quarta-feira, 8 de outubro de 2014

METALLICA, "SOME KIND OF MONSTER"

Um texto meu do Discoteca Básica, meu antigo blog, que achei no Archive.org: a resenha do documentário Some kind of monster, do Metallica. Saiu lá por 2005.

Lembro que eu gostava desse texto. Hoje eu jamais escreveria assim. Não ficaria enrolando no primeiro parágrafo e iria direto ao assunto.

UMA ESPÉCIE DE MONSTRO*
Documentário sobre o Metallica revela as tensões por trás do álbum St. Anger  e da própria banda.

Sim, até o rock e o heavy metal vão ao analista. Há alguns anos, o Aerosmith chegou a interromper as gravações de um álbum para tratar da depressão de seu baterista. Axl Rose, vocalista do Guns`N Roses, também passou pelo divã de um psicólogo - que chegou a ir junto com a banda nas turnês. João Gordo, vocalista do Ratos de Porão, creditou à terapia boa parte das melhoras que teve nos últimos anos. Isso só para ficar nas bandas mais pesadas - nem vamos falar do ex-Beach Boy Brian Wilson e de sua controvertida relação com o psicólogo Eugene Landy (ou da influência do psiquiatra Arthur Janov e de sua terapia do Grito Primal nos trabalhos de John Lennon e do Tears For Fears).

O Metallica, desde o comecinho da década, já entrara para o clube - e resolveu escancarar sua terapia num documentário. Some kind of monster, lançado em 2003 no festival Sundance, documenta o resultado de todas as neuras que acompanhavam o vocalista/guitarrista James Hetfield e o baterista Lars Ulrich, fundadores da banda, desde suas infâncias - e que foram desembocar em crises internas que quase vitimaram o Metallica.

Não é apenas o documentário das gravações de St.Anger, álbum mais recente do grupo. Quando Lars Ulrich afirma, que, na adolescência, achava ridícula a postura de "machão" de Hetfield e do ex-guitarrista Dave Mustaine (expulso da banda em 1983 por seu consumo massivo de álcool) fica claro que o personagem principal do documentário é o afeto - comprometidíssimo - entre os integrantes da banda. O resultado é um grande psicodrama, com Ulrich tentando pular a muralha emocional de Hetfield, o guitarrista Kirk Hammett tentando contemporizar e o produtor Bob Rock (que assumiu o baixo nas gravações) botando ordem na zona e juízo nas cabeças dos três.

Em 2002, quando o álbum começou a ser gravado - e o filme, a ser feito - a banda enfrentava graves conflitos. Jason Newsted, baixista, havia saído da banda por não aceitar as "limitações criativas" impostas por Hetfield - antes, revelara numa entrevista que o Metallica enfrentava problemas. Os três remanescentes não desejavam reviver as tensões de trabalhos anteriores e, para piorar, vários fãs haviam ficado revoltados com a decisão de Lars Ulrich em processar os que baixavam músicas do grupo na internet - rolaram boatos de que o grupo processara até mesmo a banda canadense Unfaith por "usar acordes de fá e mi em suas músicas e soar parecida com o Metallica". Fãs quebraram discos em praça pública e Lars ficou em baixa no mundo do rock.

O psicólogo contratado para aliviar as tensões da banda, Phil Towle, além de promover sessões em grupo (pela "bagatela" de 40 mil dólares ao mês) acompanhou ensaios, gravações, viagens e, de fato, conseguiu fazer a banda lidar com o tal "monstro". Os comportamentos engessados de álbuns anteriores (quando James jamais poderia fazer comentários a respeito do trabalho de Lars e vice-versa) são, em parte, modificados. A banda passa a escrever letras em grupo, sempre em meio à frieza e à manipulação de Hetfield e ao blá-blá-blá interminável de Ulrich. 

Duas figurinhas que já foram ligadas ao Metallica aparecem para dar depoimentos reveladores. O primeiro guitarrista, Dave Mustaine (que encontraria seu lugar ao sol posteriormente, com o Megadeth) é chamado por Towle para conversar com Ulrich e expressar seus sentimentos por ter sido chutado da banda graças ao alcoolismo, numa época em que o Metallica detonava tanto que era conhecido pelo apelido de Alcohollica. Revela que, mesmo com o sucesso que conseguiu depois, sempre se sentiu inferiorizado. Em outro depoimento, o ex-guitarrista Jason Newsted, prendendo o choro, dá a entender que nunca engoliu a incompreensão de Hetfield - e esnoba Lars, Kirk e Bob quando estes vão assistir a um show de sua nova banda, Echobrain.

O documentário ainda tem mais algumas surpresas. Hetfield, lá pelas tantas, resolve se internar numa clínica de reabilitação para tratar do vício em drogas, o que põe a banda (e o álbum) a patinar. Volta meses depois, e encontra Lars e Kirk apreensivos. A necessidade de se continuar produzindo um filme tão revelador é discutida com os cineastas. Problemas com o psicólogo também não faltam - o produtor Bob Rock impacienta-se com uma tal de "zona" que Towle resolve criar, espalhando bilhetes pelo estúdio. A sessão na qual Hetfield e Ulrich resolvem "discutir a relação" com o psicólogo também aparece no documentário. A condição de superstars roqueiros é mostrada sem rodeios: Ulrich aparece faturando alguns milhões de dólares e se empanturrando de champanhe no leilão da sua coleção de quadros. E tanto a banda quanto Bob Rock concordam que Cliff Burton, primeiro baixista do Metallica, morto num trágico acidente, ainda é uma sombra forte.

O monstro de Some kind of monster pode significar muitas coisas. Ele pode ser a muralha afetiva que existe entre Lars e James, pode ser o star system pesado que o Metallica abraçou sem titubear, podem ser as drogas (o álcool, principal inimigo da banda, em especial), o comportamento manipulador de Hetfield, qualquer coisa que deixe o Metallica cada vez mais longe da época em que eram apenas quatro garotos metaleiros, espinhudos e chucros. No fim das contas, uma cena parece resumir tudo: um entristecido Dave Mustaine confessando a Lars Ulrich que sentia falta de seu amigo dinamarquês (o próprio Ulrich), e não do "cara do Metallica". Nem precisa dizer mais nada.

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