domingo, 1 de fevereiro de 2015

GRANDES OLHOS

Tá caro, bem mais caro do que o necessário, ir ao cinema. Me falaram muito bem de Relatos selvagens e ainda não vi. Assisti outro dia a O abutre - filmaço, depois falo disso aqui. Se você for um cara muito interessado em cultura pop, essa coisa que sempre se renova e deixa todo mundo com a impressão de que perdeu alguma coisa de muito interessante sempre, vale escolher Grandes olhos, novo filme de Tim Burton. Fiz a resenha do filme para o último Guia Show & Lazer, do O Dia. Leia aí ao lado.

Se você hoje conhece Andy Warhol, odeia Romero Britto e gosta de presentear namoradas com breguíssimos cartões da Anne Geddes, saiba: essa cópula bizarra entre "arte" e cultura pop - regida, sempre, pela (ai meu Deus) reprodutibilidade técnica e pela reprodução da mesma fórmula intermitentemente, até tostar os ovos do saco - deve muito a uma senhora de mais de 80 anos chamada Margaret Keane. Nos anos 50 e 60, ela pintou vários quadros com crianças abandonadas, sempre com grandes olhos. Com isso, fez uma série de pinturas destroçadas pelos críticos (sempre dispostos a mostrar que aquilo não era arte), numa época em que as abstrações vendiam e conquistavam fãs nas galerias.

O complicado da história foi que seu marido, Walter Keane, assumiu a autoria das pinturas e começou a ganhar fama (para ele) e fortuna (para o casal e para a filha que Margaret tinha de outro relacionamento). Era uma puta picaretagem, que Margaret engoliu a seco assim que viu a primeira leva de dólares entrando. A favor de Walter, pode-se dizer que ele foi um grande vendedor dos "grandes olhos". Montou uma galeria e viu que muita gente ia lá, dava uma olhada, nao comprava quadro algum e só pegava os pôsteres, distribuídos de graça. Claro: passou a cobrar pelos pôsteres, que reproduziam os quadros à venda.





Essa história tinha alguma fama lá fora. No Brasil, os "grandes olhos" já puderam ser vistos em alguns cartões postais e reproduções, mas não é algo tão conhecido assim. Para muita gente, é uma grande novidade e uma história e tanto, que vai crescendo e ganhando outros contornos à medida que o filme vai avançando. 

Um certo namoro dos Keane com o meio roqueiro dos anos 60 vai surgindo também - não por acaso, numa das cenas, Margaret avisa para uma amiga que seu marido Walter convidara os Beach Boys para conhecer a nababesca residência da família. Beach Boys, quem conhece sabe, era uma banda que, mesmo fazendo um som bastante ensolarado, costumava agregar uns tipinhos bem sombrios e estranhos. A partir daí, muita coisa muda em Grandes olhos.

Para quem tem um mínimo interesse na história da cultura pop, vale gastar uma grana e dar duas horinhas de atenção a Grande olhos - que, você já deve ter visto, traz Tim Burton longe do ator-de-estimação Johnny Depp. Amy Adams capricha como Margaret Keane e Christoph Waltz dá um belo tom de cinismo e falsidade a Walter Keane. Assiste lá que é legal.

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