terça-feira, 21 de julho de 2015

ALGUMAS LIÇÕES QUE O ROCK BRASILEIRO PODERIA APRENDER COM OS SERTANEJOS

Se você seguir a barra de rolagem um pouco mais para baixo, vai achar a matéria que fiz sobre o livro Cowboys do asfalto - Música sertaneja e modernização brasileira, do historiador Gustavo Alonso. E que saiu na capa da última segunda do Caderno D do O Dia.

Pode comprar o livro (que é bem grande, mas é de fácil leitura) sem sustos. A impressão que dá é que Gustavo, que tinha escrito anteriormente Simonal - Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga, conseguiu fazer uma espécie de Eu não sou cachorro não (livro redefinidor de Paulo César de Araújo sobre a música brega e suas relações com a política brasileira) exclusivo dos sons sertanejos. Talvez pela primeira vez na história da MPB, alguém reconstrói a trajetória da música sertaneja tratando-a com respeito e admiração, indo dos antigos "caipiras" aos novos "universitários". Sem politização barata, sem paternalismos e dando uma visão bem realista do que cerca o estilo. No fim da leitura pouco importa se Gustavo tem em casa todos os CDs de Zezé di Camargo & Luciano e Michel Teló ou não (para mim, o autor confessou que certa vez, há bastante tempo, se sentiu com vergonha quando quis comprar um CD de Leandro & Leonardo).

Parece piada, mas eu não tinha a mínima noção do quanto esse tipo de música ainda sofria com milhões de preconceitos. E como a subida dos sertanejos às elites e às paradas, mesmo com toda aquela associação com a era Collor, não tinha acontecido de mão beijada. Sim, você deve lembrar das duas ocasiões em que o famigerado ex-presidente Fernando Collor recebeu sertanejos em sua residências - ambas, diz o livro, armadas pelo apresentador Gugu Liberato. A aceitação dos sertanejos pelas elites, mesmo sendo um gênero que àquela época arrastava multidões e já ostentava números de impressionar (se em 1982 a Blitz vendia mais de cem mil cópias e virava mania nacional, Fio de cabelo, de Chitãozinho & Xororó, chegara ao milhão) demorou muito a acontecer e foi um processo que não se realizou por completo até hoje. Em qualquer rodinha social de classe média, é mais fácil achar pessoas que detestem sertanejo do que gente que goste ou apenas respeite o estilo. Faça o teste quando comparecer a um almoço de família.

Eu também não tinha a menor noção, ou não tinha prestado atenção, no fato de que sempre houve um embate entre "caipiras" e "sertanejos" no Brasil. Apesar de praticamente todos os sertanejos serem muito fãs das primeiras modas caipiras, a recíproca nem sempre foi verdadeira. Rolando Boldrin, apresentador nos anos 80 do Som Brasil, não queria saber de duplas "modernas" como Chitãozinho & Xororó cantando por lá. Preferia chamar artistas "nativistas" ou até gente mais ligada à MPB. Tá no livro de Gustavo. Recentemente o jornalista Luiz Antonio Mello contou em seu blog que Rolando, atualmente apresentando o Sr. Brasil, na TV Cultura, convidou para se apresentar por lá ninguém menos que o músico vanguardista Egberto Gismonti.


Curiosamente, é como se o Brasil não tivesse mudado muito, culturalmente e musicalmente falando, de lá para cá. Ou dos anos 70 para cá. Para cada matéria reclamando que "o rock brasileiro sumiu da mídia", surgem mais três reportagens abordando gente como Victor & Leo pelo lado da fofoca e nada mais que isso. Ou gente reclamando que a crítica musical "não é mais como era antes", ou articulistas de jornal tratando a música brasileira por um viés totalmente bossanovista-classe-média-zonasulino. Como se a música sertaneja, que vem dando lições ao mercado fonográfico há várias décadas, fosse apenas uma anomalia ou algo que deva ser varrido para debaixo do tapete. Tem os que paternalizam e se deslumbram com o estilo, também. Acontece com outros gêneros musicais que têm origens em classes sociais menos abastadas: funk, pagode etc. Uma espécie de circo que se relaciona mais com o obscurantismo e menos com a formação, por exemplo, de bons jornalistas realmente interessados em sertanejo. Ou minimamente preparados para entender o que se passa numa gravação de Leonardo. Ou prontos pra fazer reportagens corajosas sobre as condições em que artistas do estilo, que soam "pouco conhecidos" para muita gente, arrastam multidões a seus shows, dão sustos em pessoas com a quantidade de fãs e, do nada, vão gravar DVDs em Londres ou nos Estados Unidos (com que dinheiro? Lei Rouanet?).

Se você se espantou com a afirmação, acima, de que o sertanejo vem dando lições ao mercado fonográfico há bastante tempo, segura essa: histórias bizarras que rolam por debaixo dos panos à parte (não existe almoço grátis em lugar nenhum do mundo, se é que me faço entender), dá para aprender muito com a ascensão e reinado dos sertanejos. Boa parte deles passou mais de dez anos correndo atrás do sucesso, de fracasso em fracasso. A internet, citada como arma para divulgação por dez entre dez artistas da atualidade, é muito usada por eles para vender CDs independentes (alguns com gravações nota cinco, feitas com voz e violão), buscar espaço em rádios pequenas do interior, soltar vídeos no YouTube, pensar em larga escala, etc. Boa parte dos sertanejos parece seguir a cartilha do "seja você mesmo" à risca, sempre de olho numa proposta estética que se afine com seus ideais e agrade aos fãs. E a história do estilo mostra que, sim, o mercado fonográfico vem ruindo por sua própria culpa e ponto final. Demorou muito para perceber os potenciais de um gênero musical perfeito para planos a curto prazo e levou bonito na cara quando exigiu proatividade e respostas imediatas de gente que merecia bem mais tempo de maturação. Ou quando perdeu a paciência com gente que, se devidamente compreendida e ajudada, ainda poderia fazer tilintar cofres e mais cofres e se expressar artisticamente. 

Mais: não deixa de ser curioso o fato de que, enquanto vários praticamente festejavam nas redes sociais o fato de nunca terem ouvido falar de Cristiano Araújo, um mundaréu de gente parecia realmente feliz em esfregar na cara das "elites" o fato de não apenas saber quem ele era, como ainda conhecer todas as suas músicas. O último artista do rock nacional a conseguir provocar esse efeito "você não gosta de mim mas (sua filha, seu filho, o povão, os mais pobres, uma porrada de gente) gosta" aqui no Brasil foi o Restart. Que, ao que parece, passou a não se enxergar mais nas roupas coloridas e nos cortes de cabelo chamativos. 

Dá até para imaginar que se alguém no Brasil conseguir construir esse efeito na cabeça dos fãs, adultos ou adolescentes (ou os dois), talvez possa chegar a um paraíso poucas vezes desfrutado no segmento pop-rock por aqui. Tem muita gente carente de novos ídolos no Brasil, pelos mais variados motivos. E é uma turma que não cabe numa canção do Chico Buarque, do Los Hermanos ou num rap dos Racionais MCs - e que, a bem da verdade, jamais ouviria uma música de Cristiano Araújo. E isso só para tentar teorizar um pouco a respeito de um modelo de negócios que hoje parece muito complexo, mas que em seu formato mais básico, resume-se a "diga o que quiser dizer, faça com que rime, ponha uma melodia legal e dê um jeito para que chegue a seu público".

Um comentário:

  1. Touché! Ótima análise em tempos de "novas" patrulhas musicológicas que vem embrulhadas em formato culturete!

    ResponderExcluir