quarta-feira, 4 de março de 2015

O KISS NO DIVÃ (E NOS TRIBUNAIS)

De vez em quando a gente esbarra numas histórias bem inusitadas sobre o universo do rock. Uma delas, especialmente, descobri outro dia e fiquei estupefato de não conhecê-la. Se alguém que estiver lendo esse texto souber disso e achar que é fato batido, tudo na boa. Não sabia disso mesmo.

Durante a fase sem-máscara (quando lançaram uma série de álbuns chatos, com hits esparsos), o Kiss contratou como empresário um sujeito chamado Jesse Hilsen. Que vinha a ser ninguém menos que o terapeuta de Paul Stanley e era um premiadíssimo e conhecido psiquiatra.

Seria apenas mais um desses casos estranhos em que rock e psiquiatria se encontram (como o relacionamento entre Brian Wilson, dos Beach Boys, e seu ex-psiquiatra Eugene Landy). Só que depois Hilsen revelou-se um escroque da mais alta linha, além de um fugitivo dos mais ariscos. O investigador Steve Rambam, que já caçou nazistas, ladrões de joias e gente aparentemente bem mais cascuda, foi escalado para encontrá-lo após se passarem mais de dez anos do seu desaparecimento, sem deixar pistas


O crime de Jesse? Apesar de ter feito ganhos anuais que chegaram a mais de US$ 700 mil quando empresariava os ex-mascarados (entre os desgracentos anos de 1988 e 1992), declarou falência. Abandonou a família (passou a pagar uma pensão que chegava a US$ 300) e, em 1994, desapareceu dos Estados Unidos. Sua mulher e seus dois filhos deixaram um confortável apartamento em Nova York para morar num abrigo para pessoas sem-teto, e passar fome.

Deparei com essa história maluca há alguns dias quanto assistia ao programa Sem saída, no canal Investigação Discovery. Em meio à salada de casos reais que a série apresenta, surgiu a história de Hilsen, que deve ter aparecido em alguma biografia dessas da banda (algumas saíram no Brasil), mas que me era totalmente desconhecida. Usando dez nomes falsos e abusando do sangue frio, Hilsen escondeu-se na Holanda, em Israel (é judeu, assim como os dois líderes do Kiss e o próprio Rambam) e na África do Sul. Foi encontrado pelo investigador quando passava um tempo abrigado na casa de um tio em Westkill, Nova York.

O que deixa qualquer um espantado na história toda: 1) a frieza e o mau-caratismo de Hilsen, um cara que bem antes de se envolver com o Kiss já relegava a família a uma espécie de limbo sentimental e só se preocupava com o próprio enriquecimento; 2) o fato de ele realmente ter ficado fora do alcance da polícia dos Estados Unidos por uma década. O FBI não conseguiu nada ao investigar o caso. O próprio Kiss mal sabia (ou parecia mal saber) da situação: Paul Stanley e Gene Simmons só souberam que Hilsen era procurado pela polícia quando Rambam, que é fã do grupo, os procurou nos bastidores de um show em Chicago em 2003, no dia do ano novo judaico - o investigador abriu a conversa com um "shana tova" e despertou a atenção da dupla, que teria passado a colaborar imediatamente.

Bom, encurtando a história, Hilsen acabou sendo condenado em 2005 e obrigado a pagar US$ 162.000 à mulher - uma bagatela, se comparado ao que ele realmente devia à esposa e aos filhos, já adultos na época. Admitiu que não agiu certo e que pensou apenas em seu crescimento financeiro. O que espanta mais ainda é que, em meio a essas negociações, ele consegiuu manter sua licença médica. Aparentemente - a não ser que ele tenha um xará - ele trabalha hoje como alergista e imunologista em Albany, Nova York.

Não sei se vou estar fazendo um favor, mas se você anda por Nova York e procura um médico, segue aí o contato do doutor. E fique de olho na programação do ID para ver se o Sem saída com o ex-empresário do Kiss vai reprisar.


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