terça-feira, 18 de novembro de 2014

DO LIXÃO AO OSCAR

Um papinho com o fabuloso Tião Santos, catador que virou consultor ambiental e tem sua vida contada em livro.


A VIDA EXTRAORDINÁRIA DE TIÃO SANTOS CONTADA EM LIVRO
Publicado em O Dia em 16 de novembro de 2014

O catador, palestrante e consultor ambiental Tião Santos passou por um verdadeiro exorcismo pessoal ao fazer o livro Tião — Do lixão ao Oscar (Ed. Leya, 256 págs., R$ 29,90). Relembrou os riscos que correu ao crescer no lixão de Jardim Gramacho (Duque de Caxias), a morte do irmão e a violência doméstica vinda do pai, a quem acabou perdoando e de quem se tornou muito próximo. 

“Fazer o livro valeu por dois anos e meio de terapia”, brinca. “Achei que já tivesse enterrado velhos problemas. Eu nem gosto muito de falar sobre meu pai, é algo que me deixa triste. Hoje, vivo isso tudo e gostaria de estar vivendo com ele.” 

O livro mostra o histórico de Tião, a época em que era uma criança vivendo em meio ao lixo (“cheguei a pegar tuberculose”, diz) e o momento em que sua família percebeu que poderia ganhar dinheiro com o material descartado pelos outros. Seu trabalho à frente da Associação dos Catadores tornou-se público quando apareceu no filme Lixo extraordinário, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, que mostrava o trabalho desenvolvido pelo artista plástico Vik Muniz em Jardim Gramacho e foi indicado em 2011 ao Oscar de Melhor Documentário. Hoje, Tião trabalha com consultoria sobre coleta seletiva e prossegue como presidente da associação, mesmo após o lixão ter sido desativado.

“Se fizer faculdade, vou ser para sempre um catador que se formou. Isso nunca vai ser apagado da minha vida”, diz ele, até hoje driblando preconceitos. “O catador é visto por todo mundo como o ‘homem do saco’, o cara que leva as crianças embora. Hoje, vou dar palestras e não tenho a aparência que se espera de um catador. E ele é um profissional que tem que ser visto como um protagonista da coleta seletiva. Não existe esse tipo de visão no Brasil.”

No livro, Tião lembra das vezes em que foi passado para trás por empresários. Também cobra promessas que teriam sido feitas pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes, como a de que seria instalada uma agência de desenvolvimento em Gramacho, para dar conta de questões pós-aterro. 

“Falar o que se pensa é sempre complicado”, diz. “Pago um preço muito alto por isso. Tenho grandes amigos dentro da prefeitura e eles sabem que minha luta é a de uma categoria. Há mais de um milhão de pessoas que vivem da reciclagem e sofrem preconceito por isso.”

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