quinta-feira, 19 de março de 2015

NÃO, RESTART NÃO ERA BOM

Nem nunca vai ser. Acho difícil que o grupo (que, você deve saber, anunciou essa semana uma pausa nas atividades, após sete anos de carreira) ganhe o mesmo benefício da dúvida ao qual tiveram direito bandas outrora detonadas, como Abba, Queen e Black Sabbath. Mas não vai tarde, como dizem alguns detratores. 

Entrevistei os garotos em algumas ocasiões, pessoalmente, por telefone e e-mail (duas delas aqui e aqui) e sempre foram pessoas gente boa, lúcidas, com boa visão do mercado, maduras em se tratando de moleques bem novos. E que aproveitaram a situação enquanto deu. Lidar com um tipo de som que fica na moda e se esvazia rapidamente (o tal do happy rock, que era uma torção feita nos já conhecidos emo e pop-punk) é sempre complicado. Não que não houvesse nenhum talento artístico no Restart, mas talvez eles não tenham sido tão espertos assim na hora de fazer o publico que deu fama ao quarteto crescer junto com eles. E, cá para nós, não é algo que se consegue fazer tão facilmente hoje em dia, certo?

Ficam talvez as lições dadas por uma banda que soube bem usar as redes sociais, que fez de tudo para chegar até onde seu público estava e que não teve a menor vergonha de mirar a si própria como um pôster estampado na parede - algo que dá certo no rock desde os tempos de glória de reis como Elvis Presley, Beatles e David Bowie, e que é visto com (injusta) desconfiança no rock nacional, ainda mais em tempos de músicos barbudos e Foras do Eixo. Talvez faltassem a eles canções verdadeiramente boas (ou não, perguntem ao público deles). Será que dá para reduzir tudo dessa forma?

Esse fim, honestamente, me cheira mais ao seguinte: o grupo cresceu e parou de se identificar com seu próprio som, e passou a não se enxergar mais no seu próprio público ou naquelas roupas coloridas do primeiro álbum, ou na tentativa de fazer o jogo virar das músicas que se seguiram. E se chocou com o próprio passado e, quem sabe, as próprias possibilidades. 

Duvido muito que algum dos músicos resolva falar do assunto com esse nível de sinceridade, mas um sinal forte já podia ser visto no último clipe da banda, Cara de santa, em que o quarteto contracenava com uma boneca em 3D que fazia pole dance e até sugeria sexo oral no guitarrista Koba. E isso porque (em tempos bastante complexos) era o Restart, uma banda com público majoritariamente feminino e menor de idade, e não os Raimundos ou o Charlie Brown Jr. Vale citar que o próprio Restart já parecia desconfiar de seu prazo de validade quando desistiu da ideia de fazer um filme sobre si próprios. Seria uma situação naturalmente demorada, tensa e cara, e o risco de produzir uma Cinderela baiana do happy rock não era pequeno.

Enquanto isso, vida que segue, muita gente sequer sabia - se bobear até muitas fãs da época em que o grupo começava - que o Restart ainda existia, quanto mais que tinha dado um tempo em suas atividades. Normal no rock, normal na música em geral. O Rare Earth, grande banda branca de soul psicodélico contratada nos anos 70 pela Motown (e que fez enorme sucesso no Brasil com músicas como I just want to celebrate) continua por aí fazendo shows e tem apresentações marcadas para este ano. Muita gente nem sabe. No Brasil também tem. O Eddie, grande banda recifense dos anos 90, ainda está por aí e se prepara para lançar o sexto disco, Morte e vida, o primeiro gravado em Olinda. Até o Joelho de Porco, instituição galhofeira-roqueira dos anos 70, está de pé e costuma fazer shows, liderados pelo vocalista Próspero Albanese. 

E só para aderir, vamos lá: #obrigadorestart. Voltem logo, mas voltem com disposição. E façam uma música que dê para eu ouvir.

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