segunda-feira, 16 de junho de 2014

QUARENTA MOMENTOS EM QUE A MACUMBA VIROU POP

Você pode ser católico, budista, kardecista, protestante ou ateu. Mas não dá para deixar de constatar: tão presentes na cultura brasileira, as religiões de matriz afro sempre passam por bizarras situações de discriminação e preconceito - que vão desde as fofocas sobre "aquele vizinho macumbeiro" até o recente problema com um juiz que queria desconsiderar umbanda e candomblé como religiões e depois voltou atrás.

O que muita gente não percebe é que a cultura pop tem lá suas dívidas com os cultos afro - e com voodoos, ritos pagãos e religiões não tão estandardizadas em geral. Confira quarenta (temos outras listinhas de 40 coisas aqui, aqui, aqui e aqui) exemplos bem interessantes abaixo.

IMPORTANTE: O termo macumba é usado aqui como um genérico para cultos em geral, inclusive os de base afro - e não tem nenhum fundamento irônico. Todo respeito a todo o tipo de crença.



"SYMPATHY FOR THE DEVIL" - ROLLING STONES. O mais próximo que o rock internacional chegou da mescla de ocultismo com umbanda aconteceu em 1968. Mick Jagger e Keith Richards vieram ao Brasil e, entre outros eventos, conheceram terrenos de candomblé, músicos de samba, artistas de rua (Keith chegou a comprar o violão de um deles, com a frase "Deus é grande" escrita no tampo). Do contato com a cultura brasileira ficou essa estranha mistura de samba e rock - com mais ênfase no segundo - com letra narrando o papel de Lúcifer na história, segundo Mick Jagger. No Brasil, Claudia Ohana e Cida Moreira gravaram - a primeira na trilha da novela Vamp, em 1991, a segunda no DVD A dama indigna, de 2011. Mas a melhor versão além da dos Stones é a do grupo americano Blood, Sweet And Tears, de 1970.

"MOSCA NA SOPA" - RAUL SEIXAS. O roqueiro baiano se envolveu com satanismo, ocultismo e outros "ismos". Mas em 1973, dizem, cagou-se de medo quando escutou o arranjo baseado em batuque de candomblé e os vocais de As Gatas (veterano grupo de vocalistas de samba) feito para a Mosca, durante a produção do álbum Krig Ha Bandolo. A música sacramentou a imagem de Raul como cantor de protesto ("você mata uma e vem outra em meu lugar", numa época em que isso era muito sério), abriu espaço nas rádios para o cantor e, se trouxe azar para alguém, não foi para Raul. Em 1992 ganhou uma versão horrenda de um Cidade Negra em baixa (no segundo disco, Negro no poder) e levou o Ira! a ouvir vaias e mais vaias durante a gravação de um especial de TV em homenagem a Raul.

"É FIM DE MÊS" - RAUL SEIXAS. Com medo ou sem medo, Raul voltaria a mandar bater os tambores durante a gravação do problemático disco Novo aeon (1975), curiosamente um de seus álbuns mais prosélitos com relação à obra do ocultista Aleister Crowley. Um dos momentos mais plenos de bom humor da discografia do cantor, misturando música de capoeira, rock, forró e até steel drums do Caribe.

"BAT MACUMBA" - MUTANTES. Gravada com toques indianos no álbum coletivo Tropicália (1968), a macumba-do-homem-morcego de Caetano Veloso e Gilberto Gil ganhou ares bem mais umbandísticos e psicodélicos na versão do primeiro álbum do gtupo paulistano.


"SARAVÁ" - MUTANTES. Usado nas religiões de orientação afro como saudação ou como uma espécie de mantra, o termo batizou um hard rock dos Mutantes, incluído no quarto LP, Jardim elétrico (1971), e que não tem nada de umbandista. O "hino da paz" do grupo tem mais a ver é com a nação Woodstock, até pelos trechos de Suite: Judy blue eyes, de Crosby, Stills, Nash & Young incluídos na letra, e pelos solos de guitarra inspiradíssimos em Jimi Hendrix.

"WELCOME TO TERREIRO" - GANGRENA GASOSA. Impossível falar em umbanda (e candomblé, e qualquer outra coisa ligada a isso) e música pop sem falar dessa banda carioca, que existe desde os anos 90 misturando batuques, heavy metal, ironias, xingamentos, brincadeiras de bom e de mau gosto e tudo o que você puder imaginar, sob a alcunha de "saravá metal". A trajetória do Gangrena gerou um documentário, Desagradável (já lançado em DVD) e a banda continua ensaiando e gravando discos. Mas o grande clássico é mesmo o primeiro álbum, Welcome to terreiro, publicado em 1993 sob as bênçãos de dois roqueiros brasileiros dos anos 80 (Dado Villa-Lobos, da Legião Urbana, e André X, da Plebe Rude).

ROCK EBÓ. Ex-mulher e ex-cantora do bossanovista Marcos Valle, Ana Maria Valle - hoje mais conhecida como a mulher de branco de Ipanema - teve nos anos 70 uma banda que misturava rock e ritmos baianos. Era a vocalista e dividia o palco com Pedrinho Santana (guitarra) e Paulinho Camafeu (percussão).

"CORPO FECHADO" - NASI. No primeiro disco verdadeiramente solo, Onde os anjos não ousam pisar (2005), o ex-atual cantor do Ira! mandou um recado para vuduzeiros e vuduzeiras de plantão: "Pode tocar alto seu tambor/não há magia nesse teu rancor/faça com que façam teu ebó/terá de volta tudo bem pior!". A música ganhou um clipe bem forte, dirigido por Selton Mello, repleto de cenas de violência - o vídeo ganhou uma versão normal e outra mais leve.


"BUMBA" - SOULFLY. Gravada no disco de estreia da banda do ex-Sepultura Max Cavalera, soa como uma espécie de afro-metal, com letra misturando Deus, entidades da umbanda e boas energias ("Oxossi, abra meus caminhos/vou dizer ao mundo sua palavra/Deus está preparando meu futuro/rezamos, rezamos todos os dias").

"VIVA IANSÃ" - VZYADOQ MOE.  A banda de Sorocaba (SP) surgiu fazendo um som cru e meio sujo à guisa de "rock industrial" e conquistou as páginas de jornais paulistas e da revista Bizz - o produtor do seu primeiro álbum foi, vale dizer, o jornalista José Augusto Lemos. O primeiro disco, homônimo, saiu em 1988 e o segundo, Hard macumba, só em 1999 - já em CD e com essa música.

"VÍDEO MACUMBA" - RATOS DE PORÃO. Gravada no "disco secreto" Just another crime in massacreland (1994), é a homenagem de João Gordo a um vídeo bizarro que foi editado e lhe foi enviado por Mike Patton, vocalista do Faith No More. Há um bom tempo, em eras pré-YouTube, era possível ver o vídeo na íntegra, compartilhado na internet em fóruns de fãs da banda. Video macumba, detalhado pelo próprio João Gordo numa matéria para a Bizz em 1992, trazia um apanhado de missas negras, escatologia, sangue e rituais sexuais de deixar a turma do Xereca Satanik parecendo um bando de coroinhas (leia sobre isso aqui).

FAITH NO MORE NO SWUDe grande hit do rock mundial dos anos 90 (e banda americana que fazia mais shows no Brasil do que em seu país de origem), o Faith No More transformou-se num veículo para as estranhices de seu vocalista, Mike Patton. No festival SWU de 2011, o grupo decidiu comemorar o aniversário da umbanda (que acontece no dia 15 de novembro) e transformou seu palco num terreiro, com integrantes fantasiados de pais de santo - e Mike convertido num sósia de Zé Pilintra. Leia mais aqui.


SEU SETE DA LIRA. Nos anos 70 vendia-se e fazia-se tantos discos que até mesmo entidades ilustres da umbanda gravavam os seus (e obviamente os vendiam a rodo). Recebida por uma mãe de santo chamada Dona Cacilda, a entidade Seu Sete da Lira fazia sucesso em programas de auditório como os de Flávio Cavalcanti e Chacrinha. A aparição de Seu Sete foi perseguida pela censura, ganhou capas de revistas e gerou dois LPs - ambos com cânticos de umbanda e áudios da dona Cacilda recebendo o santo e passando por modificações na voz. "O disco do Seu 7 é tão sinistro que tem até DJ que se recusa a tocar", disse Marcelo Yuka certa vez.

NORIEL VILELA. O ex-cantor do grupo vocal Nilo Amaro e Os Cantores de Ébano (era o que tinha o registro vocal mais grave) fez bastante sucesso em 1968 com um disco de samba-rock que era praticamente um álbum conceitual sobre umbanda, Eis o 'ôme', de sucessos como Só o ôme, Promessado, Saravando Xangô, Meu caboclo não deixa e outras músicas, todas cantadas com dialeto e voz de preto velho. Outro grande hit foi Dezesseis toneladas, versão em português do doo wop Sixteen tons, gravado pelos Platters. Eis o 'ôme' chegou a ser reeditado em CD em 2002. Recentemente saiu uma edição em vinil.

FERNANDO SANTOS. "Você aí de casa, acenda sua vela!", pregava o apresentador Carlos Imperial durante uma das aparições do cantor Fernando Santos em seu programa, nos anos 70. Fernando havia inventado uma tal "disco umbanda", que não chegou a marcar época, mas despertou algumas atenções entre 1978 e 1979. O cantor gravou dois LPs naquela época pela CBS (hoje Sony), depois sumiu - é possível ouvir um de seus discos inteiros aqui.

"CRISTO E OXALÁ" - O RAPPA. Um dos clássicos pouco executados em rádio do melhor disco do Rappa, Lado B lado A (1999), o último com Marcelo Yuka. Na letra, considerações sobre sincretismo religioso como as que Yuka já havia escrito em um texto publicado no encarte do primeiro CD da banda, O Rappa (1993), no qual falava de um velho judeu que fazia um despacho "confiando nos santos sem magoar Israel".


"BANANAS" - TITÃS. Como o rock nacional dos anos 80 não é lá muito pródigo em referências de terreiro, segue aí a menção aos Titãs, que lançaram a retropicalista Bananas no álbum A melhor banda de todos os tempos da última semana (2001). Na letra, versos como "yes, nós temos pierrôs/o arco de Oxóssi nas mãos do Cristo Redentor/temos ioiô e iaiá/minha terra tem palmares onde gorjeia o mar".

JOE COCKER. Durante as gravações do LP With a little help from my friends (1969), o roqueiro americano contou com a ilustre presença de Laudir de Oliveira, percussionista formado nos batuques dos terreiros de subúrbio cariocas. "Eu era apenas um cara que entendia dos batuques do candomblé, nem me considerava percussionista nem músico direito", me disse certa vez. Laudir, que já estava acostumado a viajar o mundo todo como músico, produtor e até cantor e dançarino, foi apresentado ao universo pop aí. Logo depois começou a excursionar com o grupo de Sérgio Mendes e...

CHICAGO. ... trilharia uma extensa carreira com o grupo americano, com quem gravaria vários discos e faria shows pelo mundo todo. "Os caras que sobraram na banda nem se falam mais. Quando eles estiveram no Brasil há pouco tempo, toquei com eles", lembra. Laudir ficaria na banda até 1981. "Voltei para o Brasil e deixei meus discos de ouro e platina, além de um Grammy. Ficou tudo nos EUA. Nunca voltei para pegar. Já devem ter leiloado", lembra.


"NANÃ" - WILSON SIMONAL. Um dos primeiros lançamentos de Wilson Simonal, em 1964, era uma canção que tanto poderia ser uma love song para uma garota quanto uma homenagem a uma entidade - talvez a orixá feminina Nanã Buruquê. Foi composta pelo maestro Moacir Santos e gravada ainda sem letra por Nara Leão, que fez apenas as melodias vocais, para a trilha do filme Ganga Zumba, de Cacá Diegues. Após uma primeira tentativa de parceria com Vinicius de Moraes, o professor de história Mario Telles acabou fazendo a letra.


"CAVALEIRO DE ARUANDA" - RONNIE VON. O mesmo Oxóssi que inspiraria Max Cavalera nos anos 90 servira de muso para o compositor argentino Tony Osanah décadas antes. Cavaleiro... foi gravada por Ronnie Von e foi um dos últimos hits da fase mais soul e roqueira do Pequeno Príncipe. Na época (1972), tocou em rádio até na Europa. O clima macumbístico vazou para o filme Janaína, a virgem proibida, dirigido por Olivier Perroy e estrelado por Ronnie, no papel de um rockstar que se apaixona por Iemanjá.

"CONDOM BLACK" - OTTO. O trocadilho misturando "candomblé" e um condom (é o nome verdadeiro daquilo que você conhece como "camisinha") de cor preta deu nome a esse, digamos, sucesso do cantor pernambucano. Leia a letra e ouça a música aqui. Para decorar o (infame) refrão.

DR. JOHN. O músico Malcolm John Rebennack Jr. tornou-se notório por misturar rhythm'n blues de Nova Orleans, rock, música psicodélica e conceitos ligados à cultura do voodoo da Louisiana. Um clássico do seu começo de carreira é o primeiro disco, Gris Gris (1968), referente a um amuleto usado em rituais. Seu codinome "Dr. John" nomeava um personagem fictício que fizera uma sessão de voodoo num prostíbulo em Nova Orleans. O conceito de Gris-Gris foi todo feito em cima disso.

KENNETH ANGER, "LUCIFER RISING". Um sapo. Esse animal tão conhecido e tão utilizado em nossas populares mandingas, imortalizado em verso por Aldir Blanc em Boca de sapo (parceria com João Bosco) também, diz a lenda, surgiu no caminho do guitarrista do Led Zeppelin, Jimmy Page. E graças a uma mandinga da braba que lhe foi jogada pelo cineasta americano Kenneth Anger. Em 1971, Anger encomendou a Page a trilha sonora de seu filme Lucifer rising. Os dois - ambos seguidores do mago inglês Aleister Crowley - brigaram e Page não entregou o material. O cineasta não deixou por menos e jogou um feitiço em Plant para transformá-lo num batráquio. Do embate saíram um filme (em 1980, com trilha feita pelo doido de pedra Bobby Beausoleil) e, só em 2012, um disco oficial com a trilha de Page. O guitarrista não se tornou pecilotérmico nem passou a coaxar, mas passou maus bocados nas mãos da heroína por vários anos.


ROBERTO CARLOS??. Sim, Roberto Carlos. Em 2011, o cantor foi homenageado pela escola de samba Beija-Flor de Nilópolis com o enredo A simplicidade de um Rei. Evidentemente, o lado católico de Roberto destacou-se nos carros alegóricos. Mas ainda havia uma imensa estátua de Iemanjá, com seis metros de altura, à frente do carro no qual iria o astro - e que remeteria ao projeto Emoções em alto-mar, com shows do artista num navio. Se Roberto resolvesse, na época, ir ao barracão da agremiação, depararia com um trabalho de macumba para "afastar o mau olhado e as energias negativas". O procedimento é uma tradição do diretor de carnaval da Beija-Flor, Laíla. Em 2014, ele mandou colocar um imenso despacho na passagem da escola, que homenageava o homem-de-televisão Boni, para o desfile. Com o Rei, recorrer aos santos deu bons resultados. Já com o ex-manda chuva da Globo...

CATAPULTA. Numa época em que se esperava tudo (tudo mesmo!) do rock brasileiro, o produtor Carlos Eduardo Miranda conseguiu convencer a operação brasileira do selo Roadrunner a bancar, em 1997, a estreia da banda baiana Catapulta. O grupo misturava sons de capoeira, candomblé, hardcore, heavy metal e casca-grossisse nas letras. O sucesso (se é que dá para chamar assim) foi o samba de roda punk Puêra, mas ainda tinha a pornofonia de Tái do mêi e Marcar esse esquema, a doideira de Ogunhê e Tiribicado e até mesmo uma boa versão para Retirantes, de Dorival Caymmi e Jorge Amado. O grupo voltaria a gravar em 2002 - leia mais aqui

"ADVOGADO DO DIABO" - IRA!. Rock-rap-ponto de umbanda redefinidor lançado pelo Ira! no terceiro disco, Psicoacústica (1988). Chico Science adorava. Chegou a inspirar um projeto paralelo dos hoje inimigos Nasi e André Jung, Exu Bará e Exu Tatá Fumê.

HUMBERTO GESSINGER. O que o ex-engenheiro do Hawaii tem a ver com umbanda, candomblé, santerias, voodoos e outras coisas do tipo? Bom, no livro Pra ser sincero, ele escreveu que durante a gravação do álbum Várias variáveis (1991), apertadíssimo, resolveu fazer xixi numa planta que encontrou no quintal do estúdio. Acabou levando bronca de um técnico de gravação - a tal planta era usada por uma cantora conhecidissima da MPB (cujo nome ele não revelou) num ritual religioso. Tudo bem até hoje (ao que parece) com Gessinger, que segue em carreira solo e alternando livros com discos. Só os Engenheiros do Hawaii é que, dentro em pouco, não seriam mais os mesmos, com a debandada da formação clássica.



GILBERTO GIL E JORGE BENGil e Jorge/Ogum Xangô, disco duplo de 1975, gravado pelos dois praticamente ao vivo no estúdio, surgiu de uma tarde-noite passada ao lado de Cat Stevens e Eric Clapton, ambos em visita ao Brasil, durante uma festa armada pela gravadora Philips. O improviso de Gil e Jorge naquela noite impressionou tanto o chefão da Philips, André Midani, que ele mandou os dois entrarem em estúdio no dia seguinte para reproduzir aquilo. O título traz os orixás da dupla e a lista de músicas mantém o sincretismo, com músicas como Meu glorioso São Cristóvão.

BEZERRA DA SILVA. O sambista preferido dos roqueiros lançou inúmeras músicas em que o tema era a devoção aos orixás. Mas o que era quase idílico, por exemplo, nos afrossambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes, ganhava contornos bem mais engraçados e sinistros em músicas como Pai véio 171 (aquela do "quer fala com pai véio vem agora/porque pai véio já quer ir se embora"), Zé Fofinho de Ogum, Terreiro de safado, Candidato caô-caô (sobre um político cuja desonestidade era denunciada por uma entidade de umbanda), Arruda de Guiné e outras menos conhecidas.

AQUARIA. A banda carioca de heavy metal pode até não ser muito conhecida no Brasil - lá fora, têm fãs-clubes e CDs lançados. Shambala, disco da banda lançado em 2008, faz uma mistura de temas conceituais, heavy metal, ritmos brasileiros e tambores de candomblé. O guitarrista do grupo, Gustavo di Paula, chegou a gravar uma versão metal do Hino do Flamengo.

"CONTROLE TOTAL" - CAMISA DE VÊNUS. O lado romântico e sensual da Bahia - explorado em livros de Jorge Amado e músicas de Dorival Caymmi - é reduzido a pó no primeiro single da banda baiana Camisa de Vênus, de 1983. Mostra uma Bahia pós-ditadura em que "está tudo armado para lhe imobilizar" e onde os bairros estão todos sob o controle de orixás, fitinhas do Nosso Senhor do Bonfim, pratos típicos como acarajé, abará, etc. Talvez por ser uma música que só faz sentido na Bahia (ou por ser um plágio descaradíssimo de Complete control, do Clash), nunca apareceu em nenhum LP da banda. 


"JUREMA" - TIM MAIA. Gravada no primeiro álbum do cantor (1970), essa música curta, em inglês, falava de uma entidade feminina da umbanda, a Cabocla Jurema (é ela, na letra, que é "uma lenda, da qual ouvi falar/uma mulher linda de se ver/ela é a rainha das selvas". Virou um clássico lado B do cantor.

"JUREMA" - OS INCRÍVEIS. Um ano antes de Tim gravar sua própria canção, Os Incríveis já haviam registrado uma primeira versão. Só que com letra em português (de Ravel, da dupla com Dom) e nenhuma referência a umbanda, ao candomblé ou a nada disso - era uma canção de amor como outra qualquer. Naquela época, Tim ainda era um talento muito comentado mas pouco ouvido. Em 1969, teve uma música gravada por Roberto Carlos (Não vou ficar), produziu um disco do "bom" Eduardo Araújo (A onda é boogaloo, no qual fez versões em português de hits do soul e emplacou a primeira versão de Você) e gravou um single de repercussão sigilosa com These are the songs, mas o sucesso ainda demoraria um ano para chegar.

OS IPANEMAS. Wilson das Neves (bateria), Astor Silva (trombone), Neco (violão), Luiz Marinho (baixo) e Rubens Bassini (percussão) montaram o grupo em 1964 para unir samba, jazz e ritmos do candomblé em músicas próprias como Java's, Congo e Kenya, além de regravações como Nanã (a mesma sobre a qual você leu lá em cima, gravada por Simonal) e até Garota de Ipanema (Tom Jobim e Vinicius de Moraes). O grupo voltou nos anos 2000 com formação modificada (hoje Wilson é o único vivo do line-up original, e canta em vez de tocar bateria) e realizando extensas turnês europeias.

"SENHOR DAS MOSCAS" - CASCADURA. O livro-filme O senhor das moscas inspirou músicas como Lord of the flies, do Iron Maiden. Mas a canção da banda baiana Cascadura refere-se mesmo é à entidade Omolu, conhecido como o senhor das doenças e das curas nos cultos afrobrasileiros. Leia aqui.


"SANTERIA" - SUBLIME. O único hit de verdade da banda americana de ska-rock (bem lá atrás vem What I got, mas nem conta) refere-se à umbanda praticada na ilhas do Caribe, que também é sincretizada com os santos católicos. Os caçadores de Illuminatis espalhados por sites e redes sociais costumam afirmar que Bradley Nowell, vocalista do grupo (morto de overdose em 1996) estava se referindo à sua recusa em participar de rituais ocultistas em Hollywood. Viagem na maionese.

JIMMY PAGE & ROBERT PLANT. A apresentação da dupla de frente do Led Zeppelin no Hollywood Rock em 1996 rendeu aproximações com os orixás. Jimmy, então namorando uma argentina radicada na Bahia, aproveitou para tietar o velho baiano Gilberto Gil. Robert Plant, em seu camarim no Pacaembu (na versão paulista do evento) não deixou por menos e mandou encomendar um despacho de macumba de verdade, para canalizar boas energias e garantir que tudo ficasse bem. Confira aqui.

"FLASH OF THE BLADE" - IRON MAIDEN. Idolatrado nas favelas cariocas - e santo protetor dos traficantes do Rio, mas pula essa parte -, São Jorge é padroeiro da Inglaterra, embora hoje em dia seja bem pouco celebrado por lá. Querido tanto de católicos quanto de umbandistas (no sincretismo religioso da religião afro, ele é Ogum), ele foi, quem diria, homenageado pelo Iron Maiden nessa música que fala de um garoto que é "São Jorge ou Davi e sempre matava a besta".

IGGY POP. Contada na biografia Open up and bleed, a história de como o roqueiro americano envolveu-se com voodoo haitiano é inacreditável. Em 1982, drogadaço, durante os preparos de um de seus piores discos, Zombie birdhouse, Jim e sua namorada Esther Friedman voaram para o Haiti para fazer fotos para a capa do álbum. Entupiram-se de drogas legais compradas em farmácias de Porto Príncipe (até garrafas de elixir paregórico divertiram os dois) e, numa noite, atenderam a um convite para participar de uma sessão secreta de rituais voodoo. Estaria tudo bem (bem?) se Iggy Pop não tivesse decidido ser Iggy Pop. O cantor levantou-se e dançou (!) no meio do ritual, provocando a expulsão da dupla. A partir daí montes de desgraças aconteceriam na vida do casal - incluindo alucinações demoníacas, falta de grana (Iggy torrou os últimos trocados da viagem num inferninho) e perseguição por parte da milícia paramilitar local Tonton Macoute.


TODAS AS LISTAS DE QUARENTA:

- quarenta discos de 1974 parte um dois
- quarenta micromúsicas
- quarenta momentos em que a macumba virou pop
- quarenta músicas que você tem que ouvir parte um e dois
- quarenta melhores momentos de Hermes & Renato
- quarenta fatos sobre o Abba
- quarenta discos de 1984 parte um dois
- quarenta fatos sobre o Menudo.

4 comentários:

  1. Ricardo, parabéns pelo trabalho, eu lembrei de duas músicas que mencionam o mesmo tema: "Nem ouro, nem prata" do Ruy Maurity e "Cordão de Ouro" do Nação Zumbi.

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  2. Macumba é magia negra, É depressiativo usar esse termo para denominar todo e qualquer elemento da cultura afro-brasileira.

    William.

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  3. MACUMBA É UM INSTRUMENTO.

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  4. "IMPORTANTE: O termo macumba é usado aqui como um genérico para cultos em geral, inclusive os de base afro - e não tem nenhum fundamento irônico. Todo respeito a todo o tipo de crença." Já tá explicado ali em cima. Abç

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