sexta-feira, 14 de novembro de 2014

NELSON MOTTA

Bati um papo outro dia com Nelson Motta, que foi publicado no O Dia. Os assuntos eram o recente lançamento do CD Nelson 70, a série de televisão com os bastidores do disco, o livro As sete vidas de Nelson Motta (lançado ontem e repassando sua vida em meio a produção, TV, música e jornalismo). E mais algumas novidades que ele foi me contando no decorrer do papo, e que tornaram a matéria bem diferente de outras publicadas em outros jornais pelo Brasil afora. Como acontece com quase todo bom entrevistado, Nelson Motta tem um assunto diferente a tratar com quem o entrevista, e sempre solta aspas muito boas.

Cultura pop, timidez (apesar de ter conquistado tudo que conquistou, ele se considera um cara tímido e até brincou com isso durante a conversa), política, tecnobrega, Dancin Days (a novela) e MP3 também fizeram parte da conversa - que, pelo menos para mim, ficou tão legal que resolvi reproduzi-la na íntegra abaixo.


Muitos assuntos ultimamente, certo?
NELSON MOTTA
Sim, sim... Tá sendo uma grande felicidade comemorar 70 anos com novas produções e ao mesmo tempo com retrospectivas. Chegas aos 70 anos já é um privilégio, né? Imagina chegar com saúde? Em todas essas atividades que eu fiz sempre tem essa atração pelo novo, pelas novidades pelas mudanças. Isso se mantém em todas as fases da minha vida. Como também o sentimento de dividir com as pessoas as coisas que noticio, que descubro. Na minha carreira de jornalista, sempre preferi jogar luz em artistas obscuros, coisas impopulares, músicos difíceis... mais do que cair de porrada em shows ou discos de medalhões. Vi muitos críticos que achavam que iam crescer na profissão fazendo isso, e muitos deles sumiram completamente. Acho que os mais equilibrados continuam aí.

Já em política você é um camarada bastante crítico...
E você vai ficando cada vez mais crítico com o passar dos anos. Minha experiência também... O que minha geração viveu na ditadura, de ter participado da redemocratrização, dos piores momentos, plano Collor, governo Sarney... Nossa geração foi submetida a essas coisas. E quanto menos paixão partidária ou ideológica você tiver, mais crítico se torna da realidade política brasileira neste momento. Tenho horror a partidos políticos, a torcidas organizadas, a seitas religiosas. Isso tudo acaba tendo muito pouco a ver com o objeto. As pessoas acabam buscando uma expressão coletiva para não terem a responsabilidade individual de se construir e pensar por si próprias.

É uma lição que muita gente não aprende. 
Sim, sim. O Brasil é um país fantástico, que sobreviveu a isso tudo. É preciso depender menos do governo. Hoje com a internet, com a tecnologia da informação, não se precisa do governo para nada. Cada um pode fazer seu disco, seu jornal, sua revista, seu canal de televisão. Hoje tem cada vez menos desculpa para fazer as coisas. Minha geração era dependente politicamente, tecnologicamente, socialmente. Para nós é um refresco, é como se a gente corresse com pesos de 20 quilos nas costas (risos) e agora a gente vai correr só 5 mil metros.

Onde você ouve música hoje?
Ouço muito pouco vinil. Eu tenho iPod. Caminho pela praia uma hora de manhã e vou ouvindo as coisas que me interessam. No mais, ouço online, no laptop mesmo. É onde eu mais ouço música.

Mas você guarda vinis?
Guardo só o que tinha de melhor. No iPod eu tiro duas músicas, boto mais duas, ouço aleatório... Aí bate uma música esquisita e pum! Gosto de brincar com isso. Tenho lá de tudo: Miles Davis, tecnobrega, João Donato, João Gilberto, Miles Davis, Baiana System. E coisas que ouço há cinquenta anos.

O que você achou do resultado final do CD Nelson 70? Você mesmo produziu tudo, certo?
Foi uma grande alegria quando me propuseram isso e foi muito maior do que eu esperava. Fui escolhendo as músicas e os intérpretes e dei liberdade. Não interferi em nada. Cada um produziu como quis. Era o que eu queria do disco: versões diferentes para as músicas, algumas delas terrivelmente conhecidas, como Como uma onda (parceria com Lulu Santos, gravada por ele) e Dancin days (com Ruban Barra, gravada pelas Frenéticas e, nos anos 90, por Lulu)- da qual é bem difícil fazer uma versão nova.

A Gabi Amarantos releu essa música e deu uma cara tecnobrega, bem diferente...
Sim, ela conseguiu fazer uma música com esse mesmo espírito dançante da discoteca. Achei sensacional. Era impossível fazer melhor do que a gravação original, claro, mas ela fez bem diferente. Como uma onda foi uma das últimas a serem resolvidas. Todo mundo já gravou essa música. Mas foi aí que me ocorreu o Jorge Drexler, que é muito meu amigo e tinha me pedido para fazer a apresentação do disco internacional dele. Ele disse que adorava essa música, que sempre se emocionava, e ela tinha feito um grande sucesso na terra dele, o Uruguai.. Como ele ia fazer show em Montevidéo, e eu ia encontrá-lo lá, aproveitei para gravar com ele num estúdio. Quando ela a cantou num show dele, vi que boa parte da galera cantava com ele. Mas talveza a maior alegria do disco tenha sido quando a Marisa Monte quis participar como intérprete, o que é um luxo para qualquer compositor. Ela veio como uma música nova, 25 anos depois de eu ter produzido o primeiro disco dela. E é uma belíssima música (Nós e o tempo, parceria entre Nelson, Marisa e Cesar Mendes). A letra é sobre esses 25 anos de convivência. Sempre fomos amigos.

O Leo Cavalcanti, um dos convidados do Nelson 70, diz que Certas coisas (parceria com Lulu, gravada por ele e, no CD, por Lenine) o ajudou bastante numa época em que ele passou por um luto na vida, em que havia perdido uma pessoa... Você já foi surpreendido com pessoas te falando de uma leitura, ou de um uso pessoal bem diferente para uma canção sua?
Olha, de Como uma onda muita gente fala. E é legal porque as pessoas dizem que é uma música que serve para momentos de alegria e de tristeza. É um hino de dor e de alegria ao mesmo tempo. Quando a pessoa está feliz, que ela aproveite bastante aquilo, porque pode passar - cada valorização do momento ajuda na permanência disso. Esse uso é o que dá vida à música, quando a pessoa se apropria dela e usa com seus sentimentos. Isso é o que justifica o trabalho de um compositor. A maior alegria que um compositor pode ter é quando uma música não lhe pertence mais.

Uma música acaba ajudando as pessoas...
Essas músicas, na verdade, são filosofia barata, no bom sentido. Pode botar isso entre aspas ou sem, como você preferir. É uma visão filosófica sem pretensão e numa linguagem pop. Eu tenho várias músicas assim. Eu e vários letristas fazemos isso. É uma constante.. Isso não torna a letra de música uma arte menor, a torna mais completa, mais integrada. O cotidiano das pessoas rem hoje música em todo lugar, ela fica mais vulgarizada também. O silêncio está cada vez menos presente por causa de tanta música, da melhor e da pior. Nos anos 60 a música ambicionava uma mudança social mais importante, era trilha de movimentos sociais. Hoje ela virou uma commodity.

Perdeu valor para muita gente...
Ela perdeu relevância. Tem outras formas de expressão interessantes hoje em dia. Até mesmo a própria música com imagem, mesmo que a base continue sendo canção: música e letra.

Quando foi que você percebeu que tinha talento para pesquisar e entender cultura pop?
Olha, nunca foi uma atitude,,, Eu diria que foi mais um jeito de estar na vida, desde que eu comecei, graças a meus pais. Eu tive uma boa formação musical, literária, por parte da minha família. Uma boa formação de cinema, também. E muita liberdade. Sempre fui estimulado a nunca ter preconceito cabeça aberta. Meu pais gostavam de novidades. Conheci a bossa nova por eles, eles eram bem jovens quando nasci, tinham vinte e poucos anos.. Depois com a ditadura... a restrição faz você ter ainda mais curiosidade pelo proibido. Sempre viajei muito, conheci outras culturas. Amo o Brasil pela sua diversidade e originalidade, pelo seu tamanho, mas nunca tive essa mania de atribuir tudo de ruim ao estrangeiro, "ah, os portugueses, os americanos". Isso atrasa. O que interessa é as pessoas assumirem suas responsabilidades. O Brasil tem lá seu lado provinciano, paroquial. Isso tá entranhado no Brasil, que é um país que tem ilhas de grande avanço e de grande atraso. Um arquipélago com todas essas ilhas. Agora interligadas.

Bom, recentemente tivemos vários políticos ultraconservadores sendo eleitos...
Isso não me surpreende. Na nossa geração tivemos a ilusão de que o Brasil, por ser um país novo, poderia criar novas formas de civilização, de convívio pela tolerância religiosa, pela diversidade étnica. É ilusão. Tem que romper muita coisa para fazer o novo e a gente ainda poderia ter uma terceira via. Tinha também aquela via da União Soviética comunista, que, claro, era uma ilusão de juventude. A verdade é que o Brasil é muito conservador e a eleição desses candidatos é a expressão disso. Essa turma que antigamente se chamava de extrema-direita. Esses conceitos de esquerda e direita hoje são relativos, mas é uma expressão do conservadorismo brasileiro. Faz só um plebiscito sobre pena de morte, aborto, maioridade penal, pra ver no que dá? Temos expressões progressistas, mas os núcleos da sociedade brasileira são basicamente conservadores.

Você sempre teve muitos amigos. Como vai sua vida social hoje? Sai muito?
Pouquíssimo! Continuo tendo muitos amigos, mas vejo pouco. Tenho e-mail, Facebook, acompanho a vida deles. É mais seletivo também. Gosto mais de ficar em casa, fui vivendo minha vida de acordo com o biológico. Eu vivi muito na noite desde garoto, indo para as boates de jazz e bossa nova. Até os 40 anos eu vivi da noite e vivi da noite. Tive cinco, seis casas noturnas, dormia às 7h. Depois o organismo foi pedindo que eu parasse, até porque vivi isso muito intensamente e já estava de bom tamanho. Passei a viver as manhãs, o dia, a acordar cedo. Virei escritor, passei a trabalhar em casa, fiz dez livros, roteiros de TV, de musicais. Um privilégio é escolher o que vou fazer. Ao mesmo tempo que tenho uma vida social menos intensa, tenho uma vida familiar mais intensa. Três filhas, três netos - um neto de 18 anos, o Joaquim. Saio muito com minha família, viajo, é um colchão de afeto que eu tenho. É fundamental, é a base de tudo.

E esse seu neto de 18 anos? Quem é mais ligado no novo, você ou ele?
O Joaquim tá sempre perguntando, interessado. Ele vai fazer vestibular para Direito. É filho da milhe filha Joana, a mais velha. Ele é interessado em novidades e é muito centradi. Há algum tempo sabe que quer ser advogado. Mando textos para ele, a gente conversa muito pelo Whatsapp. Ele se interessa por política, economia, pelo mundo no qual ele vai viver e trabalhar. Eu acabo aprendendo muito com ele também.

Você sempre disse que é uma pessoa tímida. Como uma pessoa tímida conquista tudo o que você conquistou?
Ah, isso é complicado... Para ir a grandes eventos, muitas vezes tive que engolir a timidez. Isso fora tempos de bastante loucura e irresponsabilidade também. Mas à medida que eu fui ficando mais maduro e mais consciente passou a ser até mais difícil administrar isso, sabia? Meu amigos sabem que eu não gosto de coisa com muita gente. Prefeiro conversar individualmente com várias pessoas e depois juntar tudo. Até porque teho um espírito agregador, meus amigos até me chamam de "harmonizer" (harmonizador). "Ah, fulana de tal tá preocupada aí com alguma coisa... chama lá o 'harmonizer'" (risos).

Na TV é tranquilo?
Acho que ir para a TV e falar na frente de uma câmera é tranquilo (logo depois, ao posar para as fotos de O Dia, feitas por Bruno de Lima, Nelson disse que um grande desafio ao aparecer na TV ou tirar fotos sentado era não fazer "mão de padre" - com as palmas abertas para a frente - ou "mão de xoxota" - com indicadores e polegares aproximados). Basicamente o câmera tá ali na sua frente e acabou. O que me apavora mesmo é público, é fazer uma palestra para 500, 600 pessoas. Fico nervoso mesmo. Acho que é de família. Meu avô, Cândido Motta Filho, que escreveu vários livros, escreveu um chamado Ensaio sobre a timidez. Era tímido também (risos). Eu detesto multidão, gritaria, bate-boca, barraco... Tenho horror a essas coisas. Prefiro engolir um sapo do que enfrentar um barraco.

Bom, então não acredito que você vá se animar com essa onda recente de brigas por redes sociais...
Comigo não há a mais remota possibilidade! Isso foi uma decisão que tomei logo que houve a redemocratização. Tivemos essa luta toda, daí começou uma brigalhada danada por causa de eleições, discussões políticas... Pensei: 'Nunca vou perder um amigo por causa de eleições, ou por causa de discussão política'. Tenho amgios conservadores, de extrema-esquerda. Já votei no Fernando Gabeira, no Carlos Minc, fiz campanha para o Mário Covas, um amplo espectro. Tem amigos com os quais você não vai discutir, porque já sabe o temperamento da pessoa e vê que não vale a pena. Sou amigo do José de Abreu (ator e militante do PT). Para quê vou discutir política com ele?. Temos 1.800 assuntos para conversar. E outra: já desisti de convencer qualquer pessoa de qualquer coisa. Se me perguntarem, falo o que acho. Se você aceitar, ótimo. Se não, tudo bem. Não quero convencer ninguém e quero que respeitem minhas convicções e minhas mudanças de opinião. Estou em transformação permanente. Sempre me perguntam: 'Você não achava isso?'. Não acho mais! (risos). Essa dinâmica tem que ser acompanhada, várias coisas aconteceram, não penso mais assim. Ou então você vai ficar vendo a vida pelo retrovisor..

Dancin' days foi reprisada recentemente pelo canal Viva. Você acompanhou a reprise?
Não, não. Eu dei umas palestras para a turma da novela Boogie Oogie para contar como era a época. Hoje tudo o que dizem do funk, diziam na época da disco music. As pessoas sempre têm essa reação às novidades. Aliás, um dos meus próximos projetos musicais de teatro é contar a história das Frenéticas e do Frenetic Dancin' Days. Já tá lá o Simonal, sendo ensaiado.

Você escreveu o Simonal também, né? (S'imbora - O musical)
Escrevi com a Patricia Andrade. É diferente porque é um musical bem dramático, tem uma história dramática, é quase uma tragédia individual humana (risos). É bem mais ambicioso do que foi o Tim, que era um personagem mais bagaceiro. Com a Patricia vou escrever também outro musical sobre o Festival Internacional da Canção de 1967, aquele que é considerado o "festival dos festivais". Quando acontecer o musical, vão ser reencenadas as doze músicas do evento, tal como na época, com arranjos originais, etc. No fim do espetáculo o apresentador fala para a plateia do teatro: "Dessa vez não vai ser o júri que vai escolher o vencedor, mas sim a plateia. Liguem seus celulares!".

Isso tudo sai quando?
O do Simonal é em janeiro de 2015. O do festival fica para o segundo semestre. Deve se chamar Uma noite em 67, como o documentário (de Renato Terra e Ricardo Calil).

E o que você achou do filme do Tim Maia?
Adorei o trailer do Tim, fui até numa filmagem, mas não assisti ainda ao filme. Tem ali o Cauã Reymond, que faz um amigo do Tim... Foi uma grande pena, porque me disseram que o Cauã ia fazer o meu papel, mas era mentira (risos).

Finalizando, o que você considera ter aprendido com seu pai? (o advogado Nelson Candido Motta, morto em janeiro aos 92 anos)
Meu pai era um cara de uma ética rigorosa e de gragde generosidade e tolerância. O que eu mais aprendi com ele foi essa virtude, de aceitar as diferenças, de tolerar o erro do outro, de tentar entender as coisas. Ele tinha isso naturalmente, exerceu a vida inteira na família, no trabalho, na vida cotidiana. Mostrava isso através de exemplos. Isso é algo que me faz ter muita gratidão por ele. Era também um homem muito generoso. Ele sempre me dizia que quem recebeu mais, tem que dar mais. Eu não fiz nada para merecer minha inteligência, ou minha sensibilidade ou meus dons adivinhatórios, seja o que for, né? Ele tinha um regra de vida em que ele dizia o seguinte: "Qualquer pessoa que cruzou o seu caminho e pediu a sua ajuda, você tem que ajudar. Antes de perguntar qualquer coisa". Eu fui muito ajudado, mas quanto mais eu dei, mas eu recebi. Muitas vezes foi coisa imediata, tipo ajudar um amigo que precisava de dinheiro ou estava para ser despejado, num momento em que eu nem estava podendo. Dois dias depois aparece um dinheiro meu de direitos autorais que estva bloqueado há dez anos (risos). Tento passar isso para as minhas filhas.

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