sexta-feira, 11 de setembro de 2015

PAULO BAGUNÇA

Paulo Bagunça e o LP relançado
(foto: Ricardo Schott)
Em novembro de 2014, fui à Feira de Discos de Vinil do Instituto Bennett e, entre olhadas nos discos, esbarrei com Paulo Bagunça. O cara que gravou em 1973 um verdadeiro OVNI que foi o LP Paulo Bagunça e a Tropa Maldita - recebido como "pop eletrônico" por algumas publicações, e que trazia uma estranha mescla de rock, samba, folk herdado de Richie Havens e black music - estava por lá quase incógnito, levado por amigos. Logo logo seria reconhecido por vários fãs, atrás de autógrafos e fotos. Momento histórico: Paulo, que morreu agorinha, em 22 de setembro, quase não se apresentava.

Enquanto era possível falar com ele, bati fotos e conversei um pouco com Paulo para uma revista que um amigo meu tinha montado, e que depois fecharia as portas. A matéria, não publicada na época, segue abaixo, com todas as fotos que fiz. Paulo falou pouco, mas foi bastante simpático e queria um exemplar da revista caso a matéria saísse. Pena que não foi possível

REI POP OBSCURO DOS ANOS 70
Paulo Bagunça consegue cópia do relançamento de seu único disco, lançado sem alarde em 1973

As fotos que você vê nesta matéria foram feitas já há algum tempo. Foi em novembro, durante a mais recente Feira Carioca de Vinil, no Instituto Bennett, no Flamengo. Avisado por Mauricio Gouveia, dono da livraria Baratos da Ribeiro, de que seu único disco, Paulo Bagunça e a Tropa Maldita (Continental, 1973) havia ganhado uma obscura reedição em vinil, após anos e anos de mais obscuridade ainda, o músico carioca Paulo Bagunça foi lá pegar uma cópia do álbum de presente. Estava incógnito, de boné, conversando com alguns amigos e sendo bem pouco assediado.

Começou a ser descoberto por algumas pessoas, começou o assédio: gente que conhecia bem o disco e uma massa de pessoas que apenas tinha ouvido falar dele cercou o cara, que passou a dar autógrafos. O preço do vinil, disponível em alguns estandes da feira, até aumentou - pouco, mas aumentou.


Paulo Bagunça e o LP relançado
(foto: Ricardo Schott)
Músico da Cruzada São Sebastião, condomínio ultrapopular do Leblon (bairro da Zona Sul carioca), Paulo começou fazendo som com alguns amigos "no apê 512 do Bloco 2 da Cruzada, na época em que o máximo da contravenção era fumar um baseado", como disse o percussionista Guerra em texto num blog. Os dois, mais Oswaldo, o popular Macau (violão), Gelson (bongô) e Flávia (baixo) eram a formação que, em 1973, assinou contrato com a Continental e fez o disco, com balanços como Apelo, Grinfa louca, Mensageiro e Olhar animal.

A Tropa, que chegou a ter doze integrantes, tinha ganhado um festival de música da própria Cruzada que prometia um compacto por uma gravadora bem maior, a Odeon - o disquinho nunca chegou a ser gravado ou lançado. De todo jeito, pouca coisa aconteceu com o LP de Paulo, vendido pela gravadora (e por revistas como a filial brasileira setentista da Rolling Stone) como "rock eletrônico". Isso muito embora o som fosse uma mescla de rock, soul, funk, folk e batidas que lembram uma mescla de Santana, Richie Havens e Jorge Ben. Jorge, por sinal, teria convidado o grupo para intepretar sua Fio Maravilha no Festival Internacional da Canção de 1972. Convite este recusado porque acharam a música comercial demais. Acabou sobrando para Maria Alcina, catapultada à fama por causa da música.

"Eu sou amigo do Paulo desde... acho que 1976, 1977, setenta e lá se vão muitos anos. Não estive com ele na época do disco porque eu nem morava no Brasil. Mas é o destino do artista brasileiro de vanguarda, né? O cara que cria é muito pouco reconhecido, são poucos os que conseguem se manter fiéis à sua arte. Ele tem umas 300 músicas compostas, eu mesmo já compus várias com ele", conta o cineasta Sérgio Peo, um dos amigos que acompanharam Paulo à feira do Bennett.

A banda acabou e cada um foi tratar da vida. Flavia continuou na música, tocou (e ainda toca) no Sempre Livre, o grupo feminino oitentista de Eu sou free. Macau, que também foi com Paulo ao Flamengo, compôs um dos maiores hits de Sandra de Sá e por extensão, da história da black music nacional, Olhos coloridos. Guerra virou jornalista e vive hoje em Belo Horizonte - é mais conhecido hoje pelo nome Luiz Sergio Guerra. Gelson, diz Paulo, "morreu de desgosto". O líder do grupo passou um bom tempo morando com Tim Maia, de quem a Tropa chegou a abrir vários shows. Viveu situações em que o cantor estava cada vez mais drogado e paranoico - e armado, como aparece em Vale tudo - O som e a fúria de Tim Maia, biografia escrita por Nelson Motta.


Da esquerda: Maurício Gouveia (Baratos da Ribeiro), Paulo Bagunça e
Sérgio Péo (foto: Ricardo Schott)
Paulo fala pouco. Ainda mais quando o assunto é Tim. "Lembro dos melhores momentos dele, cara. Não vi esse filme sobre ele nem quero ver. Esse filme não fala das coisas que eu vi e que eu vivi com ele. Não tem nada a ver pra mim", despista o músico, de óculos escuros e sempre sorrindo, como se habitasse outra dimensão. Por artes do amigo, Paulo chegou a ingressar na seita Universo em Desencanto, da qual Tim fez parte entre 1973 e 1975. "Foi horrível, não gosto nem de lembrar", encerra o assunto.

Mauricio chegou a Paulo por intermédio de um colecionador de outro país. "Esse cara chegou a achar que o Paulo não existia, que era um trote. Um amigo estava lá em casa uma vez e disse que conhecia o Paulo de uma comunidade hippie dos anos 70", diz o livreiro e organizador da Feira de Vinil, que pegou o telefone e ligou para o músico. "Fui muito de leve, fiquei com medo de ele ser um doidão tipo Daminhão Experiença. Queria saber se ele tinha outras músicas, algo engavetado. Depois pedi para a equipe da loja arrumar um vinil para dar ao Paulo de presente".

Aos 71 anos, casado, com filhos adultos, morando "no meio do mato" (em Guaratiba), o criador da Tropa Maldita está aposentado. "De vez em quando eu faço uma música, de vez em quando pego o violão e toco. Não tenho nada planejado para shows, nem fiz nada em 2014", conta. Suas lembranças do começo do grupo são entrecortadas por gírias, pausas e histórias descontraídas.

"Em 1973... caraca, bicho, depois que vimos o filme Woodstock nós começamos a tocar na Cruzada. Foi um tal de tocar, fumar maconha, tocar, fumar maconha...", brinca. Num show na praia, foram descobertos pelo produtor Carlos Alberto Sion. Diz ter sido levado para tocar num "circo" e que vieram alguns shows. "Toquei até aqui mesmo, no Bennett, num festival. Mas nada aconteceu de extraordinário, a não ser atropelamento. Fui atropelado duas vezes, bicho. Fora isso, nada. Fui na Rádio Mundial para tentar tocar minha música e o cara me falou: 'Não tem ninguém que venda esse peixe melhor, não?'. Porra, tô falando de música e os caras falam de peixe? Eu achava que eu era pirado, mas os caras conseguiam ser mais pirados do que eu!".

O disco de Paulo foi relançado por um selo chamado Somatória do Barulho, responsável por recolocar várias raridades da MPB, do rock e do soul nacional nas lojas. O selo avisa por e-mail que o relançamento foi feito com todas as autorizações. Paulo diz ter, há tempos, ligado algumas vezes para a Warner (gravadora que detém os masters da antiga Continental) e que não foi reconhecido. "Vai ver foi o porteiro que atendeu o telefone, sei lá", diz, rindo. Lembra também de uma época em que viver na Cruzada era uma maravilha, mas com reservas. "Era sensacional. Não tinha muita música rolando, só nós que tocávamos. Mas havia muito preconceito. Quando você encontrava pessoas de nível intelectual, tinha que dizer que morava em outro lugar. Tem sempre 200 pessoas maravilhosas e três que não são, aí você se ferra por causa dessas três"

Começam as despedidas, Paulo e Macau (que prefere não falar e diz que assina embaixo do que o amigo disse) vão a um bar na redondezas e as poucas cópias de Paulo Bagunça e a Tropa Maldita, ainda inédito em CD, se esgotam em pouco tempo. As tais "300 músicas" que o músico pode ter feito permanecem tão obscuras quanto seu único disco. Pergunto ao cineasta Sérgio se a história de Paulo daria um filme. O cenário não é muito animador. "Com certeza, mas cinema hoje tem outro tipo de operação, custo alto... Mas é uma ideia, ainda mais porque Paulo e boa parte dos amigos estão vivos! Que alguém aproveite isso, né?"

PAULO BAGUNÇA AGRADECE A "Mauricio Valladares, Nelson Motta, Big Boy, Monsieur Limá... esses sim me deram força nas rádios e TV. O resto foi só sacanagem".

Um comentário:

  1. Com certeza, são muito poucos os que realmente dão força. Quanto ao Big Boy, assino embaixo, era um cara sensacional! Infelizmente, morreu muito cedo.

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