quinta-feira, 11 de junho de 2015

PRONTO. TÁ NA HORA DE TIRAR AQUELE SEU VELHO PROJETO DE BIOGRAFIA DA GAVETA

Não tem desculpa. Além de as biografias não-autorizadas já terem sido liberadas pelo STF, o mercado provavelmente vai estar aquecido e as editoras vão invadir as livrarias com biografias sobre tudo quanto é nome. Isso sendo - como é do meu estilo - bem otimista.

A prova disso é que, só hoje, quatro amigos já me falaram de livros que pretendem fazer, ou insinuaram que gostariam de lançar. É algo muito bom para o mercado de livros e para os jornalistas, que só veem noticia ruim sobre sua profissão todos os dias.


Viajando um pouco mais, imagino que muitos futuros biografados também se animem e saiam da toca. Como assim? Simples: muitas pessoas não se animavam a ter livros lançados sobre suas vidas porque sabiam que fariam revelações demais. E como a história de uma pessoa não é só dela (passa pelos vários relacionamentos que estabeleceu ao longo de sua vida) as trajetórias de outras pessoas também estariam ali, podia dar merda, recolheriam os livros, etc etc. Mas acabou a mordaça chapa-branca. Ao que parece.

Se rolar mesmo o "boom das biografias" (como brincou outro dia no Facebook o amigo Marcos Lauro, editor da Billboard) vai ter é muita reputação sendo salva pelos livros. Muito artista que mal queria saber do assunto pedindo pelo amor de Deus para que algum jornalista vá lá fazer a biografia dele. Muita gente nula tentando ser salva do ostracismo alegando que foi censurada na ditadura militar. Ok, muito produto ruim chegando no mercado ao lado de muita coisa boa. Mas isso é normal. Mais: não há nada nas livrarias sobre nomes como Pelé, o ex-presidente Médici, Xuxa. Nada de várias visões sobre o mesmo personagem, nada conflitante. E agora isso pode rolar.

Imagino pelo menos dois grandes lançamentos chegando às lojas nos próximos meses. Tem uma biografia sobre Raul Seixas que já está sendo feita há seis anos e que nenhuma editora quer lançar, porque a família dele já resolveu proibir. Uma amiga minha jornalista prepara há vários anos a biografia de um conhecido astro nordestino na MPB, autorizadíssima por ele - mas as editoras cagam de medo de serem processadas por algum amigo dele, indignado com as revelações do livro. Há muitas outras, muita coisa vetada e, claro, espera-se para qualquer momento o relançamento de Roberto Carlos em detalhes, de Paulo Cesar Araújo, com novas informações. Isso fora tudo o que já foi proibido ou recolhido - dê um Google para se assustar com o número de livros sustados por biografados ou herdeiros.

Eu tenho 40 anos, vivi um pouco o fim da ditadura e as Diretas Já na infância. E, bem menos que muitos amigos mais velhos, vi um monte de máscaras caírem, uma pá de reservas morais humanas agindo como vendilhões - e me desiludi muito, politicamente falando. Sei o quanto essa vitória das biografias se relaciona com minha profissão e, confesso, deu uma levantada na minha autoestima profissional. Deve ter acontecido o mesmo com vários amigos. A quem comemorou a liberação das biografias não-autorizadas, sugiro não cair de boca e ficar de olho. Vem muita coisa boa aí. Vem merda aí também. O pesquisador musical Marcelo Froes já cantou a pedra óbvia: "Surge uma nova era para advogados de marcas & patentes. Agora os famosos biografáveis vão correr pro INPI". 

No mais, que as coisas vão mudar a partir de agora, ninguém duvida. E espero que isso seja o início de um debate bem legal entre biógrafos e futuros biografados -  e que todos os jornalistas estejam sempre dispostos a falar sobre o trabalho que dá escrever histórias dos outros e o quanto isso faz a alegria de muitos leitores. Não é coisa de vagabundo, nem de fofoqueiro, nem de artista frustrado não. E para muita gente que conheço, vale mais do que dinheiro.

(acrescentando uma boa frase do especialista em soul music Zeca Azevedo: "Na boa, hoje é mais importante fazer biografia de Marco Feliciano e Eduardo Cunha do que de Roberto Carlos").

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