terça-feira, 9 de junho de 2015

E AÍ, SE SENTIU ENGANADO?















Você se sentiu enganado pelos Sex Pistols quando viu o cartão de crédito lançado pela Virgin com o logotipo da banda? Bom, acho que nem eu, nem você, nem ninguém. Eu particularmente mal sabia que o nome 'Sex Pistols' ainda poderia servir para vender alguma coisa, ou que a velha piada da "grande farsa do rock", quando contada mais uma vez, ainda teria alguma graça. Mas é sempre bom relembrar os Sex Pistols.

Na verdade são dois cartões, como mostra a New Musical Express. Um deles com a logo do único LP lançado pela banda,Never mind the bollocks - Here's the Sex Pistols (1977) e o outro com a capa do single Anarchy in the UK. Nada demais quando vindo de uma banda originalmente montada por um empresário esperto (Malcolm McLaren) com quatro moleques frequentadores de uma butique londrina chamada Sex - alguns deles, totalmente duros, costumavam afanar as roupas da loja.

De novo: tudo tranquilo, ainda mais quando vindo de uma banda especializada em táticas de choque cultural-estético e provocações à larga. Logo ao assinarem o contrato com a EMI para lançar o single Anarchy in the UK, correram para o prédio da empresa para tirar uma foto igual à dos Beatles na capa do álbum Please please me (1963). Olha aí a foto.
























Pouco após o lançamento do single, o grupo, cercado de asseclas, repetiu variações em torno da palavra "fuck" no programa de TV de Bill Grundy (para o qual a EMI os havia mandado em substitução ao Queen, que não pôde ir) e foi expulso da companhia. Olha aí o vídeo. A gatinha à direita, para quem Grundy lança umas gracinhas, é Siouxsie.


















Depois, diz a história, a banda assinou com a A&M, pela qual lançaria God save the queen. Não durariam muito: arrumariam uma baita briga nas próprias dependências da gravadora e, numa festa dias depois, o vocalista Johnny Rotten ameaçaria de morte um notável da A&M. A quase novata Virgin contratou a banda, lançou vários singles e depois o Never mind the bollocks - Here's the Sex Pistols. Entre clássicos como God save the queen, Anarchy in the UK e vários outros, surgia lá, no finzinho do disco, EMI, uma desomenagem da banda à histórica gravadora pela qual foi chutada. No final da canção, a frase "hello EMI, goodbye A&M" e um peido. 

















Tido como um empresário de visão, Richard Branson, criador da Virgin, mudou bastante o foco da sua empresa com o passar dos anos. A gravadora - que descendia de uma loja criada por Branson e o sócio Nik Powell, especializada em itens como discos de rock alemão e comida vegetariana - começou pondo nas lojas discos bizarros como Tubular bells, de Mike Oldfield (1973). O álbum se tornaria mais conhecido como a trilha sonora de O exorcista, de William Friedkin. 


















Lar melhor para os Sex Pistols não haveria, pois Branson sempre curtiu novidades e desafios. Anos depois, cofres cheios, a Virgin contrataria vários nomes já estabelecidos da música e investiria em sons mais pop, criando até uma divisão country. Hoje, o selo Virgin batiza até uma enorme empresa de aviação. Sobre o assunto, Branson costuma dizer que, quando era jovem, se fosse trabalhar numa loja de roupas, ouviria de algum vendedor que as pessoas sempre vão precisar de chapéus, e que quando ele começou no negócio de música, diziam a mesma coisa dos discos - enfim. Uma história engraçada sobre o selo: com um pé fora dos Rolling Stones, o guitarrista Keith Richard assinou contrato com a Virgin em 1988 para lançar seu primeiro solo, Talk is cheap, e fez piada ao explicar a repórteres porque escolheu gravar lá. "Uma gravadora com um nome desses eu não poderia deixar passar em branco".

Vá lá que o release de imprensa e as matérias publicadas por aí somam frases que dão para rir ou chorar, mas que são até bem verdadeiras. A Virgin Money, lançadora dos cartões, exorta: "É a hora dos consumidores colocarem um pouco de rebeldia no bolso". Diretora da empreitada, Michele Greene disse que, olha só, os capitalistas precisam aprender com os punks. Ok, não foi bem isso que ela disse, mas foi quase. "Os Sex Pistols desafiaram as convenções e os modos estabelecidos de pensamento - é como nós fazemos hoje ao procurar sacudir os bancos britânicos". E, ok, para botar um pouco mais de lenha na fogueira, o The Guardian afirma: o tal cartão cobra juros de 18,9%. Vai nessa quem quer.

Seja lá o que signifique para você o fato de uma banda punk se tornar parte de um negócio de cartão de crédito, a enganação e a trapaça, em certas doses, sempre fizeram parte do mundo do rock e da música pop. Melhor se sentir enganado ao esbarrar em fanáticos religiosos, políticos, PMs, cagadores de regra contumazes, patrulheiros de facebook, reservas morais de direita ou de esquerda, blogs nitidamente auxiiliados por partidos políticos e que mesmo assim sobrevivem de crowdfunding, etc. Mas vai da cabeça de cada um.

Fechando, peguem aí No one is innocent, com metade dos Sex Pistols (Paul Cook e Steve Jones) no Rio ao lado do ladrão inglês Ronald Biggs.





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