quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

BETH CARVALHO - AO VIVO NO PARQUE MADUREIRA

Uma das maiores e melhores cantoras da história da MPB bateu um belo papo comigo para O Dia sobre seu novo DVD, cuja gravação reuniu 50 mil pessoas no Parque Madureira. Curte aí.

"EU SOU O TÚNEL REBOUÇAS"
Beth Carvalho lança CD e DVD gravados no Parque Madureira e, sem nunca ter morado na Zona Norte, diz conhecer a região melhor do que muitos moradores
Publicado em O Dia em 10 de dezembro de 2014

Cinquenta mil pessoas esperaram para aplaudir e ouvir Beth Carvalho em março, na gravação do DVD Ao vivo no Parque Madureira. As imagens aéreas incluídas no vídeo são impressionantes: o local fica parecendo (perdão pela comparação) o Rock In Rio, lotadíssimo em todos os cantos. E mostra a importância que Beth tem para a Zona Norte e para o samba da região. “Foi emocionante. Lá é o berço do samba no Rio”, comemora. 

“Sempre tive uma relação muito boa com os sambistas de Madureira, de onde vieram duas escolas de grande porte, Portela e Império Serrano. Você sabia que fui a sambista que mais gravou sambas da Portela?”, indaga a mangueirense Beth, que já torcia pela Verde e Rosa quando pisou pela primeira vez em terras portelenses. “Fiquei encantada. Ia na casa da Tia Doca, nos pagodes da Tia Surica, que mora numa vila deliciosa. Na quadra da Império também foi assim. O samba só briga na avenida, porque ele é união o ano inteiro.”

É difícil de imaginar, mas Beth nunca morou na Zona Norte. Criada entre Ipanema e Botafogo, ela frequentava, na juventude, “festas regadas a champanhe, uísque e caviar”. Começou na música apaixonada pela bossa nova. Mas desde cedo frequentava o subúrbio e corria atrás do samba. 

“O Sergio Cabral (jornalista) diz que eu sou o Túnel Rebouças, por unir Zona Norte e Zona Sul”, brinca. E sempre foi assim. “Meu pai era um intelectual de esquerda, um homem muito simples. Entendia meu fascínio pelo samba. Desde pequena, eu ia a Marechal Hermes e Cascadura, minha mãe tinha amigas lá. E ia de trem! Imagina se alguém da Zona Sul anda de trem?”, espanta-se Beth. “Conheço a Zona Norte melhor do que muita gente de lá. E a região está mais orgulhosa de si.” 

Chega a hora de falar de Ao vivo no Parque Madureira, que traz sucessos das rodas, como O show tem que continuar, Pandeiro e viola, Coisa de pele, Meu lugar e Senhora rezadeira misturadas a recentes canções, como Estranhou o quê? (Moacyr Luz) e Parada errada (Rogê, Rodrigo Leite e Serginho Meriti), cuja letra é o depoimento da mãe de um viciado em crack. “Todo mundo aplaudiu essa música. E cheguei a achar que ela era de difícil entendimento, acredita? Sinto que ela tem algo de Meu guri (de Chico Buarque, que dava voz à mãe de um morador do morro envolvido com o crime).”

Ao vivo no Parque Madureira tem duas participações afetivas e especialíssimas: a sobrinha de Beth, Lu Carvalho, em Devotos do samba, e o afilhado Zeca Pagodinho, em Deixa a vida me levar, Ainda é tempo pra ser feliz e Arrasta a sandália (esta, feita pela filha de Beth, Luana Carvalho, e por Dayse do Banjo). 

“A Luana tem um trabalho bonito, vai sair em breve. Vocês vão ver”, diz Beth. “A Lu sempre foi sambista, a levava para as rodas desde cedo. E o Zeca é o rei! Quando o levei comigo para o Fantástico para cantar Camarão que dorme a onda leva, ele teve que aprender a dublar. Fingiu que estava tocando cavaquinho e cantando. E ele hoje é um veterano!”, orgulha-se. 

Beth gravou o DVD sentada, cuidando da coluna após um ano de cama devido a complicações de uma cirurgia. “O público queria me ver de qualquer jeito, sentada, deitada.... Frida Kahlo pintou deitada, e, se precisar, canto assim também!”


INSTITUTO BETH CARVALHO “Minha casa é um museu!”, conta Beth Carvalho, que mostrou raridades no documentário ‘Coração em Festa’, dirigido por Gabriel Mellin e Bruno Murtinho, para os extras do DVD. Ele traz imagens do nascimento da filha Luana, a gravação de uma conversa com o sambista Cartola (na qual ele, errando a previsão, diz que Beth não deve gravar As rosas não falam, que acabou sendo um sucesso na voz dela, porque iria “queimar a música”), além de cenas da cantora ouvindo seus LPs antigos num toca-discos.

Beth pensa num destino nobre para esse material. “Vou fazer 50 anos de carreira em 2015 e quero montar o Instituto do Samba Beth Carvalho. Vai ter meu acervo, um teatro, aulas de música... Já andei conversando com o (prefeito) Eduardo Paes. Vamos ver se ele me ajuda nisso!”, diz.

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