sexta-feira, 18 de julho de 2014

QUARENTA CLÁSSICOS DOS RAMONES

Hoje parece fácil tocar uma música com três acordes, letra de poucos versos e batida rápida. Nos anos 70 ninguém fazia isso. E deu trabalho para começar a fazer.

Nas raízes do som dos Ramones havia muita coisa que nem se imagina: Pink Floyd do começo, T Rex, David Bowie, Beatles, Rolling Stones, The Who, Beach Boys, rock dos anos 50, bandas obscuras dos 60, sabedoria adolescente, vida em família (do aconchego aos problemas diários), realidade das ruas, etc. Não tinha ninguém fazendo isso em 1974, quando eles surgiram. Até hoje tem gente tentando fazer.

Mais do que um guia para quem quer ouvir Ramones, a lista de 40 músicas abaixo é para quem quer descobrir o que há de mais básico no rock feito pós-1970. É o som que daqui a vinte anos vai fazer o seu (sua) filho (a) ou neto (a) começar a querer tocar guitarra. Confira aí.



"LOCKET LOVE" (Rocket to Russia, 1977). Poderia ter saído em 1967 ou em 1999, ou hoje em dia. Doce demais para ser um simples punk rock, pesada demais para ser uma baladinha romântica, é um dos mais emocionantes e menos conhecidos momentos dos Ramones em seu terceiro disco.

"GLAD TO SEE YOU GO" (Leave home, 1977). Connie, namorada do baixista Dee Dee Ramone lá por 1976/1977, era uma moça, digamos, temperamental. Chegou a feri-lo nas nádegas (ui!) com uma garrafa quebrada. E já tinha feito coisas bem piores com outros namorados. A canção em questão é sobre o rompimento do casal.

"DANNY SAYS" (End of the century, 1980). Canção de, digamos, amor e trabalho, elaboradíssima e bem diferente do normal dos Ramones - com corinho, tecladinho, tímpanos, etc. Foi inspirada por dois personagens: Danny Fields (empresário dos Ramones) e Linda Danielle (então namorada de Joey Ramone, autor da música, e que depois o trocaria por Johnny Ramone).

"I WANT YOU AROUND" (Rock and roll high scholl - OST, 1979). Considerada um outtake de End of the century, de 1980 (chegou a ser incluída em edições em CD com bônus), essa baladinha surgiu pela primeira vez na trilha do filme dirigido por Allan Arkush, do qual os Ramones participavam.


"LOUDMOUTH" (Ramones, 1976). Muitos futuros fãs foram apresentados aos Ramones aí - a música aparecia na coletânea A revista Pop apresenta o punk rock (Philips, 1977). Poucos acordes, melodia pronta para ser curtida a bordo de um skate e letra minimalista ao extremo: "Você é um babaca/é melhor você calar a boca/vou te encher de porrada/porque você é um babaca". Só.

"THE KKK TOOK MY BABY AWAY" (Pleasant dreams, 1981). Nos primeiros discos, os Ramones pelo menos fingiam que compunham juntos - escreviam o material em separado e assinavam a oito mãos. Em seu sétimo disco, Joey e Dee Dee Ramone dividiram os créditos das doze músicas de um dos discos mais problemáticos da banda. A canção em questão joga desprezo e raiva sobre Johnny Ramone, que roubara (e se casaria com) a então namorada de Joey, autor da música.

"THIS AIN'T HAVANA" (End of the century, 1980). Uma estranha e formidável cruza de mambo e punk rock, que bem que pedia um belo arranjo de metais, só de onda. Não fala diretamente de Cuba, ao contrário de...

"HAVANA AFFAIR" (Ramones, 1976) ... que fala textualmente de um cara que ganhava a vida vendendo bananas em Cuba e hoje, traidor do movimento que só, "é guia da CIA/um hurra para os Estados Unidos", diz a letra.



"DO YOU REMEMBER ROCK N ROLL RADIO?" (End of the century, 1980). A produção de Phil Spector fez mais bem do que mal aos Ramones - apesar de alguns integrantes terem sido ameaçados pelo produtor, maluco que só ele, com uma arma, enfim. Do you remember... revira o som dos Ramones até achar todas as influências de rock dos anos 50 que o grupo tinha. Na letra, que reclama do sumiço do rock das rádios americanas, aparecem personagens como T. Rex, John Lennon, o radialista Alan Freed, o DJ e empresário Murray The K e vários programas de rádio e TV que impulsionaram o gênero musical.

"LET'S DANCE" (Ramones, 1976). Gravada originalmente em 1962 por Chris Montez, essa música já havia sido relida até pelos Beatles antes de figurar como o primeiro cover gravado pelos Ramones - que costumavam manter a tradição de reler gemas do pop sessentista em seus discos, no começo da carreira.

"LIFE'S A GAS" (Adios amigos, 1995). Plágio desaforado de um antigo sucesso de mesmo nome do T Rex (do álbum Electric warrior, de 1971), soa como uma estranha canção de despedida do vocalista Joey Ramone, que escreveu a música. É triste e alegre ao mesmo tempo. "Não fique triste, eu estarei lá/Não fique triste por nada", diz a letra.

"I BELIEVE IN MIRACLES" (Brain drain, 1989). Clássico do idealismo rocker composto por um redivivo e "maduro" Dee Dee Ramone e pelo produtor Daniel Rey. Apesar do tom otimista e de ter sido o disco que trouxe os Ramones de volta às paradas, Dee Dee chegou a afirmar que se tratava de uma das fases mais problemáticas da banda. "Foi duro gravar esse disco", contou.


"CARBONA NOT GLUE" (Leave home, 1977). Banida do segundo disco do grupo após um processo da marca de solventes Carbona (a música aparece apenas nas primeiras edições do LP e depois em alguns relançamentos em CD), a canção sugere que aspirar o removedor fabricado pela empresa dá mais barato do que cheirar cola, a droga (baratíssima) preferida pelos punks da época. "É só ironia. É como dizer ao ouvinte que ele deveria tentar usar algo mais venenoso ainda", contou Tommy Ramone. Foi substituída primeiro pelo B-side Babysitter, depois por uma versão de Sheena is a punk rocker, que sairia só em Rocket to Russia.

"PINHEAD" (Leave home, 1977). A música que, entre versos insanos e brincadeirinhas de soletrar (comuns até em acampamentos norte-americanos), ensinou ao mundo o grito de guerra "gabba gabba hey!", tão típico dos fãs dos Ramones quanto "bota pra foder!" foi comum entre os fãs do Camisa de Venus nos anos 80.

"BABYSITTER" (Leave home, 1977). Esse B-side dos Ramones chegou a substituir Carbona not glue nas primeiras edições censuradas do segundo disco do grupo.

"JUDY IS A PUNK" (Ramones, 1976). Misto de punk, rock a la Beach Boys, poesia adolescente e grito de guerra de cheerleader, com os versos "segundo verso, igual ao primeiro" e "terceiro verso, diferente do primeiro". A letra carrega no humor podre e obtuso.


"SHEENA IS A PUNK ROCKER" (Rocket to Russia, 1977). A paixão do grupo pelos quadrinhos e pela musa Sheena, a Rainha das Selvas gerou esse clássico surf-punk. Que depois seria acrescentado também nas versões posteriores do segundo disco do grupo, Leave home, em outra versão - substituindo a censurada Carbona not glue.

"I'M AFFECTED" (End of the century, 1980). Afogada no wall of sound do produtor Phil Spector (que cuidou-não cuidou do disco), essa canção é um dos momentos de tranquilidade de um dos álbuns mais bem sucedidos dos Ramones...

"WE WANT THE AIRWAVES" (Pleasant dreams, 1981) ... e olha só o que aparecia na abertura do disco subsequente da banda. A crítica à falta de rock nas rádios americanas, no começo dos anos 80, tinha a mesma melodia e as mesmas linhas vocais de I'm affected. As duas músicas são, por sinal, bem parecidas com Que país é este?, da Legião Urbana, que havia sido composta em 1978. O clima hard rock desta faixa fez muitos críticos caírem de pau na banda.

"HERE TODAY, GONE TOMORROW" (Rocket to Russia, 1977). Primeira balada dos Ramones a dar certo de verdade - poderia estar num disco das Shangri-Las ou, devidamente rearranjada, num disco de grupo de doo wop.


"QUESTIONINGLY" (Road to ruin, 1978). A vontade dos Ramones de "dar certo" no quarto disco era grande - tanto que soltaram uma baladinha bêbada e chorosa com faceta country, que deve ter ajudado bastante o punk brega de bandas como Social Distortion a evoluir.

"PSYCHOTHERAPY" (Subterranean jungle, 1983). Levado adiante por um riff distorcido, é o grande hit de um disco já meio combalido dos Ramones. Chegou a ser gravada, anos depois, pelo Skid Row.

"CALIFORNIA SUN" (Leave home, 1977). Gravada pela atriz da "turma da praia" Annette Funicello em 1963 e pelo grupo americano The Rivieras um ano depois (é a versão mais popular) essa canção voltou às paradas em 1987 quando surgiu na trilha do filme Bom dia, Vietnã. Dez anos antes disso, havia sido relida pelos Ramones em seu segundo disco.

"I CAN'T GIVE YOU ANYTHING" (Rocket to Russia, 1977). Pode ser uma canção de amor, pode ser o recado de um aviãozinho a seu chefe traficante. Fato é que esse punk rock com cara beatle diz: "É melhor você saber o que quer/ Você sabe que tenho pouco/Não posso te dar lá grandes coisas".



"JOURNEY TO THE CENTRE OF THE MIND" (Acid eaters, 1993). CJ Ramone, baixista que substituiu Dee Dee Ramone na banda, virou uma boa opção para segurar os vocais em algumas músicas, já que a voz de Joey Ramone começava a falhar. E ainda abriu Acid eaters, disco em que os Ramones regravavam clássicos da era da psicodelia, soltando a voz nessa canção da banda americana sessentista The Amboy Dukes. Os Dukes eram uma banda de psicodelia fake, liderada pelo caretão Ted Nugent (aquele mesmo), que odiava drogas - mas fez um sucessinho no fim dos anos 60 com essa música.

"DON'T COME CLOSE" (Road to ruin, 1978). O quarto disco dos Ramones foi o primeiro a trazer violões à frente em algumas músicas, alguns solos (dosadíssimos) de guitarra e canções (só duas) com mais de três minutos. Também trouxe, na bateria, Marky Ramone substituindo Tommy, que virou apenas co-produtor. E buscou espaço nas rádios americanas a partir de canções como Don't come close, que acena para os momentos mais pop do Who.

"I DON'T WANNA WALK AROUND WITH YOU" (Ramones, 1976). "Não quero ficar andando por aí com você/então por que é que você quer andar comigo?". Só isso.

"53rd & 3rd" (Ramones, 1976). Dizem que essa música, referente à boca de prostituição gay existente no Village, em Nova York (entre a terceira e a 53ª avenidas locais, daí o nome), é um relato autobiogáfico do baixista Dee Dee Ramone, que teria se prostituído para pagar pelo seu vício em heroína, quando bem jovem. O músico, que compôs a canção e canta um trecho dela sozinho, nunca negou ou confirmou o fato.


"BONZO GOES TO BITBURG" (single, 1985). Essa música foi lançada originalmente num single especial da banda, apenas na Inglaterra, pelo selo Beggar's Banquet. Na letra, protestos contra a visita do então presidente norte-americano Ronald Reagan a um cemitério alemão no qual vários soldados do exército nazista, responsáveis por atrocidades mil em campos de concentração estavam enterrados - só para piorar um pouco, Reagan chegou a declarar que os nazistas enterrados lá "eram tão vítimas quanto as que sofreram nos campos de concentração. Com título modificado para My brain is hanging upside down (Bonzo goes to Bitburg), foi incluída depois no LP Animal boy.

"BAD BRAIN" (Road to ruin, 1978). Com suas batidas rápidas, os Ramones tiveram influência master na formação do hardcore americano. Foi graças a essa música que uma certa banda de jazz fusion e funk de Washington DC chamada Mind Power decidiu abraçar os três acordes e passar a se chamar Bad Brains.

"MY BACK PAGES" (Acid eaters, 1993). Composta por Bob Dylan e gravada originalmente por ele em seu disco Another side of Bob Dylan (1964), essa música se tornaria hit com a banda americana The Byrds (no álbum Younger than yesterday, de 1967) e seria regravada anos depois pelos Ramones.

"IT´S NOT MY PLACE (IN THE 9 TO 5 WORLD)" (Pleasant dreams, 1981). Seguindo o mesmo esquema "festa de arromba" de Do you remember rock´n roll radio?, Joey Ramone (autor da canção) cita nomes como Lester Bangs, Phil Spector, 10cc (banda do produtor de Pleasant dreams, Graham Gouldman), Allan Arkush, Stephen King e os próprios Ramones nesse punk latino sobre como é ser um adolescente fã de rock e ter que arrumar um emprego "normal" ("de 9h às 5h", como se diz nos Estados Unidos). Contém citação de Whiskey man, lado-B do The Who - do álbum A quick one, de 1967.


"SOMEBODY PUT SOMETHING IN MY DRINK" (Animal boy, 1986). Em fase mais ou menos, os Ramones emplacaram até um quase-hit composto pelo baterista Richie Ramone, que  acabara de ingressar (para estadia breve) no quarteto. Não havia muito dinheiro para investir no grupo, tanto que a gravadora Sire chegou a produzir um clipe para a canção, mas que nunca foi completado ou lançado. A letra fala de incidentes do músico com bebida batizada com LSD.

"CABBIES ON CRACK" (Mondo bizarro, 1992). Composta por Joey Ramone após fazer uma viagem de táxi com um motorista que havia fumado crack. "Foi suicida, achei que eu iria morrer", disse a André Barcinski no livro Barulho - Uma viagem pelo underground do rock americano.

"SPIDERMAN" (Adios amigos, 1995). É o famoso tema do Homem-Aranha, composto pela dupla Paul Francis Webster and Robert "Bob" Harris - e que no Brasil ganhou aquela famosa paródia dos Trapalhões, falando que o herói "nunca bate, só apanha". Em Adios amigos, aparecia como faixa bônus escondida.

"SOMEBODY TO LOVE" (Acid eaters, 1993). Clássico do amor livre sessentista, o hit do Jefferson Airplane foi regravado pelo quarteto com participação da atriz pornô e dublê de cantora Traci Lords.


"POISON HEART" (Mondo bizarro, 1992). Redescobertos de vez nos anos 90 e considerados grande influência numa época em que se dizia que os Estados Unidos finalmente haviam entendido o punk em sua integridade (graças a Nevermind, do Nirvana, lançado naquele ano), os Ramones voltavam sem Dee Dee Ramone, substituído por CJ. Só que o ex-baixista continuava ali por perto e compunha vários dos novos hits do grupo - entre eles o primeiro single do novo (e bom disco) da banda, em parceria com Daniel Rey.

"BLITZKRIEG BOP" (Ramones, 1976). O primeiro single dos Ramones - e faixa de abertura de seu primeiro álbum - era obra da cozinha da banda. Foi composto apenas por Tommy e Dee Dee Ramone, apesar de creditado ao quarteto. Se os Ramones ganhassem R$ 100 cada vez que uma pessoa (em muitos casos, alguém que nem conhece nada a respeito da banda) gritou "hey ho! let's go!" num estádio de futebol, ficariam zilionários. A faixa imortalizou justamente esta expressão.

"PET SEMATARY" (Brain drain, 1989). O hit que devolveu de vez os Ramones para as rádios e para a história do rock tornou-se maior que a própria banda, ao ser incluído na trilha de Cemitério maldito, filme de Mary Lambert adaptado da obra do escritor Stephen King.

"COME ON LET'S GO" (Rock and roll high scholl - OST, 1979). Os Ramones se uniram à dupla de power pop nostálgico The Paley Brothers, colegas de gravadora no selo Sire, para relembrar esse clássico do roqueiro Richie Valens (1941-1959). Andy Paley, um dos dois brothers, depois tornou-se músico de estúdio, compositor e produtor, trabalhando com uma gama de artistas que incluiu de Madonna ao beach boy Brian Wilson.



TODAS AS LISTAS DE QUARENTA:

- quarenta discos de 1974 parte um dois
- quarenta micromúsicas
- quarenta momentos em que a macumba virou pop
- quarenta músicas que você tem que ouvir parte um e dois
- quarenta melhores momentos de Hermes & Renato
- quarenta fatos sobre o Abba
- quarenta discos de 1984 parte um dois
- quarenta fatos sobre o Menudo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário