segunda-feira, 7 de setembro de 2015

ENTREVISTA: FREJAT

Semana passada, Frejat iria fazer no Vivo Rio um show de sua nova turnê, O amor é quente. Comum artistas fazerem turnês para divulgar CDs e DVDs, mas para divulgar uma única música (a faixa-título do giro) que não tem a menor possibilidade de ser lançada num álbum é novidade. Bom, novidade pelo menos no segmento do rock brasileiro, já que Valesca Popozuda lançou Beijinho no ombro sem nem imaginar que a música poderia sair em CD.

Do alto de 15 discos lançados com sua ex banda, o Barão Vermelho, e mais quatro solos, Frejat ainda não sabe o que vai fazer para lançar álbuns novos. Está ciente de que poucos ainda compram CDs, de que vai falar para um público que chega a ser grosseiro e indelicado com relação a músicas novas de artistas consagrados. Pode ser que reúna canções novas num disco a sair em 2016, mas sabe que "loja de discos" é quase um OVNI para toda uma geração de prováveis futuros fãs. E aproveita para lançar a banda de seu filho Rafael, a Velcro (com ele, ao lado, em foto do amigo Ernesto Carriço). Essas e outras questões estão num papo que ele bateu comigo para O Dia (virou capa do D) e que reproduzo aqui.

Como está o repertório do seu show hoje?
Bom, essa turnê começou em 2013 e sempre teve um caráter de ter um lado de intérprete e um lado de autoral bem diferentes. Era quase como uma divisão. De uns 2 ou 3 meses pra cá eu aumentei o show, acrescentei 3 ou 4 musicas. A maioria delas eram minhas, depois entrou um medley de Rita Lee, Roberto Carlos e Raul Seixas. O show mudou um pouco de cara, ficou maior e, pra gente, passa ter uma dinâmica diferente. Na última vez em que tocamos no Rio, fiz meu show inteiro mas ele era curto, uma hora e quinze. Eu gosto, mas as pessoas acham curto. Depois aumentei o show.

O fato de você cantar músicas de outros artistas faz com que você se comunique com um público mais amplo, certo?
Tem um barato de cantar coisas que eu gosto e um desafio de achar minha maneira de interpretar isso. Tenho que desenvolver um arranjo para que as músicas fiquem com minha cara. Mas o público é muito preguiçoso, sabia?

Como assim?
Quando você começa a tocar muita música nova, o pessoal vai no banheiro, vai pegar uma cerveja, é uma coisa quase desrespeitosa. E eu percebi que isso tem acontecido em outras áreas artísticas. Já percebi que tanto o pessoal de teatro quanto de cinema reclama que tá tudo em cima do humor. De uma certa maneira, tem a ver com essa coisa das pessoas não terem paciência para ouvir músicas novas, se você toca coisas conhecidas, meio que o "humor" da plateia levanta. Percebia esse tipo de falta de concentração no público e a maneira artística de lidar com isso é um repertório que misture o lado autoral com o de intérprete. Mas não é pra fazer uma porção de covers, é pra se apropriar do repertório. Tenho visto que o público tem se comportado assim de uns dez anos pra cá.

E de dez anos para cá as pessoas não compram mais tanto disco...
Pois é. Eu não sei se isso tem a ver, talvez seja a própria relação da música não ter essa cultura mais do álbum. As pessoas não vão se ligar mais em dez músicas, ninguém quer ouvir nem cinco, que seria a metade de um disco...

Tem muita gente resolvendo isso lançando EPs.
Sim. Eu mesmo tenho lançado músicas uma a uma. Lancei A tal da felicidade em 2011, em 2013 lancei O amor é quente e Me perdoa. E tem outras coisas que vão aparecendo. Pra rádio Nativa fiz uma versão que é o Me dê motivo do Tim Maia. São coisas que vão aparecendo e que são muito esporádicas. Mas isso acaba me levando pra um questionamento que eu tenho feito: como lançar um trabalho novo.

Ia até te perguntar se tá vindo alguma coisa inédita, porque O amor é quente nunca saiu em CD...
Tem nos sites de música digital, no Itunes, não tem físico. O que acontece? Por exemplo: eu tenho já um certo número de músicas novas e poderia num certo momento parar e... "vou fazer um disco, vou ver o que eu tenho de inéditas aqui, de novas e tal". Tá, mas vou lançar como? Eu vou pegar dez músicas e enfiar na internet de uma vez só? Pra quê, se eu posso lançá-las em separado? Aproveitando o timing e a percepção de que aquilo é um momento para cada um... Ao mesmo tempo tem gente que fala "pô, mas você não lança disco há um tempão". Tá, mas você compra disco aonde?

Dá pra comprar em lojas virtuais mas as pessoas têm preguiça até disso...
Exatamente. Eu ainda sou um comprador de disco, mas hoje me percebo comprando só edições especiais. Sai uma edição do Led Zeppelin com um álbum de fotografias maravilhoso, áudio em alta resolução para eu poder ouvir no estúdio... Agora, saiu o disco novo de não sei quem? Eu vou no player do streaming e se eu achar que é uma coisa que eu amei e que eu quero, quer ler as letras, ver quem tocou, vou buscar o CD. Mas pode ser que nem exista o CD! Eu hoje tenho muito essa questão de estar na dúvida, de qual formato vou lançar. Mas eu tenho me programado para no começo do ano que vem ter um grupo de músicas novas e autorais. Não sei se isso vai dar origem a um show novo, não pensei nisso.


E você vem de uma época em que disco era uma coisa bem conceitual...
É. Você falou "conceitual" e eu acho essa palavra até temerosa. É lógico que o disco tem que ter um conceito, mas eu sempre achei o nome dos meus discos depois de o disco estar pronto. Vejo colegas meus falando "eu tenho essa ideia de que o disco ia se chamar tal", fiz todas as músicas pensando nisso. Caraca, isso deve ser sensacinoal, o cara tem um norte e pensa: "Eu vou chegar lá". Comigo nunca foi assim.  Eu sempre compus com meus parceiros, achava quais eram as mais legais para ficar juntas. E pensava: "O que une todas elas?". Aí que eu descobria o nome do disco. E via o que eu estava sentindo naquele momento. Só ia identificar ou decodificar isso para mostrar para as pessoas depois que estava pronto. Hoje você não precisa mais disso, acabou essa necessidade de uni-las por um motivo. Acho isso positivo e negativo. Tem uma certa magia nessa coisa de pegar um disco, olhar e falar: "Caraca, tem esse nome aqui? Por que tem esse nome? O nome das músicas... Tem a ver, a ordem e tal..." Discos  que eu escutei muito se eu escuto na rádio, terminou a música eu escuto a "seguinte" que vai entrar. Mas não vai entrar. É coisa de quem escutou disco por muito tempo, talvez as novas gerações não tenham isso. Bom, o importante é nego estar ouvindo música e principalmente, pagar pra quem tá fazendo (risos). O streaming é legal o formato é bom, mas o problema é as pessoas não estarem recebendo a contento.

Você é um cara bastante politizado nesse sentido, inclusive...
Não, não... politizado, não. Sou um cara ativo.

Certo. Mas com essa atividade toda você nunca pensou em ter uma gravadora?
Eu na verdade já tenho. Essas músicas que têm saído são lançadas por mim, pelo meu próprio "selo". O dono dos fonogramas sou eu mesmo. O Intimidade entre estranhos já era para ter saído assim, mas por questões contratuais não voltou para minha mão, ainda. Mas sempre tenho esperanças (risos). Acho que é esse o futuro. O artista vai ser seu próprio produtor.

E essa volta do Barão Vermelho, que os fãs sempre pedem? Há possiblidade de ser no ano que vem?
Bom, no ano que vem eu acho difícil. Mas eu não vejo a impossiblidade de a gente em algum momento fazer uma turnê. Eu acho que em termos de preparar um trabalho para que isso justifique uma turnê, eu acho que não existe essa possiblidade. Talvez gravar uma música, se acharmos que tem uma música ótima para a gente gravar, se divertir, estar junto, num estúdio... Eu não ficaria mais dois meses num estúdio, todo mundo junto, porque não tenho mais idade para isso. Acho que a banda fez quinze discos, acho que a gente já disse o que tinha que dizer. Agora, celebrar essa obra pra mim não é nenhum problema. Só que exige um motivo muito bem encadeado e estruturado para estar na estrada, com a categoria que o Barão merece. Não é uma coisa de botar o Barão na estrada para correr atrás de qualquer dinheirinho. É "bicho, uma banda com uma história bacana vai para a estrada, é uma oportunidade que você tem raramente, aproveita agora". As turnês que a gente tem feito desde 2005 para cá funcionaram já assim. Mas acho que a gente ainda pode aprimorar esse modelo.

Exagerado tá fazendo 30 anos e é uma música que não é sua, mas que você quase compôs. Como foi isso?
Isso, inclusive toco ela no show. O Cazuza me deu a letra e eu já estava começando a fazer a música. Depois ele pediu desculpas por ter dado para outra pessoa, e foi um momento raro: ele passou a letra para outra pessoa depois de ter me dado, mas ele me avisou! Porque já aconteceu várias vezes de ele não me avisar! Ele me falou que poderia ficar muito bacana fazer com o Leoni, e eu adoro o Leoni, sempre gostei dele. Quando a música veio, a gente viu que ela estava muito forte. A gente chegou a ensaiá-la para o que seria nosso quarto disco com Cazuza!

O Dé falou certa vez que ela estaria nesse disco num arranjo bem The Who.
Cara, acho que estaria muito mais pra Van Halen do que para The Who. Mas era um arranjo pesado. No caso da gravação do Cazuza ela era um rock pop. No nosso era um rock à vera. Não estou desmerecendo, mas com ele ficou mais pop, porque ele estava se propondo a ser um artista mais pop. O elemento rock no trabalho dele era só um. No nosso caso era "o elemento". Eu gosto muito da música desde aquela época. A banda ia gravar, né?

Cazuza foi o maior letrista da sua geração?
Sem dúvida. Temos excelentes letristas. O Arnaldo (Antunes) é maravilhoso, o Herbert (Vianna)... o Renato (Russo) era muito talentoso, Roger (Moreira) é brilhante. O humor do Roger é especial, o cara tem uma maneira de ser sarcástico e irônico que é brilhante. Mas o Cazuza transcende a nossa geração no sentido de você pensar que ele era um poeta do rock. É um cara que mistura a poesia brasileira com a poesia beat, com aquela coisa do Jim Morrison que já tá presente, Lou Reed, e isso tudo junto com a música brasileira dos anos 30: Dolores Duran, Lupicinio Rodrigues... Ele conseguiu fazer um encontro disso. Não é uma mistura, é um encontro, é diferente. E por causa disso, ele não está nem na nossa geração, está na história da música brasileira. Não que os outros não estejam, mas ele transcende a nossa geração, porque é muito amplo, sabe? Tem tiro vindo de muito lado.

Você diria que são o Mick Jagger & Keith Richards do Brasil?
As pessoas fazem esse paralelo porque começamos numa banda de rock que tem influência de Rolling Stones. Mas a gente é uma parceria dessas que existem dento da múica como existem Lennon & McCartney, Toquinho & Vinicius, Vinicius & Tom Jobim, e tem esses parceiros que têm uma liga. E não é uma coisa pensada, era o natural, era o que fluía da gente. As coisas aconteciam porque tinham que acontecer.

A amizade de vocês cresceu muito rápido, né?
Sem dúvida. De 1981 a 1990... nos convivemos durante nove anos, não o conhecia quando a gente começou a trabalhar. A gente dividia não só muitas afinidades como também essa coisa de dividir a obra. Hoje tenho muitos parceiros com quem componho, mas se você for ver o Barão, na época, 90% do material era nosso. Essa relação de criação, de realização, ela te joga muto para junto do outro. Você tá ali dividindo os seus pontos de vida, seus projetos. Isso fez a gente estar muito próximo. Tinha muita afinidade também. Ele me pegava, me dava carona para ir para o ensaio, e vimos que tínhamos muitas afinidades. De repente estávamos juntos em muitos shows sem nos conhecer, porque rolava um "pô, vi esse show também!", mas de repente nem era na mesma noite. Então essas coisas aocnteceram muito e acho que isso intesificou muito nossa amizade.

As pessoas quando se referem aos anos 80, e ao rock nacional de modo geral, valorizam mais os letristas, e esquecem dos músicos. Você já se sentiu desvalorizado, ou desprestigiado, perante o Cazuza?
Não. O Cazuza era uma figura tremendamente carismática, eu acho que isso justifica muito do que ele representa para as pessoas. Fora a trajetória dele, a questão da doença, da briga, a importância que ele teve de expor aquela situação no Brasil... tudo isso ampliou a exposição dele na cabeça das pessoas. E existe também uma certa morbidez no ser humano de sempre valorizar quem não está mais aqui. E eu tô aqui ainda, né? Pode ser que quando eu morrer alguém diga: "Esse aí não valia porra nenhuma, ainda bem que já foi" (risos). Mas nessa hora se define um pouco o que vai acontecer com as coisas. Claro que quando você escuta o cara falando "ah, agora a gente vai tocar uma música do Cazuza" e a música é minha e dele, é complicado. Mas não vou deixar de dormir por causa disso, só considero isso ignorância.

Como vai ser ter o Velcro na abertura do seu show?
Acho muito bacana isso de ter banda de abertura. Eu quando viajei pro exterior a primeira vez com uns 18 anos, todo lugar que eu ia assistir a algum show, tinha alguém que tava abrindo. Na Inglaterra tem essa cultura, nos EUA... Os Rolling Stones faziam isso com artistas que eles queriam expor. No começo da carreira tentamos isso com vários espaços. Nós abrimos show da Sandra de Sá no Morro da Urca. Chamávamos bandas numa época em que nem tinha mesa digital e precisávamos custear a entrada de mais equipamento para que a outra banda se apresentasse. Acho que isso é um hábito que o brasileiro deveria ter mais. Eu vi o Rafael com a banda dele começando a acontecer e pensei que fosse uma oportunidade boa para eles. As letras são legais, as músicas são boas, eles têm um papo bacana, é uma banda de rock de verdade, que bota pra fuder no palco. Esse moleque é maluco pra caralho (o vocalista Pedro), fala uma porrada de barbaridades no palco.

Como foi a surpresa de descobrir que seu filho era guitarrista?
Cara, foi natural, porque desde pequeno ele toca. Eu tenho filmado ele em 2001 quando eu estava lançando o Amor pra recomeçar, ele entra sentadinho com a guitarra dele. Era uma guitarra pequenininha, que eu pedi pro Tagima fazer, para ele tocar, porque ele já tinha esse interesse. Não ia pedir um instrumento de plástico, porque não tem som, né? Deixei com o Rafael para ele tocar, porque ele não tocava porra nenhuma ainda, mas ficava com a guitarra lá. Um dia levei o Rafael para o ensaio com a guitarrinha dele, e o Liminha reparou: "Já viu que seu filho tá tocando no ritmo que a gente tá tocando?". E nesse filme ele já tava no ritmo. Com o tempo ele começou a se interessar em aprender. Ele queria que eu ensinasse. Eu não sou professor, sei a importância que um professor tem na vida de um músico, mas eu não teria como dar aula. Aí um amigo dele descobriu uma escola de música que dava aula em dupla. E ele foi. Um mês depois o amigo saiu e ele ficou até hoje com o mesmo professor. Ele tem um talento natural, uma evolução motora muito grande. Ele deu uma canja comigo uma vez e o Cecelo Frony (guitarrista) falou: "Teu filho é músico. Pode esquecer outra coisa!". E eu vejo pelos hábitos dele que o mosquitinho pegou. Agora é só assistir, tô de plateia.

Teve alguma vez em que você precisou puxar a orelha do seu filho para ele se dedicar mais à escola?
Não, não. Ele sempre foi bom aluno. Ele tá fazendo faculdade agora, Sociologia na UFRJ. Ele tá na faculdade mas a faculdade não tá pra ele, porque está há alguns meses de greve. Nunca precisei ficar cobrando, não. Quando ele tinha provas importantes, não perdia tempo com bandas e ensaios. Quando ele estava mais relaxado vinha aqui e ensaiava. Tem a vantagem da gente ter um espaço aqui, que é um privilégio e ele sempre aproveitou bem. Eu não interfiro muito, não, cara. Quando tenho que dar alguma opinião, eu dou. Quando ele começou a mexer no estúdio, ele me perguntava. Mas fora isso, vai na dele. E essa molecada que toca com ele é da pesada, faz um estrago.

A banda tem o seu filho e o do George Israel e vocês são amigos de infância...
É um flashback de trinta e tantos anos. A gente se conhece desde garoto, tem até casa no mesmo condomínio em Teresópolis. O George deve ser um ou dois anos mais velho, eu tinha 14, ele devia ter 16 e desde essa época a gente toca junto. Chegou uma época em que eu conheci o pessoal do Barão e aquelas pessoas estavam com a mesma dedicação e foco que eu naquele momento. A gente se afastou naquele momento, mas tem parcerias nossas gravadas até pelo Barão. E o Leo é um garoto muito legal, toca pra caramba. Muito musical. Aqui no estúdio o único lugar em que o som vaza é para cima. Fico lá em cima no meu escritório enquanto eles estão ensaiando e ouço de cadeira de pista!

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