quarta-feira, 30 de julho de 2014

JAGUAR

Bati um papo com Jaguar nesta semana para o jornal O Dia, no qual trabalho e no qual ele faz uma coluna e desenha cartuns. Foi uma conversa muito legal e bastante engraçada - até mesmo a assessora de imprensa da editora que intermediou a conversa telefônica não aguentou e caiu na gargalhada várias vezes, com as tiradas do cartunista.

O papo gerou essa matéria que você lê aí ao lado, e que foi publicada hoje em
O Dia, sobre a mesa da qual Jaguar participa (deve estar lá neste exato momento, quase indo para o encontro) na edição 2014 da Feira Literária Internacional de Paraty. Ele faz um debate com os ex-integrantes do Casseta & Planeta Reinaldo Figueiredo e Hubert. E aproveita para relançar seu primeiro livro, Átila, você é bárbaro, lançado originalmente em 1968.

Como Jaguar soltou aspas boas atrás de aspas boas, não resisti e publico toda a conversa aí embaixo. Procure o relançamento de
Átila na livraria mais próxima e dê de cara com o humor de um período em que a psicanálise, a arte pop e as guerras mundiais espantavam mais os homens e as mulheres do que os reality shows e qualquer outra bobagem dos dias de hoje.


Átila, você é bárbaro saiu no ano do AI-5. Tem alguma lembrança relacionada a isso? Foi no ano mesmo? Rapaz, olha só... Bom, fiz uma compilação dos meus cartuns publicados em revistas como a Senhor e nem sofri censura, pois eles não ficavam muito de olho em cartuns. Chamei o Paulo Mendes Campos para fazer o prefácio e ficou muito bom, até melhor que o livro. O Paulo era um cara a quem todos nós admirávamos. Eu te falo que nunca nem me preocupei com esse livro, legal que estejam relançando... Até porque eu tenho material demais, dava para fazer vários livros!

É mesmo? Pô, trabalho desde 1952 e nunca tirei férias. Quando entro de férias sempre faço material com antecedência e envio. Agora mesmo vou viajar e entreguei uma porção de crônicas e charges. O leitor nem sabe que eu fico zanzando por aí. Eu agora vou passar um mês na Europa. Vamos ver como vai ficar isso aí... Eu já nem gosto muito de viajar e ainda tenho que deixar tudo pronto. É o maior abacaxi (risos)!

Mas então você nem foi censurado nessa época, por causa do livro? Foi tranquilo? Sim. As piadas não são de charge, a maioria é cartum. O cartum não tem prazo de validade. A diferença entre um e outro é que o cartum é sobre situações que daqui a 20 anos o cara entende. A maioria das charges ficam fora de uso em 20 dias, ninguém entende mais nada do que está ali. Eu acabo fazendo charge pro O DIA, mas acho que sou o único chargista do mundo que não sabe fazer caricatura. Eu não posso deixar de fazer, daí copio de colegas (risos). Não deixa de ser uma homenagem, né?

É, como dizem, o plágio é um forma de homenagem... Acho que ficam até honrados. Fiz uma Dilma Rousseff que já usei em várias charges diferentes.


Voltando a Atila, você é bárbaro, é engraçado que dá para pegar ali assuntos que eram moda na época, como psicanálise, pop-art. Isso era discutido em mesa de bar, certo? Eu tava dando uma olhada no relançamento do meu livro, que saiu com capa dura, ficou chique. Se você pega esse cartum do cara olhando o extintor de incêndio (ao lado)... Hoje a arte vale qualquer coisa, não é? Eu me lembro de uma época em que eu falava, quando preenchia ficha de hotel, que eu era cartunista, e ninguém sabia o que era isso. Achavam que eu fazia cartões. Tanto que eu passei a falar que eu era jornalista. A palavra "cartunista" está hoje muito banalizada.

Como assim? Ué, qualquer um se chama hoje de cartunista. Chamam quadrinista de cartunista, caricaturista de cartunista. Dá um certo status. Outro dia até aconteceu um negócio engraçado... Entrei num táxi e o cara falou: "Ah, você é aquele cartunista". Eu respondi que era, sim, e ele: "É o Ziraldo, né?". (risos). Respondi: "Não, não, eu sou o outro".


E você vai ser entrevistado lá pelo Reinaldo e pelo Hubert... O Reinaldo é um ex-Pasquim. O Casseta & Planeta era quase um suplemento nosso, porque ele e o Hubert ficavam lá na redação do Pasquim, se fechavam numa sala e ficavam às gargalhadas. Eu ficava louco para ver o que eles estavam fazendo ali. Depois eles viraram o Casseta & Planeta, atores, músicos, o diabo a quatro. E o Reinaldo felizmente voltou a fazer cartuns, né?

Ele é meio cria desse seu primeiro livro, sempre cita como influência. Eu colaborei com essa garotada toda. Uma coisa que sempre me perguntam é qual a maior contribuição que eu acho que fiz ao cartum brasileiro. Olha, sempre respondo que foi fazer o Adão Iturrusgarai assinar nome e sobrenome, porque antes ele só assinava "Adão". Eu falava para ele: "Você não pode deixar de usar o Iturrusgarai, que é nome de terrorista, porra! Adão qualquer um pode ser" (risos).

E o cartum está extinto mesmo, como você fala? Claro. Anrigamente, anos 50, 60, você ia numa livraria e comprava o melhor que existia na área, em revistas. Só sobrou o New Yorker. Vários jornais já deixaram de circular e eles são os sobreviventes. Eu mesmo sobrevivo fazendo charges, não cartum. Eu detesto desenhar...

Sério? Não gosto de desenhar, mas eu sou cartunista. As pessoas até me perguntam como é que eu me inspiro... Cara, é uma técnica, eu já leio as notícias e vou pensando, fazendo, criando personagens. Peguei um táxi outro dia e o motorista disse: "Vejo o senhor andando de táxi para lá e para cá. O que o senhor faz? Do que o senhor vive?". Eu falei: "Eu faço aqueles desenhos lá no O DIA". O DIA é muito popular, daí sou muito conhecido. O cara me respondeu: "Mas além disso o senhor trabalha?" (risos). Não só trabalho como não tenho aposentadoria, vou fazer isso a vida inteira!

E é sua primeira vez na Flip? Sim. Minha mulher é que quer ir. Eu não quero, não. Só vai ter lá aqueles intelectuais chatos pra cacete. Como o intelectual brasileiro é chato! O Reinaldo me garantiu que eu não ia ter que falar nada, só ia ter que responder, então está tudo bem. Vai ser uma entrevista, não uma palestra, o que é melhor. Detesto ver o cara em cima de uma cátedra, dizendo o que as pessoas devem fazer. Sempre tive raiva de professor. Fui expulso de colégios cinco vezes (risos).

Mas você não se considera um intelectual? Não, não! Sou um trabalhador. Aqui no Brasil o intelectual é muito chato. O Millôr Fernandes foi o maior intelectual brasileiro: era tradutor, cartunista, escritor, dramaturgo... A única coisa em que ele não era melhor era em poesia. Ele era inteligente demais para vser poeta. (risos) Eu leio muito porque as pessoas ou leem quando são jovens ou não adianta mais nada. E eu tive muita asma quando era jovem. Não podia fazer nada, vivia com asma e ela me salvou. Assim como eu passei a ler muito por causa dela, ela me livrou do cigarro. Tentei passar a fumar várias vezes e nunca consegui. Muito embora eu sempre escolha a área de fumantes. Acho que eles são mais inteligentes que os não fumantes (risos). Os bêbados também são mais inteligentes que os abstêmios. Eu já bebi muito, mas agora sou obrigado a tomar cerveja sem álcool. Descobri umas cervejas alemãs muito boas, que têm o mesmo gosto da normal. Depois dou umas voltas em torno do poste e fico tonto. Sou capaz de ficar de porre com a força do pensamento também (risos).

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