sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O DITADOR DA BEIJA-FLOR

A história mal contada de a escola de samba Beija-Flor de Nilópolis ter supostamente aceitado R$ 10 milhões direto do bolso do ditador Teodoro Obiang, presidente da Guiné Equatorial, está sendo investigada pelo Ministério Público Federal. E não pegou nada bem. Diria eu até que, graças a isso, as pessoas estão discutindo de verdade uma coisa que já deveria ter sido comentada há muito tempo, que é a ética no carnaval. Normal: todo mundo quer mais é que seu time ou sua escola ganhe. De onde vem o dinheiro, pouco importa. Normal mas não deveria ser.

Por questões que vão além da euforia com o samba, o lance virou assunto de mesa de bar agora. Até desaparecer das rodinhas de vez, o que vai mais surgir é gente a favor da Beija-Flor, contra a Beija-Flor, gente fazendo competição de desgraças, gente defendendo a Guiné Equatorial (já apareceu), gente em clima de segundo e terceiro turno como se fosse eleição presidencial. E gente acusando quem se indignou com o tal repasse de grana à Beija-Flor de recalcado, mimimizento e coisas do tipo. Resta saber se alguém vai mesmo chegar à conclusão de isso é apenas uma (enorme e nada relativizável) gota d'água num sistema que já existe há muitos e muitos anos, de milhares de coisas erradas sendo esquecidas, banalizadas, folclorizadas e varridas para debaixo do tapete.

Seja como for, se pegar a moda de homenagear situações e pessoas, hmn, estranhas, sugiro os enredos abaixo. Pelo menos no quesito sinceridade, esses aí ganham. Aliás, provavelmente (e isso até que é bem louvável) o mesmo acontece no caso da Beija-Flor. É sempre bom saber com quem se está lidando, não é mesmo?

"REVOLUÇÃO 9, NOTA 10: EU SOU CHARLES MANSON". A vida do assassino e maníaco americano, que hoje se considera um preso político. Carros alegóricos em homenagem ao período em que ele arrumava vítimas para seus papos-cabeça em Haight-Astbury, referências aos Beatles e aos Beach Boys, um carro alegórico trazendo apenas pessoas fantasiadas de porcos (era assim que ele costumava se referir aos ricos habitantes de San Francisco e aos policiais, certo?). E se algo puder ser bem pior que isso, sempre é possível.

"REINO SANGRENTO: NO ESPLENDOR DE UMA NOITE, ANTON LAVEY NO BAILE DO DIABO". O fundador da Igreja de Satã ganha sua homenagem na avenida, com direito a lembranças dos artistas que, em algum momento, se envolveram com sua palavra (dizem que Sammy Davis Junior e Jayne Mansfield estiveram entre eles) e à atração internacional Marilyn Manson. E com o patrono da escola de samba que ganhar esse campeonato, convém não folgar (aliás, com os das que perderem, também).

"EU SOU O ANTICRISTO, MAS NO CARNAVAL QUEM NÃO É? O GRANDE ENCONTRO DE GLENN DANZIG E GLEN BENTON NOS BRAÇOS DO POVO". As histórias dos dois ícones do satanismo baixaria no heavy metal se encontram na maior festa pagã, para deixar todo mundo como aquele cara lá de baixo gosta. Carros especiais com nomes significativos como Nas tormentas do inferno e Como os deuses matam, além de um carro alegórico só para almas torturadas. 

"VAMOS POR PARTES: CHICO PICADINHO E JACK O ESTRIPADOR NA AVENIDA". As vidas e os crimes de dois grande ícones do esquartejamento, com vários carros que interpretam, de maneira lúdica, as várias visões do "esquartejar" - pela ótica da psicanálise, da filosofia, da mitologia, etc. Resta saber se vão conseguir que o criminoso Chico (que ainda vive e está guardado em segurança num hospital psiquiátrico em Taubaté) participe do desfile.

"O DIA EM QUE CAETANO VELOSO ATRAVESSOU A RUA E OUTRAS HISTÓRIAS". A alegria que faltava no carnaval carioca, tudo a ver com a folia: um carro dedicado a manchetes históricas como "Caetano atravessa rua no Leblon", "Elba Ramalho passeia com cachorro na praia", "Luana Piovani passeia pensativa na orla carioca". Promete causar rebuliço o carro com vários homens peludos se espreguiçando, representando a fase Avenida Brasil de José de Abreu - por causa da notícia "José de Abreu se espreguiça no aeroporto".

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