quinta-feira, 20 de novembro de 2014

CRIOLO

O rapper Criolo vai se apresentar nesta sexta na Fundição Progresso. Segue aí um papo com ele, que saiu hoje no jornal O Dia.

A PALAVRA DE CRIOLO
Rapper lança disco na Fundição Progresso na sexta. "Se o Brasil melhorou? Quando você sai na rua, tem gente comendo no lixo!"

Publicado em O Dia em 20 de novembro de 2014

Cara séria, conversas profundas, papos filosóficos. O rapper paulistano Criolo (que apresenta o novo disco Convoque seu Buda ao público carioca nesta sexta-feira, na Fundição Progresso) vai fundo em seu lado mais sisudo em entrevistas e no palco. “Ué, mas eu sou um cara descontraído”, garante, dirigindo-se ao repórter. “Se um dia formos amigos e você me convidar para sua festa de aniversário, vou te abraçar e falar: ‘Vem cá, vamos rir um pouco’. Mas me descontraio quando estou com minha família, meus amigos, vendo o jogo do Corinthians.” 

O lado, digamos, “profundo” do rapper (que é Kleber Cavalcante Gomes na certidão de nascimento) veio mais ainda à tona há alguns meses, quando uma entrevista sua ao programa Espelho, apresentado pelo ator Lázaro Ramos no Canal Brasil, ganhou enorme popularidade nas redes sociais. Ao ser perguntado sobre “ascensão da Classe C”, o cantor filosofou que “é tipo leite que a gente comprava, leite tipo C, aí tinha um tipo A, da fazenda… A gente já ficou numa caixinha de novo, entendeu?” 

“Achei isso positivo. Mostrou a criatividade do brasileiro, que conseguiu esse recorte na entrevista (o vídeo com os melhores momentos foi editado e colocado no YouTube). Quando um dia revisitar o Lázaro, que é meu amigo, vou procurar melhorar o meu modo de me comunicar”, conta Criolo, que pegou trechos de sua fala e pôs em Cartão de visita, do novo disco. “Mas sou o que sou, sou o que estou falando aqui com você. Aprendi a partir disso que posso melhorar, mas cada um tem sua razão, sua visão sobre as coisas. Quem me perguntou sobre isso foi o Lázaro. Seria chato responder uma coisa que ninguém me perguntou.Você faz uma construção a partir disso e divide seu olhar com o outro.”

O Buda de Convoque seu Buda (cuja faixa-título fala em “mudar o mundo do sofá da sala, postar no Insta/e se a maconha for da boa que se foda a ideologia”), diz Criolo, não é o da religião. “É uma intenção de não esquecer algo positivo que você gera. Sobre colocar sua energia em algo que você queira dividir com os outros. A gente leva uma vida muito dura, são muitas coisas que levam a gente a situações-limite. Chego até a desacreditar um pouco da humanidade”, afirma. Perguntado sobre se o Brasil tem melhorado nos últimos anos, ele diz não ter “condições intelectuais de responder isso” e prefere falar como filho de benzedeira e de metalúrgico. “Se o senhor andar pelas ruas da sua cidade, vai ver gente comendo comida do lixo. Acho que isso já te responde.” 

Desde o lançamento de Nó na orelha (2011), seu segundo disco, o cantor se tornou mais que um rapper — virou um astro da MPB, com direito a turnês com Milton Nascimento, shows com Ney Matogrosso (que gravou uma canção sua) e Caetano Veloso. “É algo natural. Se é música feita no Brasil e por brasileiros, como ser diferente? E eles foram pessoas especiais, que se tornaram meus amigos”, conta Criolo.

Ele se sentiu particularmente tocado quando, dois dias antes de iniciar a turnê com Milton Nascimento, Linha de frente, o veterano cantor lhe pediu que cantasse Morro velho, composta por Milton nos anos 60 — e que fala sobre dois garotos, um filho de fazendeiro e um filho de capataz, que crescem juntos na fazenda. “Não perguntei a ele por que ele queria que eu cantasse isso. Nem precisava falar, já estava no olho dele.” 


Comandante de batalhas de MCs em São Paulo antes da fama nacional, Criolo chega aos 39 anos vendo amigos como Projota, Rashid e Emicida ganhando fama e já gravando CDs e EPs.  “Tenho todo mundo da minha geração impresso em mim. Se for falar de antigos companheiros meus que morreram, então, a gente vai levar um bom tempo aqui conversando.” Para o rapper, os principais artistas da sua família são seus pais. “Imagina passar 40 anos dentro da metalurgia numa cidade como São Paulo, como ele passou. Tem que ter muito foco e muita disciplina. E minha mãe lutou pelas artes na periferia de São Paulo, sem se deixar levar por ‘nãos’ e coisas ruins.”

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