sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

RENATO ROCHA (1961-2015)

Conversei com Negrete, ou Billy, ou Renato Rocha, que foi baixista no melhor período da Legião Urbana (de 1984 a 1989) apenas uma vez, numa missão que parecia fácil e depois se tornou quase impossível. 

O jornalista Ricardo Alexandre, que foi editor da revista Bizz em sua última fase, me encarregou em 2007 de achar duas pessoas para uma matéria de capa da revista sobre Renato Russo (a da capa abaixo). Uma delas foi uma amiga de Russo, a primeira pessoa a saber do resultado de seu teste de HIV. Não lembro mais do seu nome, mas ela está na reportagem. A outra foi justamente Renato Rocha. A primeira tinha só uma pista distante, dada por um amigo jornalista. O segundo parecia mole de achar: uma amiga trabalhara com ele há cerca de um ano e poderia me passar o contato. 

Aconteceu o contrário do que eu imaginava. A amiga de Renato estava morando em Nova Délhi (!), foi
localizada sem muita dificuldade por e-mail passando férias no interior de Minas Gerais (!!) e me deu meia hora de entrevista por telefone (com alguma insistência da minha parte, é verdade). Renato Rocha não estava mais na rede de contatos da minha amiga, que me passou um telefone de um músico que o conhecia. O músico não tinha mais o contato dele e me passou o de outro. Que me passou o de outro. Que me passou o de outro. E assim sucessivamente. Consegui o telefone de Billy apenas após procurar o décimo (!) músico que teria tido contato com ele, e isso quinze dias depois. Enfim: liguei para Rocha, que estava vivendo em Brasília, e só queria dar entrevista se fosse realizada pessoalmente, lá na casa dele. Nem é preciso dizer que àquelas alturas, perto do fechamento, a matéria foi para as bancas sem o depoimento do ex-baixista.

O rock brasileiro guarda alguns segredos, entre eles os passos de Rocha após sair da Legião. E alguma coisa de antes, bem antes. Algumas coisas foram documentadas em revistas, ou relatadas por ele nas poucas entrevistas que deu após os anos 90. Sabe-se que ele morou em Mendes e amigos meus que frequentavam lugares como Paraty, Mendes e Rezende viviam relatando encontros com ele pela noite. Estava quase sempre sozinho, pelo que diziam. Muita gente que o conheceu dizia que Rocha era um cara fechado e instável, caladão num momento e prestes a explodir como uma bomba-relógio de uma hora para outra. A confirmar.

Um amigo conta que certa vez viu um disco de ouro da Legião Urbana no balcão de uma pousada numa cidade dessas e perguntou ao dono como o prêmio foi parar lá. Ouviu dele que o disco foi entregue pelo próprio Rocha, em troca de uns meses de hospedagem. Sabe-se (o assunto foi ventilado em algumas entrevistas) que ele odiava o apelido Negrete, dado por amigos na adolescência. Daria uma boa reportagem, que alguém com muita disposição e algum tempo poderia fazer.

O que é nítido é que, tendo sido injustiçado por seus ex-colegas de Legião ou não (e há muita injustiça em toda a história da banda, de parte a parte), os álbuns que ele gravou com o grupo representam o que há de mais luminoso na carreira da banda. Rocha entrou para o grupo após um ato impensado de Russo, que cortara os pulsos para "chamar atenção". E é responsável por segurar a base da banda em meio à primeira e melhor fase de composições do grupo. Boa parte da cara classuda, herdada do som inglês da Factory e do punk, que a Legião teria nos primeiros discos, veio de certa forma do baixo dele. 

Em Dois (1986), best seller do grupo, muitas músicas são de autoria do músico. Daniel na cova dos leões, abertura do disco (com sua letra explicitamente gay, diga-se), é só dos dois Renatos. Quase sem querer, na sequência, foi feita por Renato, Dado e Rocha. Acrilic on canvas é dos quatro e não teria a mesma cara sem o baixo agudo - sem falar no riff do mesmo instrumento, sintetizado - do músico. A enigmática Plantas embaixo do aquário também é dele. 

De outros discos, cito A Dança, Ainda é cedo, Petróleo do futuro e Depois do começo como músicas que tinham lá a cara de Renato Rocha. A partir de As quatro estações (1989), disco para o qual ele chegou a fazer gravações - todas apagadas pela banda após sua saída - o grupo ganharia uma cara bem mais pastoril, folk e (vá lá) um tanto solta demais, meio acomodada no fato de que as palavras de Russo eram quase tão respeitadas pelos fãs quanto as pregações de Jesus Cristo. Só Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá podem falar do quanto a saída de Rocha ajudou a modificar os horizontes musicais do ex-quarteto. 

Renato Rocha deve ter sido um dos milhares de caras que rodam por aí com um instrumento nas costas, sem fazer muita ideia do seu próprio talento ou da sua própria importância, mas com disposição para mudar o cenário ao seu redor. Talvez um dia seja reconhecido como um dos grandes músicos do rock brasileiro. Que o tempo lhe faça justiça, como precisa fazer a um monte de gente.

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