domingo, 26 de outubro de 2014

UMA LADEIRA PARA LUGAR NENHUM

Um papo com o escritor Marco Carvalho sobre seu livro Uma ladeira para lugar nenhum, que conta uma história dos primórdios da favelização do Rio (incluindo doses de preconceito social e racial, remoções injustas e impensadas, etc).

OS MISTÉRIOS DO ANTIGO MORRO DO CASTELO EM LIVRO
Marco Carvalho lembra a remoção no local
Publicado no O Dia em 21 de outubro de 2014



O escritor Marco Carvalho passava todos os dias pela região onde outrora ficava o Morro do Castelo, posto abaixo em 1922 numa época em que se pretendia modernizar o Rio de Janeiro. E se indignava. “O processo foi o de todas as remoções: embeleza-se a cidade tirando o preto e o pobre do caminho. Os moradores foram mandados para favelas distantes”, recorda Carvalho, cujo romance Uma ladeira para lugar nenhum (Editora Record, 160 págs, R$ 32) conta uma história de ficção sobre o Morro e a Ladeira da Misericórdia, que ligava o asfalto ao Castelo, e da qual hoje só resta um pedaço.

O livro de Marco fala sobre a paixão proibida da mulata Rosário pelo Padre Ernesto — ela vivendo um casamento frustrado com um comerciante português, ele lutando para se manter fiel à Igreja. O amor dos dois se dá entre a ladeira, o morro e seus subterrâneos. “Há documentos que mostram tesouros dos jesuítas por lá. O Lima Barreto escreveu sobre isso no livro O subterrâneo do Morro do Castelo”, relata Marco. “O desmanche do local foi conduzido de forma autoritária. Nunca acontece, nessas reformas, um plano para quem acaba sobrando nelas. É como aconteceu recentemente em outras favelas”.

Uma das histórias do livro é real: a dos estudantes de uma escola pública que, em 1920, ensaiaram para cantar o Hino da Bélgica para o Rei Alberto e a Rainha Elisabeth, em visita ao país. “Eles proibiram que os alunos negros se apresentassem junto dos brancos. Isso aconteceu de verdade. No livro, conto essa história como se fosse com o filho da Rosário”, diz Marco. Uma ladeira fala de uma certa vergonha que o Rio tem de seus caracteres afro — Rosário, católica, frequenta escondida centros de umbanda. “Mas isso está mudando. As pessoas têm mais sensibilidade. Principalmente ao abordar o mundo dos orixás, que traz toda uma mitologia.”

Marco é autor de Feijoada no paraíso, que originou Besouro — O filme, de João Daniel Tikhomiroff, sobre a vida do capoeirista Besouro Mangangá. Caso Uma ladeira para lugar nenhum tenha o mesmo destino, ele já sonha com uma Rosário de carne e osso. “Imagina a Juliana Alves, linda daquele jeito, no papel?”, brinca.

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