terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O MUSICAL DO SIMONAL

O Dia deu antes e gostou: tudo sobre S’imbora, o musical – A história de Wilson Simonal, que estreia em janeiro trazendo o ator Ícaro Silva no papel principal.

ALEGRIA E TRAGÉDIA
Ícaro Silva é o protagonista de musical que mostra a ascensão e a queda do cantor Wilson Simonal, com estreia prevista para janeiro
Publicado em O Dia em 8 de dezembro de 2014

Experiente tanto em musicais quanto na TV, Ícaro Silva foi escolhido entre mais de mil atores para o desafio de viver um dos personagens mais complexos da história da MPB: Wilson Simonal (1938-2000). Dirigido por Pedro Brício e roteirizado por Nelson Motta e Patricia Andrade, S’imbora, o musical – A história de Wilson Simonal estreia 15 de janeiro no Teatro Carlos Gomes e detalha, por intermédio de mais de 40 músicas do seu repertório, a bizarra história de ascensão e queda de um dos cantores mais populares do Brasil nos anos 60, famoso a ponto de rivalizar com Roberto Carlos, mas jogado no ostracismo até sua morte.

“O fato de Simonal ter ficado afastado de seu próprio público é o que mais me toca. É a maior dor que um artista pode ter. Ainda mais no caso de um cara com o poder de comunicação dele”, espanta-se Ícaro, que já fizera Jair Rodrigues (1939-2014), amigo e contemporâneo de Simonal, em Elis — A musical. Só para lembrar: em 1972, ainda famosíssimo, Simonal mandou um amigo policial dar uma dura em seu contador, Rafael Viviani, que o teria roubado. Mas os policiais torturaram Rafael, e no temido Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), onde os presos políticos eram interrogados e torturados. O fato repercutiu em todos os meios de comunicação e deu fama de ‘dedo-duro’ para o artista. Queimado até o fim da vida, o cantor nunca mais se recuperou e virou “um zumbi, um cara que ninguém sabia se estava morto ou vivo”, como diz Nelson Motta.
“Ele fez uma enorme cagada. Simonal era um cara malandro, esperto, mas não era uma pessoa muito inteligente. Acabou vítima da sua esperteza e da sua burrice. E também do racismo. Se fosse um branquinho cometendo o mesmo erro, não teria acontecido isso com ele”, lamenta Motta, com a autoridade de quem conheceu o cantor e até o produziu. A cena da tortura não está na peça, é apenas citada (“ninguém sabe exatamente o que aconteceu”, detalha Brício). E Motta, mesmo admitindo que o musical conta um fato “trágico”, promete alegria para o público.

S’imbora começa bem alegre, mostrando como era o Simonal no palco. Ele dominava a plateia, tinha o público na mão. E não daria para o musical terminar de forma triste”, conta Motta. Para a emoção dos fãs, momentos como o dueto do cantor com a jazzista Sarah Vaughan (vivida por Cássia Raquel), interpretando o hit The shadow of your smile, estão no roteiro. E sucessos como Meu limão, meu limoeiro, Mamãe passou açúcar em mim e Tributo a Martin Luther King.

Mais: são dois protagonistas. Quem narra a história do Simonal é seu lançador, o agitador cultural e compositor Carlos Imperial (1935-1992), interpretado por Thelmo Fernandes, em atuação bem politicamente incorreta. “O Imperial da peça é ‘escrotérrimo’, engraçadíssimo, machista, fala um monte de baixarias. E mesmo que na vida real tenha morrido antes do Simonal, narra toda a vida dele”, adianta Fernandes.

“Os altos e baixos de Simonal, que depois passou a beber muito, podem levar muita gente a se identificar com o personagem”, diz Brício. “Todo mundo já sofreu um revés na vida. E o dele foi muito impiedoso, porque ele foi jogado no lixo da História”, conta o diretor. “Numa das cenas mais fortes, passada lá pelos anos 90, Simonal está num bar, bebendo, e não é reconhecido. E canta ‘Cordão’, uma música do Chico Buarque. Você vê o abandono, o sofrimento.”

Já a musicalidade e a alegria do cantor dominam o primeiro ato. “Num dos números, ele canta Lobo bobo (bossa nova de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli) ao mesmo tempo com a Elis Regina (interpretada por Marina Palha), com o Roberto Carlos (Victor Maia) e com o Jair Rodrigues (Jorge Neto), correndo de um lado para outro do palco”, conta o diretor.

Cantando Carango (Nonato Buzar), Ícaro/Simonal aparece dirigindo um carro. “Ele está com roupa de trabalho, vendo as pessoas irem trabalhar. Aí fica com roupa de praia. É um momento bem alegre!”, diz Brício. Outros nomes ilustres a surgir na peça são Jô Soares, Boni (ambos Marino Silva), Ronaldo Bôscoli (Kadu Veiga) e, representando o período em que Simonal viajou para o México com a seleção brasileira, na Copa de 1970, Pelé (Jorge Neto) e Zagallo (Paulo Trajano, que também faz o apresentador Flávio Cavalcanti).
O Simonal criança, filho de uma empregada doméstica, surge interpretado pelos atores mirins JP Rufino e JG D’Aleluia. Quem faz o filho mais velho do cantor, Wilson Simoninha, é o mesmo Jorge Neto que faz Jair Rodrigues no musical. “É estranho me ver transformado em personagem”, brinca Simoninha. “Mas é legal ver a história da minha família contada. Deixamos o Ícaro à vontade para buscar dentro de si próprio o Simonal, através do que ele acredita.” Ícaro confirma e adianta: “Meu desafio é evocar o Simonal sem transformar o personagem num cover.”

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