quarta-feira, 10 de junho de 2015

PLAYBACK: ELES TAMBÉM FIZERAM, VOCÊ TAMBÉM PODE

O ex-baixista do Hojerizah, Marcelo Larrosa, que hoje mora em Aracaju e trabalha com design gráfico e rádios online, comentou outro dia no Facebook: "Tenho uma coisa muito feia para confessar: eu fazia playback no Bolinha".

Não só no Clube do Bolinha. Bem antes do Superstar usar esse tipo de expediente para facilitar a produção e pré-produção do programa - e assim conseguir ir ao ar todo fim de semana sem maiores atropelos - o baixista da banda de Pros que estão em casa também frequentava os palcos de atrações como o Programa Raul Gil e o Clube da Criança, da Xuxa, na Rede Manchete. Olha só o grupo, em meio a um estranho festival de jogadores de iôiô (!), no programa da então pré-rainha dos baixinhos. Era, à época, uma banda tão iniciante quanto o Scalene.



A verdade é que o desenvolvimento do pop-rock nacional deve muito ao playback. Ok, deve também ao satírico Perdidos na noite, de Fausto Silva, apresentado na Record e depois na Band, onde era possível tocar ao vivo. Mas quem queria aparecer de verdade, cheio de radicalidade ou não, dublava as próprias canções na televisão. Recentemente o canal Viva, ao reprisar o Cassino do Chacrinha e o Globo de Ouro, redescobriu várias dessas apresentações.

Andei catando algumas que achei interessantes. Entre grupos novos, apostinhas de gravadora e gente já consagrada, olha o que aparece.

PICASSOS FALSOS NO CASSINO DO CHACRINHA: A banda co-irmã do Hojerizah lança o hit Quadrinhos no programa do Velho Guerreiro, esbanjando timidez, destoando quase completamente do clima da atração e tentando manter forço, força e fé mesmo com uma chacrete seminua rebolando a poucos centímetros de distância.



LEGIÃO URBANA NO CASSINO DO CHACRINHA: Diz a história do rock brasileiro que Chacrinha gostou de Renato Russo logo de cara, já que sua voz lembrava a de Jerry Adriani. A Legião mostra Ainda é cedo no programa e, no começo da apresentação, rola até a rápida imagem de dois garotos, aparentando não mais que 10 anos de idade, tentando dançar igual a Russo.



PLEBE RUDE NO CASSINO DO CHACRINHA: Hilário. Chacrinha oferece a "jaca da Vera Fischer" (Russo, fantasiado de gladiador, entrega o prêmio) e a banda invade o palco com posições trocadas para apresentar a nacionalista e esquerdista Nunca fomos tão brasileiros. Jander Bilaphra, originalmente guitarrista, dubla a bateria e usa uma maravilhosa camisa da banda punk Cólera. O curioso é que a versão é diferente da incluída no LP de mesmo nome da Plebe Rude (1987) e tem uma longa introdução instrumental.



CASCAVELLETES NO MILK SHAKE: Fugindo um pouco do Chacrinha, a desbocadíssima banda gaúcha dos anos 80 se apresenta no programa da então estrelinha teen Angélica dublando uma canção chamada... Eu quis comer você. Destaque para o palco imitando o jogo Genius e para o vocalista Flavio Basso fazendo a maior questão de informar o nome da música à apresentadora.



RATOS DE PORÃO NO MILK SHAKE. O grupo punk, que em 1988 dizia que "preferia morrer do que ir ao Chacrinha", rendeu-se à agenda de divulgação da gravadora Eldorado para vender mais discos, e foi divulgar Anarkophobia (1991) no Viva a Noite, de Gugu Liberato, e no Milk Shake, de Angélica. A apresentação no programa na loirinha é a mais engraçada, com integrantes trocando de papéis (João Gordo empunha a guitarra e Jão, o guitarrista, pula com microfone na mão e camisa do Lard) e interagindo com os personagens do programa, fantasiados de Branca de Neve e os Sete Anões. Chega a ser psicodélico, ainda mais porque a música é a depressiva e suicida Sofrer.


RAIMUNDOS NO XUXA HITS. A nova (cof cof) geração do playback: Raimundos no programa da Rainha dos Baixinhos em 1999, já consagrados como uma das maiores bandas do Brasil, cantando I saw you saying e, em seguida, Ilariê ("a primeira música que tocamos ao vivo", informa o guitarrista Digão), em meio à segunda geração de Paquitas e aos rapazes do You Can Dance.



TNT NO GLOBO DE OURO. O apresentador Cesar Filho e suas acompanhantes (Isabela Garcia, Claudia Raia e Claudia Abreu eram as mais assíduas) parecem ter influenciado muito o estilo "engraçaralho pra cadinho" de Evaristo Costa e Sandra Annenberg no Jornal Hoje. Entre risadas, o então apresentador do Globo de Ouro, à frente do programa em 1988, avisa que vai "detonar" a banda gaúcha TNT, que dubla o belo clássico A irmã do Doctor Robert.




UPDATE: O Marcelo Larrosa publicou o texto no Facebook dele e ainda escreveu lá algumas recordações da época dele no Clube do Bolinha:

"Mas porque eu citei o Clube do Bolinha e não outro programa qualquer? Porque era ótimo!!! Tirando o fato que você ficava lá umas 5 horas (no barato) para gravar 3 minutos de programa, o resto era bacana. Isso porque ao contrário de outros, gravados dentro das próprias emissoras, ele era feito no Teatro Záccaro, enorme. E aí morava toda diferença.

Na TV, em todas, você ficava num camarim, pequeno geralmente, impossibilitado de se locomover. Todos acessos internos bloqueados, seguranças, nada para se ver ou fazer, a não ser bater papo com três caras que eu já via todos dias, há anos.

No Zaccaro não havia espaço para tantos artistas em um camarim, assim ficávamos todos juntos, De Elza Soares a Tinoco, de Roupa Nova a Hojerizah. Só isso já valia a viagem. Parecia que a produção marcava com todo mundo na mesma hora, um erro, ou talvez nem fosse assim mas os constantes atrasos nas gravações acabava formando uma 'fila de entrada' no palco, cada empresário metido a rei dando seu esporro particular na pobre produtora para seu artista entrar logo, porque já está ali a tantas horas e isso é um absurdo e mi mi mi. Isso tudo dentro de...um banheiro !!! Sim, o camarim gigante tinha toda pinta de uma sauna gigante desligada, toda de azulejos, ou brancolejos, como queiram. Conforto zero. Níveis de stress altíssimo entre as estrelas.

Mas nós, que éramos macacos novos, nem esquentávamos. Primeiro: botequim. Ali havia possibilidade de sair à rua. Ahhh...e como nós saíamos. Segundo: um teatro daquele tamanho, segundo andar com cadeiras confortáveis, vazio, sono e mé nas ideias, dormíamos. Daqui a pouco um acordava, ia lá embaixo, perguntava para o empresário como estava a fila, se fosse logo chamava os outros. Se não fosse logo, botequim de novo.
E assim, como mineiros vendo o mar pela primeira vez, a gente se divertia muito."

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