segunda-feira, 4 de maio de 2015

FABIO FONSECA, ED MOTTA E MANUEL

Então.

Assim que estourou o caso Ed Motta - preciso mesmo te lembrar o que é? - eu sinceramente nem pensava em fazer uma matéria a respeito. Ed não iria mesmo falar e eu tinha outros afazeres. Foi aí que me lembrei de uma coisa. quantas pessoas já resolveram bater um papo com Fabio Fonseca (co-autor de Manuel) e perguntar a ele o que ele acha da suposta repulsa de Ed Motta à sua música, que foi um dos primeiros hits do cantor?

Eu sou bem fã de Fabio e das produções dele, que incluem os primeiros momentos de Fernanda Abreu em carreira solo, o primeiro disco de Gabriel O Pensador e um disco primoroso lançado por ele em 1992, Fabio Fonseca & friends: Tradução simultânea. Era o disco de A mulher de 15 metros, com participação de Luiz Melodia, que chegou a tocar no rádio. Tinha a pré-funkeira teen Nanda Rossi em Vida vira vida. Marina Lima cantando Os ladrões de Bagdá. João Donato estreando em discos pop, fazendo arranjos de cordas. Esse disco saiu em CD na época, depois sumiu do mercado e nunca mais foi relançado. E é um retrato cantado e tocado do pop carioca como ele deveria ser.

E também sou muito fã de reportagens que mostram, digamos assim, "como funciona" um determinado hit. Como ele foi feito, quais foram as inspirações, em que condições ele foi escrito, se os autores sentiram o cheiro de sucesso assim que puseram o ponto final na letra ou o último acorde. Muitas músicas legais balançaram as estruturas da gravação de um disco assim que foram apresentadas e Manuel parece ter sido uma delas. Foi parar nas rádios ao lado de outros sucessos do primeiro disco de Ed, Ed Motta & Conexão Japeri (1988), como A rua e Vamos dançar e lhe marcou a carreira, provavelmente por lembrar mais o som de seu tio Tim Maia do que ele talvez gostasse.

Decidi procurar Fabio pelo Facebook e a resposta foi positiva. Ele, claro, não estava inicialmente muito à vontade para falar do assunto. Já tinha sido avisado de que Manuel, que compusera com Marcia Serejo, tinha virado assunto nacional de uma hora para a outra. Minha ideia não era fazer chacota de Ed com a entrevista - e com a matéria que você lê aí, ao lado, publicada na capa de domingo do Caderno D logo após a história chegar às redes sociais. Queria mais era saber como ele via aquilo tudo, como a música tinha sido feita e em que contexto.

Fabio, que mora hoje nos EUA e trabalha com design e desenvolvimento de teclados, me esclareceu algumas dúvidas que sempre tive. Manuel, o personagem da música, nunca existiu. E, principalmente, não foi inspirado pela vinheta O grão-mestre varonil ("Manueeeel/o maior homem do mundo/homem sábio e profundo") gravada por Tim Maia no Tim Maia Racional 1 (1975). "Eu nem sequer conhecia o disco Racional naquela época", afirmou. Ed Motta gravou a música porque quis, sem obrigatoriedades - não foi um hit que a gravadora lhe empurrou goela abaixo. 

E se alguém quer saber minha opinião sobre a história toda do Ed, não tenho apenas uma opinião, tenho várias: 1) "Toca Manuel!" vai virar o novo "toca Raul". Ed conseguiu isso e Fabio, que se sentiu lisonjeado pela lembrança à sua música, agradece; 2) Deixa o Ed falar, pelo amor de Deus. As opiniões dele sobre como o público brasileiro, acostumado aos sertanejos e pagodeiros dos brazilian days da vida, se comporta em shows lá fora, nem estão erradas. Músicos brasileiros que fazem shows fora do Brasil, mesmo discordando da maneira como Ed expôs suas opiniões, reconhecem que é um problema grave; 3) Como bem disse um amigo (e eu concordo), Ed Motta domina a arte de parecer errado mesmo estando certo. Se emitiu opiniões com as quais não é difícil concordar e tem todo o direito de, numa turnê internacional, não querer ser importunado com brados de "toca Manueeeeel" (Caetano Veloso, por muito menos que isso, já deu chiliques no palco), temperou a discussão com observações um tanto preconceituosas. Chamar o público de "pedreiro" ofendeu o público e os pedreiros, por exemplo.

E ao lado segue a matéria que fiz para O Dia com Fabio Fonseca, autor de Manuel. A anatomia de um hit que, no fundo, fala de todos nós. Talvez por isso as declarações de Ed tenham atingido tanta gente. A arte é do grande André Hippertt.

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