quinta-feira, 20 de agosto de 2015

ENTREVISTA: TITÃS

Prato cheio para os blogs governistas: há alguns dias, os Titãs se apresentavam numa casa de shows em Cuiabá (MT) e, assim que ouviram gritos de "fora, Dilma!" vindos da plateia, teriam resolvido "repreender" a plateia. Sites como a Revista Fórum deram que o coral, vindo de um "público endinheirado", teria feito o titã Paulo Miklos dar uma bronca na plateia - ele teria dito "vamos manter a ordem democrática, lutamos por isso, democracia acima de tudo!".

Aproveitei um papo com Tony Bellotto e Paulo Miklos sobre o novo DVD, Nheengatu - Ao vivo, e sobre o show que a banda vai fazer neste fim de semana no Circo Voador para lançar o álbum, e conversei disso e de outros assuntos. A conversa saiu, em parte, no jornal O Dia durante a semana. E segue aí na íntegra (a foto acima é de Silmara Ciuffa - Divulgação).

Como vocês têm visto o impacto no público da abertura do show, no qual vocês aparecem com as máscaras que usaram no clipe de Fardado?
TONY BELLOTTO: Tem contado muito como um fato de novidade e de surpresa! As pessoas já ficamimpactadas e acho que tem gente que nem entende direito, fica pensando "será que é a banda mesmo?" É meio como se fosse uma banda abrindo para a gente, né? Decidimos que além das músicas e do cenário, o show precisava ter uma característica própria.

Imagino que role toda uma dificuldade para cantar com a máscara...
PAULO MIKLOS: É, teve um aprendizado. A gente evoluiu, conseguiu adaptar, porque ela fica quase colada ao rosto. Para cantar era difícil, tinha problema para articular nas músicas mais berradas. Tem que ter uma pegada boa. No começo dificultava, eu ficava desesperado, tinha que cantar direito e tapava o nariz, a entrada de ar. No clipe a gente estava usando uma maquiagem e chegamos a pensar em usar no palco. Mas seria impossível. A gente teria que viajar com maquiador, não daria para tirar a tempo...


O show do Circo Voador vai trazer outros lados Bs ou lados As que não estão no DVD? Em Nheengatu - Ao vivo tem Massacre, Desordem...
PAULO MIKLOS: É, tem Jesus não tem dentes no país dos banguelas, Pela paz, que nunca gravamos oficialmente e fizemos para uma campanha de uma rádio de São Paulo nos anos 80. Desordem fez muito sucesso e continua atual nessa época de problemas sociais, violência. O repertório vai além do DVD. Como a gente tinha feito o DVD ao vivo do Cabeça dinossauro, optamos por não gravar nada desse disco no DVD - só deixamos nos extras. Mas vamos inserir no show.

O disco novo tem muita coisa que parece lembrar dos novos tempos das redes sociais, de todo mundo sentindo uma enorme necessidade de se expressar, como em Fala, Renata...
TONY BELLOTTO: Quando a gente estava começando a trabalhar o Nheengatu, a primeira coisa que a gente colocou como uma meta estética foi fazer um disco de rock pesado e ao mesmo tempo de rock brasileiro. Quisemos fazer isso de uma forma que nunca tivéssemos feito antes. O Paulo trouxe coisas de música indígena, da Banda de Pífaros de Caruaru... Fala, Renata veio de uma ideia que eu tive, que veio da tradição dos sambas antigos, que você tinha lá o Ataulfo Alves falando de uma personagem feminina de maneira engraçada, crítica, cômica. Pensei em fazer o mesmo com um sujeito reclamando de uma mulher que fala muito. Fala, Renata veio dessa ligação com o samba antigo, mas levada para esse contexto de rock pesado.
PAULO MIKLOS: Mas até pode ser relacionada a essa necessidade de se expressar de forma excessiva o tempo todo. Tem acontecimentos recentes aí, sem dúvida. Em Mensageiro da desgraça ou em Fardado, que fala das manifestações. Quem são os animais fala da intolerância, que está sempre nos jornais...
TONY BELLOTTO: Sempre tivemos liberdade de criação, tanto para falar de manifestações quanto de situações de amor. Não queremos ficar rotulados como banda de um discurso só. Queremos falar de coisas que nunca foram faladas. Pedofilia, por exemplo, é sobre um assunto que as pessoas dificilmente ficam falando. Imagina transformar isso em canção?

Atualmente com quatro pessoas, dá pra dizer que as reuniões para definir o que sai nos discos e shows ficaram mais fáceis?
TONY BELLOTTO: Ah, nem tanto...
PAULO MIKLOS: Se fosse só eu e o Tony ainda assim a gente ia quebrar o pau. Números pares são terríveis, possibilitam o empate (risos). Nem imagino hoje como a gente conseguia com oito, nove pessoas. Mas a maturidade desses trinta e tantos anos facilita na hora de tomar decisões. Já tivemos discussões complexas e isso acaba possiblitando que o trabalho tenha qualidade.

Quando vejo essas bandas enormes que se apresentam como "coletivos", lembro um pouco de vocês. Muito embora vocês sempre tenham tido papéis muito bem definidos...
PAULO MIKLOS: De certa forma éramos isso sim. Todos tocavam violão, compunham, era realmente um coletivo. A gente resolveu que ia fazer uma banda e nos revezávamos no baixo, no teclado...Essa dinâmica foi criada a partir de um grupo de caras que já tinha o objetivo de apresentar material autoral.

Vamos supor que apareça um músico jovem dizendo que montou uma banda com oito integrantes inspirada em vocês - e que ele peça um conselho a vocês sobre como banter uma banda com oito pessoas, ainda mais nesses tempos de crise. O que vocês respondem?
PAULO MIKLOS: Divida a banda em duas! (risos)
TONY BELLOTTO: Nunca, jamais, forme uma banda de oito integrantes! Não, isso é brincadeira. O conselho nem seria em relação ao número de integrantes, mas seria trabalhar pra cacete, achar uma identidade, um sotaque. Hoje em dia com a crise é complicado manter uma banda, sei que tem muita coisa interessante no rock brasileiro, o Paulo sempre mostra... Na grande mídia está difícil. Acho até que essa crise política acaba ajudando o rock, porque a música mais contestadora fica mais determinante.

Como vocês estão vendo essa onda das pessoas pedindo o impeachment da Dilma? Num show de vocês em Cuiabá (MT) as pessoas gritaram "fora Dilma!" e já apareceu que vocês "repreenderam" a manifestação, em alguns sites governistas...
PAULO MIKLOS: Na verdade não repreendemos ninguém... Esse clima faz as coisas crescerem, serem arrastadas com essa polarização. Vimos essa manifestação do dia 16, que aconteceu com toda a liberdade, mas tem coisas muito estranhas acontecendo lá, pessoas com discursos diferentes e meio disparatados. Não há um consenso na banda em relação a isso.
TONY BELLOTTO: Eu acho ótimo as pessoas se manifestarem. Nós, os Titãs, temos posições definidas sobre isso, mas que nem sempre são as mesmas. Cada um tem seu pensamento. Mas a gente não vai transformar nosso show num palanque de propaganda para o que quer que seja. O que aconteceu foi que gritaram "fora, Dilma!" e saímos tocando. A ideia era não transformar aquele grito na coisa principal do show. Quando saiu publicado por aí, o cara ajeitou a cena do jeito que ele queria, disse que aconteceu num camarote, etc. Nem foi bem daquele jeito. Eu sou um cara bastante crítico com esse governo, mas não me identifico com certos grupos que pedem intervenção militar. Tem que tomar cuidado para não cair no estereótipo. Em outros momentos rolou consenso. A gente tcou em campanha do Fernando Henrique Cardoso para a prefeitura de São Paulo, no comício do Lula quando ele estava disputando com o Collor...

Rafael Ramos produziu o CD Nheengatu de estúdio e também o DVD. Como foi o trabalho junto a ele?
TONY BELLOTTO: Foi um grande encontro. Quando fomos gravar o Nheengatu procuramos um produtor que tivesse sensibilidade para entender o que a gente queria, autoridade para discutir com a gente, a pontar eventualmente alguma coisa quen ele discordasse. A gente já dá muita opinião, os produtores ficam acuados. Chegamos a pensar em chamar um produtor estrangeiro. O Paulo, se não me engano, tinha trabalhado com o Rafael e houve um encontro muito interessante. Ele gosta muito da gente, conhece muito rock contemporâneo e foi ótimo.
PAULO MIKLOS: Dividir as mesmas referências com um produtor que gosta de rock foi ótimo para a gente. E no DVD trabalhamos bem próximo do que foi no disco. A sensação do que é a banda ao vivo está muito no disco. Ele precisa disso. Tudo no estúdio é muito construído em camadas. A gente é uma banda, tem vida de banda, vive dessa espontaneidade. Levamos o mesmo conceito de trabalho e com o capricho que a gente conhece do Rafa... ele buscou fazer um belo acabamento, mas mantendo o frescor e a esponteneidade.
TONY BELLOTTO: Ele é muito fã dos Titãs. Ele lembrava de referências que a gente mesmo  não lembrava. Ele aparecia até com LPs antigos nossos para mostrar coisas.
PAULO MIKLOS: O cara para entender que vai fazer Sonífera ilha e Pedofilia juntas e que aquilo ali é a mesma banda tocando... Ele tem que entender e conhecer a banda. E ele entende a gente.

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