sexta-feira, 16 de outubro de 2015

MIELE (1938-2015)

Nunca entrevistei Miele. Uma pena.

Outro dia numa mesa de bar estava conversando com amigos sobre essas novidades do showbusiness como crowdfunding, produtores culturais MUITO folgados (já viu a recente promoção que fizeram pedindo empréstimo de um equipo para um conhecido guitarrista?), leis de incentivo, etc.

O tema é atualíssimo. Vivemos uma época em que até artistas que estão em grandes gravadoras fazem crowdfunding para viabilizar turnês e shows dados fora do Brasil para o qual não terão pagamento de traslado e hospedagem. A conclusão que chegamos é que seria ultranecessário um livro contando a história do marketing cultural no Brasil, para entender o que está acontecendo hoje e tentar explicar certas coisas.


Uma grande pena é que, com a morte de Miele, quem resolver escrever este livro perdeu uma fonte importantíssima. Produtor e diretor de shows desde sempre, teria muitas histórias para contar, desde a época em que dividia as noites do Beco das Garrafas com Ronaldo Bôscoli, passando pelas primeiras produções de shows para Roberto Carlos (para viabilizar o show de 1969 do cantor no Canecão, chegou a ir pessoalmente em agências bancárias para pedir empréstimos) e chegando aos programas que apresentou na TV. Recentemente, quem é fã de Miele pôde vê-lo em duas aparições bem interessantes. Fez o milionário Jack Parker na novela Geração Brasil e, involuntariamente, arrancou risos com as caras de estranhamento que fazia ao observar o famigerado churrasco de melancia de Bela Gil no programa Bela cozinha, do canal GNT.

Eu não sei se teria muito a acrescentar a respeito de um cara com quem eu não cheguei a conversar, mas uma das minhas atribuições nessa semana foi justamente escrever o obituário de Miele. Uma função que todo jornalista precisa encarar de surpresa quando alguém conhecido morre, e que ninguém faz com prazer. As linhas que escrevi sobre o ator-apresentador-produtor-diretor-show-de-um-homem-só foram parar no caderno geral do O Dia

Daí seguem abaixo os depoimentos de três pessoas que entrevistei para o obituário, o conheceram pessoalmente e que têm muito a falar sobre Miele. Como não saiu tudo publicado no jornal, acho que vale a leitura. Em época de crise e de indefinição profissional para quase todo mundo da minha profissão, nada como ler sobre um cara que apostou nos próprios talentos e disse: sim, é possível.

"O tamanho do currículo do Miele é incomum. As pessoas não têm noção, mas ele veio da era do rádio. Uma vez ele até falou pra mim: 'Eu estava no rádio e de repente me ligaram falando que tinha um negócio chamado televisão. E me chamaram para ir para lá'. Pô, o conceito de pocket show foi criado por ele, foi desenvolvido por ele no Brasil. Até questões como marcação de luzes... isso tudo veio dele. 

Se eu for pensar num adjetivo, diria que ele é um homem renascentista. Tinha muitos talentos e fazia tudo muito bem. A cada mudança de geração ele era redescoberto de alguma maneira. Na década de 80 teve os programas da Manchete, na de 90 teve o Cocktail, do SBT - ele até falava que era o Xuxo, porque a molecada vivia atrás dele por causa do programa. Na década passada teve o Mandrake, que ele fez com o Marcos Palmeira... Desde os anos 50 o Miele tinha alguma coisa para mostrar, ele fez parte da história do entretenimento. Inclusive na música, com a Melô do tagarela, que foi um dos primeiros raps brasileiros.  Ou quando ele tirou a barba, pago pela Gillette. Tinha também as peladas dele, célebres, em que ele jogava com Marinho Chagas, Carlos Alberto Torres, Paulo Cézar Caju. Produzi com ele o show Elis 70 e vi ele tirar um roteiro do zero!

É estranho falar da morte dele, porque Miele não combina com tristeza. A sensação que tenho é de que ele morreu de repente, tendo muito ainda a fazer. Ele era representante de um Brasil muito interessante. Se ele estaria milionário se morasse nos EUA? Sim, ele e muitos outros. O Miele era uma esquina de fatos e de pessoas, um cara que unia tudo. Apesar de ter um currículo gigantesco, não tinha nada de nostalgia com ele. E ele não colocava esse currículo entre ele e a pessoa que estava com ele. Ele tinha uma curiosidade muito grande a respeito de tudo. Jamais imaginaria o Miele dizendo 'isso aqui eu sei fazer, deixa comigo'. Não era possível isso sair da boca dele. O Miéle era uma máquima de produzir, era muito ligado em tudo, na internet. Fico feliz de poder falar dele. É tanta gente importante que passa despercebida..."

(João Marcelo Bôscoli, produtor)

"Miele era a televisão. Um cara que jogou sua alma a serviço da arte. Único. Incrível. Uma perda grande, mas o céu vai virar vip. E as festas vão continuar. Miele gravou - contracenando com a minha mãe - no meu clipe de Remédios em 2013. Participou de três shows meus. Muito amigo do meu empresario Luiz Paulo Assunção. Sempre muito educado, engraçado e solícito. Gravamos juntos o programa da Fátima Bernardes também. Muito gente boa. Como disse, o céu está uma festa agora. Sem dúvida. Aqui fica mais triste".

(Rodrigo Santos, músico)

"Eu conheci o Miele no apartamento do Fred Falcão, nas reuniões que ele fazia e chamava gente como Pry Ribeiro, Claudia e Os Cariocas. Quando decidi escrever o livro sobre o Bôscoli, entrei em contato com a família para ver se autorizavam, mas também com Miele. Pra mim, Miele era um irmão do Velho (como Bôscoli era chamado). Ele sempre se emocionava lembrando de histórias. Não só ao lembrar de Bôscoli, mas Elis, Simonal, Vinícius, Tom. No segundo andar da casa dele tem uma boate que ele construiu, com piano, equipamento de som, mesas... e um bar, onde na parede tem uma galeria de fotos com todos os amigos que passaram pela vida dele. E isso era uma parte bonita, mas ao mesmo tempo triste, pois ele era um dos poucos ainda vivos. 

Na semana passada, ele visitou o Fred Falcão e disse que era um sobrevivente. Mas é bom frisar que embora tenha essa parte triste, as novas gerações o abraçaram. O público jovem o adorava. Andar com ele era uma coisa surpreendente.  Todas as portas se abriam. E sempre com sorrisos. As pessoas o reconheciam e começavam a sorrir para ele"

(Denilson Monteiro, biógrafo de Ronaldo Bôscoli, pesquisador e escritor)


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