama assim pelo menos leia o livro desta vez. Antes me acusavam sem ler nada. Falavam: “Você lançou o livro em dezembro, quando o Roberto lança disco, daí você é oportunista”. Estou lançando o livro em maio e já estão me chamando da mesma coisa! O problema é que eles não querem que ninguém escreva nada sobre Roberto Carlos. E o livro até poderia ter saído em dezembro, mas por acaso saiu agora. Chegamos a pensar em lançá-lo ano passado, mas surgiu aquela história do Procure Saber e esperamos um momento melhor.

Roberto reclamou muito das menções ao nome da (esposa do cantor, morta em dezembro de 1999) Maria Rita em Roberto Carlos em detalhes. Mas foram informações que estavam em revistas como a Caras, certo?. As informações que estavam no livro já circulavam há bastante tempo, não é? Sim, sim. Tanto que ele não me processou por calúnia. Ele só disse que não era para contar, porque ele se sente invadido. Chegaram a falar que “o Roberto é o artista mais discreto da música brasileira”. Mas ele sempre dividiu a vida dele com o público. Músicas como Traumas e O divã falam do acidente que lhe tirou a perna.

Você conta que na audiência criminal em que esteve com Roberto Carlos, o juiz Tércio Pires pediu para tirar uma foto com ele, entregou-lhe um CD e pediu a opinião do Rei. O juiz alega que não pediu opinião nenhuma. Teme processo da parte dele? O que está ali no livro é meu testemunho. Ele pode ter esquecido, mas eu não esqueci. Foi marcante porque ele pediu a opinião do Roberto e a minha. Não sei porque ele ficou incomodado com isso. Para mim, muito pior que isso foi ele ameaçar fechar a editora Planeta caso não aceitássemos o acordo.

Por que a estratégia de lançar o livro de surpresa, sem divulgação? Acredito que a editora tenha feito isso para não provocar ruídos desnecessários antes do lançamento.

O que achou do comercial do Rei para a Friboi? Aquilo foi uma das páginas mais tristes da história do Roberto. Como fã, fiquei triste por ouvir um clássico (O portão) usado daquela forma, aliado ao massacre dos animais. Nem pensei nisso pelo fato de o Roberto ser vegetariano, mas ele gravou músicas como As baleias, sempre me pareceu sensível à causa animal. Ainda por cima era um comercial ruim, malfeito. Se me falassem que o Roberto iria fazer aquilo, não acreditaria.

O que você pensou quando surgiu o grupo Procure Saber? Bom, quando noticiaram que Roberto estava se encontrando com Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, pensei: “Que bom que ele vai conviver com essas pessoas, que são leitores, escrevem livros. Para meu espanto e do país inteiro, o Roberto é que influenciou o Caetano, o Gil e o Chico, que é filho do (historiador) Sérgio Buarque de Hollanda. O meu livro acaba sendo o primeiro a falar do Procure Saber, inclusive.

Você teve muitas despesas com advogados. Contabiliza o quanto perdeu? Nem o que perdi, nem o que deixei de ganhar. Quando fiz o Roberto Carlos em detalhes, também gastei em viagens, fita cassete. Cheguei a largar um emprego como professor da rede pública, nem pensei na aposentadoria. Mas nunca botei na ponta do lápis.

Acredita que o Roberto Carlos em detalhes pode ser liberado um dia? Espero que sim. Quando houver a modificação na lei, Roberto será o último censor do Brasil, em plena era da Comissão da Verdade. Ele já é o Rei, espero que não ganhe mais esse apelido, o de censor. Eu vou esperar que ele tome a iniciativa de liberá-lo, mas caso não aconteça, vamos lá. Talvez achassem que eu iria deixar para lá e não brigar pelo livro, mas não foi o que aconteceu. O engraçado é que na época do acordo (entre juiz e editora/autor) foi proibida a circulação do livro, mas não se falou nada sobre ele ser adaptado para o cinema, por exemplo. Isso pode acontecer, ainda mais com as mudanças na lei. Como acontece com os filmes sobre os Beatles, em que se enfoca a adolescência dos integrantes, mas não usam as músicas porque não liberam.

Na sua opinião, o que é que está acontecendo com Roberto Carlos? A carreira dele foi para uma direção muito mercantilista. O foco dele hoje é dinheiro. Ele sempre foi dono de vários negócios, em publicidade, agronegócios, companhia de turismo, mas ele gradualmente foi deixando a música de lado. É uma pena, porque aos 73 anos, ele era para ser como o Paul McCartney: um artista que sempre foi criticado, mas que hoje é um clássico. Outro dia, vi Roberto dando uma entrevista para o Amaury Jr e, quando ele falou das biografias, reparei que, pela primeira vez, ele não usou a palavra privacidade. Que era uma bandeira dos advogados dele. Sempre soube que o ponto dele era o lado financeiro.

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