quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

SNOOPY NOS CINEMAS

Se eu fosse você, dava como desculpa um filho ou um sobrinho e corria para assistir a Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o filme assim que arrumasse um tempo. Ou não daria desculpa nenhuma e correria para o cinema.

De todos os filmes voltados para o público infantil a surgir nas telas nos últimos anos, é um dos que mais têm apelo para o público adulto. O universo dos desenhos que eram exibidos pelo SBT e pela Globo está todo lá: cenas da turminha dançando (que viraram até gifs nas redes sociais), a timidez e o medo de fracasso de Charlie Brown, sua paixão pela garotinha ruiva, etc. É a melhor coisa que vi para crianças desde Divertida mente, que eu já achava imbatível.


Snoopy & Charlie Brown permite a qualquer criança entrar em contato com um universo que mesmo sendo novo para várias delas, é bem mais próximo da realidade - e já ganha vários pontos na frente de histórias legais, mas bem mais viajantes, como Minions. Todo mundo, seja de que idade for, já se sentiu meio Charlie Brown: meio desajustado, azarado, com mais tentativas do que resultados. Quem está acostumado com os desenhos animados, vai curtir o filme - que mostra o personagem, como sempre, tentando acertar o tempo todo, lidando com o próprio fracasso e, ainda assim, persistindo. Logo na abertura, enquanto a chegada do inverno anima os amigos para jogarem hóquei no gelo, ele decide empinar pipa. Se as habilidades de Brown com pipas já não rolam com tempo bom, imagina na neve. Claro que a história acaba em montes de trapalhadas.

A turma de Charlie Brown é formada por crianças bem parecidas com as que todo mundo conheceu na infância. Tem a louca por esportes Patty Pimentinha, a manipuladora (e carismática, vá lá) Lucy, o garotinho Linus, que só anda com um cobertor. Todos com personalidades em formação, errando, acertando, exagerando e ainda descobrindo a vida, sem dar muito espaço para os maniqueísmos que rondam não só a produção de filmes e livros para crianças, como também a de adultos. 


Mesmo situações como as do menino prodígio e pianista Schroeder ou o consultório de psicanálise de brincadeira de Lucy não soam nem um pouco fora de propósito - ok, as aventuras da turminha, comumente, têm um ritmo bem mais lento, reflexivo e fantasioso, que permite esse tipo de coisa. Inclusive, a trama está bem mais ágil, a não ser pelos momentos em que Snoopy e Woodstock (o pássaro amigo do beagle) protagonizam as aventuras em que o cachorro luta contra o Barão Vermelho. Talvez funcione com crianças, que costumam ficar apaixonadas pela dupla de cão-e-pássaro. Eu particularmente cortaria boa parte disso.

Não sei se existem puristas da obra de Charles Schultz, criador de Peanuts. Mas um detalhe que pode escandalizar alguns deles é o fato de, ao contrário do que acontecia nos desenhos, a garotinha ruiva aparecer e até se aproximar de Charlie Brown em alguns momentos. A paixão platônica do personagem nunca aparecia nas tiras do Peanuts e só foi mostrada uma única vez em um desenho da série: É seu primeiro beijo, Charlie Brown, de 1977, exibido inúmeras vezes no Brasil. De acordo com Alexandre Inagaki, que mantém o blog de crônicas e curiosidades Pensar enlouquece, pense nisso, a aparição da garotinha ruiva (que ganhou até nome, Heather) aconteceu à revelia de Schultz.

No filme a garotinha motiva Charlie Brown a fazer, durante todo um fim de semana, um resumo de nada menos que o quilométrico Guerra e paz, de Leon Tolstoi, o que acaba virando uma das partes mais legais de Snoopy & Charlie Brown. Vale citar que rolam até citações a O apanhador no campo de centeio, de JD Salinger, outro dos livros oferecidos pela professora da turma para um trabalho.

Se Snoopy & Charlie Brown já é uma enorme diversão para pais e filhos, vale dizer quem para quem curte rock e referências do universo pop, a felicidade não é menor. Nem que seja pelo fato de Woodstock, o pássaro, ter tido seu nome tirado do festival de rock de 1969 (antes disso, o personagem aparecia sem nome) ou pelo garoto sujinho Pigpen ter inspirado o apelido de Ron McKerman, tecladista do Grateful Dead (1945-1973). A trilha sonora misturando jazz e bossa nova, feita pelo pianista ítalo-americano Vince Guaraldi - que em 1964 gravou o LP Jazz impressions of a boy named Charlie Brown - também está lá.

E olha só que engraçado: teve uma banda de rock americana dos anos 60 que se especializou em compor músicas cujo tema era justamente... o universo de Snoopy e sua turma. São os Royal Guardsmen, que conseguiram um honroso segundo lugar na parada da Billboard com Snoopy and The Red Baron em 1967. Ela chegou a ser gravada em português por Ronnie Von.

Bom, na verdade, não foi bem assim: numa persistência de fazer o Charlie Brown morrer de inveja, o grupo voltou ao tema "Snoopy" diversas vezes ao longo da sua carreira. Deu certo algumas vezes. Saíram canções como Snoopy for president, Snoopy's Christmas. Em 2006 chegaram a fazer um comeback com a inacreditável Snoopy vs. Osama (!).

P.S: Pesquisando sobre Snoopy no Google e já escrevendo esse texto, achei um texto do jornalista André Barcisnki em seu antigo blog da Folha de São Paulo em que ele fala exatamente desse lado bastante realista do universo dos personagens de Charles Schultz e sobre esse lance de "bem" e "mal" nos desenhos deles. 

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