quinta-feira, 3 de março de 2016

ACORDE!

Artistas como Wesley Safadão podem ser os mais queridos dos ouvintes de rádio (revelou uma pesquisa aí), mas dane-se: existe rock no dial, e nas rádios online. E muito. E existe gente interessada em ouvir rock no rádio. A Kiss FM toca rock o dia inteiro, a Cidade idem, a Rádiovitrola.net (do mestre Carlos Mayrink) e a CultFM (do amigo e também  mestre Luck Veloso) igualmente. Tem ainda o Araribóia Rock News, de Noemi Machado, só com bandas novas. São exemplos que um giro pelo dial ou por aplicativos de celular como o TuneInRadio podem comprovar.

Modestamente incluo o Acorde, programa do qual cuido sozinho desde julho do ano passado e que é transmitido na Rádio Roquette-Pinto FM (94.1) todos os sábados às 16h, nesse meio. Não faço ideia ainda de para quantas pessoas o programa fala, mas me sinto bem em toda semana fazer uma mescla de tribos, bandas clássicas, grupos novos, bandas que não costumam tocar em rádio e bandas que muita gente não ouve em rádio faz tempo. 


A Roquette não tem só o meu programa como integrante da categoria rock. Tem o guerreiro Radiocaos, o Lado 2 (especializado em rock brasileiro e no qual já descobri grupos novos bem interessantes), muita coisa. Eu apresentei o Acorde por uns quatro anos ao lado do amigo Leandro Souto Maior, até que ele decidiu largar o jornalismo e montar a Casa Beatles, em Visconde de Mauá. O mundo ganhou um excelente empreendimento que já faz até moradores de Liverpool ouvirem o chamado das montanhas, e Leandro (além da sua querida Mari, com quem é casado) está mais feliz. A grande perda foi para o jornalismo e para o rádio. Confesso que quando ele resolveu sair, dei o programa por encerrado, porque não me passava pela cabeça cuidar de um show de rádio sozinho. Para minha sorte, o grande Ivan Bala, chefe de programação da Roquette, me fez o convite e lá estava eu à frente de um programa de rádio, inicialmente sem ter muita ideia do que apresentaria. Lembro que fiz o primeiro programa solo com várias sobras dos anteriores.


Vamos lá, então: o que não faltam são excelentes exemplos no rádio para quem quiser começar a fazer um programa de rock. A Brasil 2000, que marcou época no rádio paulistano, tem excelentes programas. Kid Vinil, grande mestre do dial, tem um programa lá e outro na Kiss FM: o primeiro bastante próximo do que o Acorde vem fazendo - uma espécie de encontro de tribos do rock - e o segundo com mais pedal em novidades e bandas do punk e da new wave. Na Kiss FM tem o Gastão Moreira fazendo o Gasômetro, o Clemente (dos Inocentes) mostrando novidades e velharias do rock brasileiro no Filhos da pátria. Muita coisa. Parti para pesquisar vários programas de rock e vi que o legal é que não há uma fórmula. Mas que no caso do Acorde, é ideal que ele não fique preso a hits óbvios e toque coisas que nem sempre são possíveis de ouvir no ambiente FM. Evito até ficar preso a pautas fáceis, do tipo "Rolling Stones no Brasil", "fulano de tal morreu" - muitas vezes isso entra no programa duas semanas depois, só de brincadeira, porque quem lê jornal e ouve rádios rock já pôde ouvir tudo o que havia para se escutar sobre o artista vindouro ou morto em questão. Mais: em tempos de Spotify, rádio é curadoria, é a cara do cara que faz o programa, e quanto mais curiosidade ele tiver e puder incentivar no ouvinte para que ele queira conhecer mais e ouvir mais, melhor ainda. Isso já foi bom para começar. E para passar horas redescobrindo discos antigos e fazendo audições no YouTube, pesquisando detalhes sobre as bandas, etc.

Falei a palavra do momento: Spotify. Ou melhor, streaming, já que há vários outros aplicativos, mas parece que todo mundo anda usando o Spotify para conhecer coisas novas. Outro dia um amigo me contou que não acredita mais que as pessoas ouçam rádio em tempos de streaming, porque todo mundo tem acesso a tudo o que quiser por lá, pode montar playlists e ser seu próprio, digamos assim, radialista. O pior é que ele está meio certo. Levando em conta que o que muitas vezes ouvimos no rádio não passa por nenhum tipo de pesquisa, é decidido na cagada e privilegia o que já vai "dar certo" (é o padrão que vem se repetindo há uns bons trinta anos), muita gente que imprimia valor ao segmento saiu fora. E com ele, os ouvintes, que não se sentiram abrigados. Some-se a isso um certo padrão de "é tudo nosso" que surgiu com a web 2.0 (tudo na vida tem lados bons e ruins, certo?) e deu no que deu.

Não sei direito se estou fazendo a coisa certa, mas me permiti abusar da informação e da descoberta de coisas raras e obscuras do passado no Acorde. Nada do que é falado no programa é feito de improviso (e eu, que geralmente sou um cara bem na minha, falo pra cacete no ar), a playlist é decidida de modo a que abarque de bandas mais conhecidas a gente que provavelmente nunca tocou em rádio no Brasil. Não é a especialidade do programa, mas volta e meia surgem bandas novas do Brasil por lá. Em tempo: por diversas razões, considero que o trabalho de descobrir e executar bandas nacionais novas envolve um pouco mais de energia e tempo do que o que eu posso dispor para o Acorde. Envolve certa paciência com trabalhos promissores mas que ainda patinam no amadorismo, recusar bandas novas que você acredita que ainda não funcionam em rádio, ouvir muita coisa (anuncie que vai trabalhar com artistas novos e morra afogado num mar de demos). Mas ainda há muito o que mostrar, de hoje e de ontem, para uma plateia que tem acesso a muita coisa e muitas vezes precisa fazer o trabalho de ligar os pontos sozinha. É nessa que o rádio, aliado às novas mídias, à imagem, a tudo, entra.

Atualmente, além de mandar bala numa playlist semanal, decidi que o programa precisa passar bastante informação pelas redes sociais. Criei uma página do Facebook e um Twitter nos qual posto conteúdo próprio e links quase em tempo real, além de clipes e infos sobre bandas que têm a ver com a programação do Acorde. Impossível falar em rádio normal sem falar em podcast, e o programa também pode ser escutado online - se você perdeu o programa de sábado 16h, pode baixar e escutar a partir de segunda meio-dia no programaacorde.podomatic.com. Mas produzir material para podcast acaba tendo suas características definidoras, já que se trata de um arquivo que as pessoas podem ouvir quando quiserem, sem ficarem presas ao horário da rádio. Mantive o "bom dia, boa tarde, boa noite" criado pelo Leandro e costumo avisar sobre o podcast, sobre o dia em que o programa pode ser ouvido online, etc. 


Mais: a partir dessa semana o Acorde tem também um conteúdo extra semanal, toda quarta, ao meio-dia. É o Acorde mais cedo, brincadeira com a canção do Fuzzcas, banda do Leandro. Depende da minha agenda, mas quero que tenha sempre convidados e seja uma coisa bem diversificada. Para mim, que curto fuçar e aprender coisas novas, está sendo bem interessante produzir material que pode ser aproveitado para várias mídias - pelo menos de maneira amadora, já que para mim tudo por enquanto é novidade. Se você não tem contato nenhum com rádio ou desacredita do meio de comunicação, já pensou que é possível produzir material para várias mídias casando texto e voz? Ou já parou para ver que, correndo por fora, há todo um mundo de podcasts que têm audiência garantida na internet? 

Então, seguindo: o Acorde está no ar todo sábado às 16h. Nessa semana, a seleção inclui músicas de dois discos clássicos que fazem quarenta anos em 2016 (Presence, do Led Zeppelin, e Rainbow rising, do Rainbow) e mais sons de Danko Jones, Pere Ubu, Weezer, Kinks,The Soft Boys, Gabriella Cohen (uma cantora australiana que é novidade no programa). Eu sou meio maníaco por ficar mexendo e remexendo nas playlists e enquanto esse set estiver indo ao ar, pode ter certeza que o da semana que vem vai estar infinitamente melhor e mais repleto de informações, e assim sucessivamente. O objetivo do programa, toda vez que eu produzo alguma coisa para ele, é mostrar que rock é convivência: entre tribos, entre músicas antigas e novas, entre sucessos e não-sucessos, entre bandas novas boas de rádio e bandas antigas que pouco foram executadas no meio. Enquanto isso estiver rolando e enquanto tiver gente para ouvir, que seja legal pra todos e faça sentido. Vamos nessa?

Um comentário:

  1. É isso aí grande Schott! Existe vida sim e muita! Ficomos orgulhosos por termos sido citados por ti aqui, grande pessoa e profissional compentente que sabe muito bem o que diz. De mãos dadas seguimos resistindo às intempéries sonoras, vamos com tudo!

    ResponderExcluir