segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

DAVID BOWIE (1947-2016)

Nunca fui muito de dividir a vida em anos porque sempre achei meio ridículas essas expectativas das pessoas com "ano novo". Mas com a morte de David Bowie, já fica difícil de manter a fé em 2016. Cheguei a achar que fosse hoax, até que vi que estava em todos os perfis, já estava repercutindo nos famosos, o filho dele tinha postado, etc.

Qualquer exagero em posts sobre um cara desses, hoje, é desculpável. David Bowie representou a porta de entrada, para quem gostava de seu trabalho, de muita coisa boa. Desde grupos pré-punks do fim dos anos 60, até expressões artìsticas pouco ligadas ao universo do rock (até com mímica o cara trabalhou) e escritores que, se muita gente não leu, pelo menos ouviu o nome. Ele estabeleceu trocas das mais estranhas com uma série de artistas, dentre os quais o mais ilustre talvez seja Iggy Pop - de quem tentou tomar a persona, certos toques musicais e a quem retribuiu produzindo discos e turnês. Coincidentemente estava lendo ontem Open up and bleed, biografia de Iggy assinada por Paul Trynka, e lá fala que Bowie lá por 1990 afastou-se ou foi afastado por Iggy, que andava ressentido de jamais conseguir sucesso artístico sem que Bowie estivesse associado a seu nome.

De quebra, Bowie criou uma nova visão da produção artística no pop, funcionando quase que como uma reportagem. Em vários momentos, uma reportagem do caos, mixando inúmeros fatos diferentes de seu tempo. Quem se dispuser a analisar as letras de discos como Young americans (1975), com seus vários assuntos unidos numa letra só, vai ter trabalho. A letra de uma música como Life on mars? ganha inúmeros contornos na cabeça de quem for destrinchá-la - gosto da imagem de uma pessoa solitária, projetando o caos da época na tela de um cinema vazio, e sonhando com vida em planetas distantes como se fosse o possível a ser feito. No Brasil, país em que sempre foi bastante difícil ser jovem - ainda mais nos anos 70 - essa música não encontra paralelo. Pelo menos não em riqueza de imagens. Aqui você assiste ao clipe original da música, como ele era visto no Brasil lá por 1973, 1974, com imagens de público inseridas em meio à atuação de Bowie,

Hoje é luto oficial para todo mundo que tem algum apreço por cultura pop, venha ela de onde vier. Gostaria inclusive de não deparar no Facebook com nenhum comentârio "inteligente" do tipo "nossa, quantos fãs de David Bowie surgiram nas últimas 24 horas!". Que venham mais e mais. Pra mim, particularmente, foi embora o cara que me ensinou que todos podemos ser heróis, mesmo que por um dia. Entre outras coisas.

E que não descanse em paz, vamos deixar esse clichê pra lá. Vamos é fazer muito barulho por ele hoje.

*****

Falei lá em cima que Life on mars? não encontra paralelo no Brasil. Renato Russo, que talvez possa ser comparado a David Bowie em alguns momentos e carregava algumas de suas características, fez uma boa citação da canção em Marcianos invadem a Terra. Ouça aqui.

De fato, o Brasil tem tradição quase zero de artistas do universo poprock que tenham a mesma manha do David Bowie, de escrever letras eminentemente "estranhas" e caóticas, e que vistas de longe, fazem total sentido. Engraçado que, com sete anos de atraso, o pop nacional também teve sua Space oddity. E ela saiu no primeiro disco de Guilherme Arantes, homônimo, e que completa 40 anos em 2016.

As duas músicas têm as mesmas ideias de fuga, de missão através das galáxias, de viagem que parecia detalhamente controlada e que acabou mal (um tema que tem tudo a ver com a ressaca dos anos 60, por sinal), de observação á distância da Terra, etc. No caso da música de David Bowie, há uma "torre de comando" que segura a onda da viagem do Major Tom até onde dá. No caso da de Guilherme, nem isso.

Já entrevistei Guilherme algumas vezes e nunca perguntei se a inspiração dele nessa música foi David Bowie. Provavelmente foi. Ouça aqui.

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