segunda-feira, 15 de junho de 2015

PLAYBACK: UM DEPOIMENTO, POR BENI BORJA

O texto abaixo é extenso, histórico (em minha opinião) e vale a conferida por qualquer um que ame música e se interesse pela história da música pop brasileira. Ex-baterista do Kid Abelha, hoje produtor, Beni Borja (foto) mandou para o meu blog com exclusividade algumas das suas recordações da época em que o Kid voava de clube em clube no subúrbio fazendo playbacks para o Cassino do Chacrinha. Muitos não gostavam, ele se divertia dublando as atuações de estúdio - e mostra o quanto é difícil bancar o inocente num meio que não é para inocentes.

A partir daqui é tudo Beni.

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Na altura do Viaduto de Madureira o silêncio escuro do carro é bruscamente interrompido pelo assunto de sempre: 

-  Por que não fazemos mais shows ao vivo? 

Uma voz responde, do banco de trás:  


- Nós não fazemos mais shows ao vivo, porque o Beni gosta de fazer playback. 


No estado de torpor em que eu estava, em vez de morder a isca (e pela enésima vez repetir a mesma explicação sobre as dificuldades de produção e a falta de demanda que nos impediam de tocar mais vezes ao vivo, argumentação já muito conhecida, mas nunca inteiramente aceita) simplesmente respondi: 


- É, deve ser isso mesmo.  


Mas era um fato. Para desgosto dos meus colegas de banda, e desprezo dos músicos em geral, eu gostava mesmo de fazer “playbacks”.


“Playback”, ou melhor na forma realmente falada, “pleibéqui” era uma performance canhestra de mímica de três ou quatro músicas, falsa como uma nota de três reais, que fazíamos nos bailes do subúrbio do Rio. 


Admito que era um espetáculo patético. Nós, de corpo presente, na frente de milhares de espectadores, reproduzindo as pantomimas dos programas de auditório da televisão. 


Mas eu gostava, e para desespero dos outros Abelhas, apreciava ainda mais escandalizar a vanguarda revolucionária do rock caboclo fazendo a apologia dos “pleibéquis”.


Me divertia a indignação dos amigos, que desejavam com sofreguidão o reconhecimento das suas aptidões instrumentais pelo meio musical, enquanto eu, traidor da causa roqueira, desfilava os meus argumentos em defesa do que parecia inteiramente indefensável. 


Meu discurso em defesa do “pleibéqui” não era só uma provocação aos colegas, eu realmente acreditava que não havia nada de desonesto com o público na nossa performance. Os frequentadores dos bailes estavam bem acostumados a essa encenação, era mesmo isso o que eles esperavam. 


O acordo era tácito, mas era claro, nós fingíamos que tocávamos e cantávamos e o público fingia que acreditava.   


Além disso, me parecia muito mais relevante levar a nossa música numa gravação, para milhares de pessoas nos subúrbios, do que pregar tocando ao vivo para algumas centenas de convertidos no Circo Voador ou no Morro da Urca.  


A indignação dos colegas alcançava picos ainda mais altos de cólera, quando eu ousadamente falava do negócio que fazíamos com a produção do programa do Chacrinha, de “trocar” alguns dos “pleibéquis” por apresentações nos programas do Velho Guerreiro.

Quando os jovens revolucionários furiosos me confrontavam com o absurdo que era eu compactuar com a imoralidade do “jabá” (o termo usado no meio do entretenimento, desde tempos imemoriais, para descrever o negócio de pagar para ter sua música executada na mídia), em êxtase, eu jogava na cara deles a sua hipocrisia de ignorarem o fato, amplamente conhecido, de que as suas próprias gravadoras e empresários pagavam para que as suas músicas fossem tocadas nas rádios e eles fossem convidados para os programas de TV.  


Se o jabá era inevitável, e todos sabíamos que era, eu preferia conhecê-lo, saber de todos seus detalhes pútridos e falar dessa extorsão da forma mais clara e aberta possível, em vez da conivência silenciosa deles, que terceirizavam o serviço sujo, se passando por limpinhos enquanto chafurdavam no lamaçal que era o mundo do entretenimento.         

Com essa argumentação final acachapante, os soldados do rock invariavelmente partiam para a sua última linha de defesa, que era questionar minha sanidade mental, uma possibilidade que afinal não podia ser inteiramente desconsiderada. 


Caberia aqui uma digressão sobre como a institucionalização do “jabá” desgraçou a mídia no Brasil, como boa parte dos shows de artistas pop atuais são “pleibéquis” mal disfarçados e outros episódios e considerações, que provariam que a história veio a me dar razão, mas tratemos disso em outra ocasião. 

Hoje penso que o que incomodava mais no pleibéqui, além da futilidade da nossa destreza instrumental, é que nele ficava absolutamente evidente o nosso papel de atração absolutamente secundária. Nossas apresentações eram milimetricamente configuradas para não atrapalhar o essencial. Éramos somente um respiro no baile, a presença de uma sub-celebridade musical da tevê para dar um toque de glamour num evento proletário. Uma dura constatação do papel decorativo que nos caberia como artistas pop.  

Certo é que minha atração pelos “pleibéquis” não era uma tara doentia por fazer micagens num palco tocando uma bateria imaginária, nem tampouco, como diziam os meus detratores, o encantamento com o dinheiro vivo, que recebíamos em pacotes de notas antes de subir no palco e repartíamos no caminho de casa. 

O que me levava a insanidade de defender aquele teatro do absurdo, era o fato de que a nossa constrangedora atuação nos “pleibéquis” nos concedia entrada, pela porta da frente com tapete vermelho, ao selvagem e misterioso submundo dos bailes.     

A nossa peregrinação a cada fim de semana pelos clubes de subúrbio, era uma oportunidade única e fascinante de conhecer “in loco” uma realidade da qual nós só tínhamos notícias esparsas. Uma pesquisa sociológica de primeira grandeza, um curso prático intensivo na realidade da vida na cidade de São Sebastião.  

Ninguém com um mínimo interesse por música popular, nascido em meados do século 20 no Rio de Janeiro, poderia ignorar o movimento dos bailes. Do Baile da Pesada de Big Boy em Botafogo, no fim dos anos 60, até o surgimento, das equipes de som especializadas em soul e funk americano nos clubes do subúrbio, uma década depois, os bailes foram o caldeirão que cozinhou em fogo lento a cultura “black” norte-americana para o nosso banquete antropofágico de cada dia. 

Circular naquele universo, onde a pobreza andava de mãos dadas com a vanguarda, onde tive a generosa acolhida de figuras lendárias como Mr. Funky Santos, DJ Paulão, Cidinho Cambalhota e Ademir Lemos entre tantos outros artífices do que viria ser a real revolução sonora na música brasileira, valia muito mais do que qualquer vexame.

2 comentários:

  1. Genial esse texto. Confesso que vivemos a nossa história. Eu sabia que tinha alguém do meu lado.................

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  2. Perfeito!!
    Já assisti "peibequi" de JOÃO PENCA, BIQUINI, DR. SILVANA qdo era dimenor. Fora os carros de som q passavam em minha rua, anunciando atrações de sábado a noite (os TITÃS também já "tocaram" a alguns quarteirões de minha casa). Enfim, momentos musicais de minha pré-adolescência... Abç!

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