sexta-feira, 13 de maio de 2016

ED MOTTA

No mês passado, bati um papo BASTANTE extenso com Ed Motta para o jornal O Dia sobre seu novo disco, Perpetual gateways, lançado lá fora por um selo alemão e no Brasil pela Lab344. A matéria que saiu no jornal, você vê neste link ou nos prints que aparecem aí para baixo. A entrevista na íntegra, por sua vez, ficou tão legal que resolvi publicar neste blog. Ed fala de suas origens tijucanas, revela que ainda passeia bastante pelo bairro de táxi e diz que tinha uma camisa do New Order - e que não é todo refratário à música dos anos 80, não.

Como foi gravar um disco lá fora, com músicos americanos, e qual a difeença de gravar com a turma que você tá acostumado?
Bom, eu tive um disco que gravei em 1994 quando fiquei um ano em Nova York. E tinha vários músicos lá de fora: Bernard Purdie, Ed Gomez... Tinha sido minha primeira experiência nesse sentido. Agora voltei mais experiente, na época eu tinha 21, 22 anos. Cheguei comoutras composições, um padrão diferente de música e conseguindo me comunicar melhor em inglês com eles. Isso tudo foi mais fácil para mim. Essas pessoas eu conheço pelos discos, pela coleção de discos aqui de casa. Alguns deles têm o Gregg Philinganes, o Hubert Laws. Os discos solo do Gregg eu tô sempre ouvindo, além dele otcando com Michael Jackson, ou no Nightfly (1982), disco solo do Donald Fagen que eu adoro. Quem me ajudou nesse encontro foi o produtor do disco, Kamau Kenyatta, e que é amigo deles. O Gregg é amigo de infância do Kamau. Foram meses e meses de conversa com Kamau no Skype sobre como seria a formação desse disco, já que ele conhecia um monte de gente. Ficou parecendo com um sonho de infância, porque eu tinha a mania de anotar informações sobre bandas e também montava bandas num caderninho: John Bonham na bateria, Jack Bruce no baixo... Eu escutava quilos de música e anotava aquilo num caderninho, várias formações diferentes

E você guarda esses cadernos?
Não, infelizmente... Eu tinha as colunas da Ana Maria Bahiana e do Tarik de Souza nos anos 80 guardadas numa pasta. Tenho algumas revistas Rock, A história e a glória, a Pop, essas revistas tradicionais que saíam no Brasil nos anos 70. Também tenho uma coleção da primeira Rolling Stone brasileira que comprei fechada de uma vez só nos anos 90, num sebo da Rua Augusta.

Você tinha feito poucas letras antes e estreou de vez como letrista num disco cantado em inglês. Foi algo premeditado ou que surgiu porque o trabalho pedia?
Eu fiz a primeira letra quase de brincadeira, "vou experimentar, vou escrever!". E saiu Overblown overweight. Achei que estava engraçado, é uma letra que fala em "você não escuta o som do seu celular?/ele me irrita". Eu tava achando engraçado isso. É um meio completamente novo para mim. Fiz num disco passado uma letra em português, já colaborei com parceiros, mas nunca parei pra escrever sozinho. E um dos grandes prazeres desse disco foi fazer isso. Minha vida toda eu critiquei isso, dizia que "a letra não é importante no meu trabalho!". E nunca foi mesmo. Agora pela primeira vez sempre que vinham me perguntar de letras em entrevistas eu ficava todo animado. Gostaria muito de conseguir fazer em português, só que é muito mais difícil, nem tem comparação. A língua latina é mais complexa: português, francês, espanhol...

Você tem feito discos bastante diferentes um do outro, meio como a fase anos 80 do Neil Young...
Isso acaba sendo um reflexo da minha personalidade, que muda bastante. Eu mudo bastante de opinião. Tem coisas em que mantenho minha linha de pensamento, mas acontece muito de eu passar a gostar de coisas que não gostava antes. Posso passar a não gostar btanto de coisas que eu adorava. Esses discos são reflexo de uma coisa que não fica muito fixa. Quando eu sento no piano ou pego no violão, faço uma sequência de acordes aqui e ali... Tenho a ideia de uma música que vem totalmente natural para mim. Nem concebo, "agora vou fazer uma dessa forma". Claro que se eu fosse chamado para fazer uma trilha seria diferente. Eu consigo fazer coisas de encomenda, já fiz, mas é uma coisa que demora para mim.

Rolou alguma mudança de opinião recente?
Olha, a sonoridade digital de metade das coisas dos anos 80 eu sempre achei pavorosa! Mas tenho olhado para isso como algo curioso. Não é algo que eu escute o tempo todo, mas me é curioso. Quando tocava aqueles teclados no rádio, eu não gostava. Eu sempre ouvi muito disco, não era de ouvir rádio, mas tinha pavor daquilo esteticamente. Hoje acho curioso esse negócio, aquele som com bateria acima.

Falando nisso, tem um vídeo no YouTube que mostra você aos 15 anos visitando seu tio Tim Maia numa gravação da dupla Jairzinho & Simony. Você está com uma camisa de botão, não dá para ver direito, mas me falaram que por baixo dela você está com uma camisa do New Order. Verdade isso?
É verdade! Rapaz, eu tenho discos do New Order, do Joy Division. Acho interessante. Nos anos 80 quando o CD ganhou força e começaram a aparecer milhares de reedições dos anos 70 e 80, minha curiosidade por informação me levou a ter discos do The Cure, The Fall, Joy Division, New Order. Na época eu ouvia a Rádio Fluminense direto, dormia ouvindo a rádio. Ouvia The Who, Rory Gallagher. E alguns desses artistas dos anos 80 eu gosto: o "War" do U2, The Smiths, o primeiro do Joy Divisojn (Unknown pleasures) que tem algo de David Bowie. Tudo o que lembra David Bowie eu gosto. Echo & The Bunnymen eu acho muito bom, o New Order. Quem fazia essas camisetas era o Edu da banda Big Trep. Eu tinha camiseta de tudo: New Order, Echo & The Bunnymen. Tinha até uns lances de punk que eu gostava: Magazine, Ian Dury... Eram coisas que se utilizavam do disco mas musicalmente não são totalmente punk. O Ian Dury tinha toda uma atitude mas era fã de Steely Dan!

Você também era fã de metal e tinha uma banda do estilo, o Kaballah...
Eu até hoje adoro heavy metal, pelo menos o que eu entendia como heavy metal. Quando surgiram esses subgêneros como death, speed metal, eu não gostava. Depois ouvi o disco do Venon e achava aquilo um pavor! Mas adorava Iron Maiden, Saxon, Thin Lizzy, Samson. Outro dia eu estava ouvindo o segundo do Rainbow, o Rainbow rising, que já tem um som parecido com o que a gente conhece como heavy metal. O Ronnie James Dio era um ídolo por completo, virei cantor por causa dele! Eu queria tocar bateria, arranhava uma guitarra, mas quando eu escutei o Holy diver, do Dio, quando vi aquela capa na Moto Discos da Praça Saens Peña... Aquilo era um absurdo.

Tem uma declaração atribuída a você de que o Iron Maiden é o Steely Dan do metal. Verdade isso?
Acho que são sim. Todos são muito precisos, principalmente no disco Piece of mind. Tudo muito bem amarradinho, baixo, bateria... Mas pensando bem acho que o Steely Dan do metal é mesmo o Led Zeppelin, né? Eles é que para mim seriam a banda mais sofisticada do hard rock.

Você ainda frequenta a Tijuca, bairro onde foi criado?
Sim, sim. Meus pais morreram no ano passado e moravam lá. Minha irmã ainda mora. Adoro pegar um táxi e fazer uma corrida na Tijuca sem rumo, "anda por aqui, desce a Rua Professor Gabizo, desce não sei o quê". Eu até choro no táxi (rindo). Eu moro na Zona Sul há 26 anos, e a Tijuca tem um negócio incrível que não tem na Zona Sul que é o colecionismo. Niterói também tem isso, além daquela coisa de milhares de guitarristas e músicos. Tem um barzinho, o cara tá lá tocando Allman Brothers...

Lynyrd Skynyrd...
Isso, o Alynaskyna! (histórica banda cover do Lynyrd, formada em Niterói, e que tinha Paulinho Guitarra, acompanhante de Ed, como um dos integrantes). Tijuca e Niterói têm muito a ver, mas Niterói bota na prática. Niterói em o cara fazendo o solo do Gregg Allman e a Tijuca tem esse negócio de concentrar nas lojas de disco da Praça Saens Peña. Os ingleses usam o termo snob como uma coisa boa. No Brasil ele é meio mal entendido, mal interpretado. Os tijucanos são snobs do rock. Lá tem galerias vendendo discos de rock progressivo super obscuros! Eu cresci na loja SubSom do Maurílio. Na galeria do Shopping Tijuca tinha uma loja chamada Fonit, cheia de raridades. Eu levava um bloquinho para anotar tudo. O cara da Zona Sul vai pra Europa comprar o disco que tem na Tijuca. Vai pra Abbey Road e o tijucano sabe tudo de trás pra frente de Abbey Road (risos).

Hoje você faz algum mea culpa daquela história em que pediu no Facebook para os fãs brasileiros que assistiriam a um show seu no exterior não pedirem para você cantar Manuel?
Me coloquei muito mal. Foi lamentável. Eu tentei me colocar acerca de uma situação que me incomodava, mas me coloquei mal demais. E isso foi espalhado de forma muito maldosa por boa parte da mídia, que entendeu a mensagem de que "o Ed Motta não quer brasileiros no show dele". Foi uma mentira, e tem milhares de pessoas que se aproveitam quando você comete uma falha. Tem colegas teoricamente famosos que se aproveitam daquela situação para passarem por santos, chutar cachorro morto. Claro que foi ruim e me arrependo.

Isso de não curtir cantar Manuel nunca causou estranhamento entre você e o Fabio Fonseca, coautor da música?
A gente é muito amigo. Nunca nem pensei que pudesse causar problemas. Quem convive comigo - e ele gravou muito comigo - sabe da imensa insatisfação que eu tenho de ter que cantar Manuel. É desinteressante para mim. Reconheço a importância da música, mas foi a primeira coisa que gravei. E eu tinha 15 anos e hoje vou fazer 45! A gente muda, né? Bom, eu poderia não ter mudado. A gente por acaso se falou, porque ele tá morando nos Estados Unidos. Isso do Manuel é quase uma piada interna que já existia na banda, tipo "agora é o Manuel" (risos).

Entrevistei o Fabio e ele falou muito bem de você, disse até que se você quiser chamá-lo para fazer algo, ele está aí.
Ele é o cara que mais conhece sintetizadores e que mais sabe programar sons que eu já vi na vida! O som que ele programou no meu teclado... Eu não troco de teclado, é uma versão super velha, mas ele fez um som para mim que eu não consigo usar outro em shows. Ele é mais incrível que aqueles magos americanos do sintetizador que viviam aparecendo em discos. Nunca existiu um cara como ele.

Há alguns anos você declarou que nem votava nem acompanhava política. Tem acompanhado a saga do impeachment e das manifestações pró e anti-Dilma?
Acompanho, mas não com profundidade. Acompanho esse assunto mais porque isso afeta todos nós. Eu espero que as coisas sejam resolvidas com verdade e justiça, e sem corrupção.

Sua esposa Edna é bastante politizada e posta bastante no Facebook sobre questões como impeachment. Vocês conversam sobre isso? Ela não tenta te levar para o lado dela?
Nem falamos muito sobre isso, porque realmente nunca tive interesse por política. Sou um nillista, um cara cheio de comportamentos difíceis de se compreender. Eu acredito na vida e nas pessoas. Não ficaria o dia inteiro no Facebook postando coisas se eu não fosse assim, até porque vejo isso como uma declaração de amor à vida e às pessoas. Mas ao mesmo tempo a realidade me afeta demais! Eu nem gosto de estar o tempo todo perto da realidade, até porque minha arte não vem da realidade. Bom, agora tem o texto, aí fica foda (risos). Mas minha música não vem disso aí. Eu e Edna falamos disso de outra forma. Ela é super esclarecida sobre política, já foi envolvida com movimentos. Mas isso nunca gerou algum tipo de ruído, concordância ou discordância. Acho interessantes vários posicionamentos dela, ela é muito inteligente. Tem vários salvadores da pátria por aí e eu acho que acabo fazendo política com minha arte. O fato de fazer um disco como esse que acabei de fazer... isso é política, e é subversivo pra cacete! Tem gente que discursa horas sobre política, mas quando vai fazer arte, parece um refrigerante enlatado, horroroso (risos)... O disco humano é uma coisa, o de arte é outra, é mais elevado. E meu discurso tá na arte.

O que você achou daquela polêmica do Claudio Botelho, que protestou contra Dilma Rousseff no palco, enquanto fazia uma peça com as músicas do Chico Buarque?
Ele tem o direito à opinião dele, o Chico tem o direito a decidir o que deve ser feito com sua obra. Só que as opiniões têm que ser respeitadas. Hoje tá todo mundo super extremado, a opinião do outro vira uma coisa fora do comum.

A crise bateu em você de que forma?
Bem antes dessa crise já vem rolando uma crise estética. Nos últimos dez anos, as coisas não estão fáceis para mim, nem um pouco. Uma moça me falou no meio daquela confusão de Facebook algo como: "Você está se achando o último biscoito do pacote, mas fez show de inauguração de árvore de Natal no shopping". Eu respondi: "Tenho que trabalhar" (risos). Isso é bem verdadeiro, eu não escolhi isso, e também não escolhi que eu tinha que fazer show. Tenho que fazer show porque tenho que pagar minhas contas. Se eu fosse o Paul McCartney ficava em casa o dia inteiro postando no Facebook. Acho show uma coisa chata tanto de ver quanto de fazer, e ver é pior (risos). É uma das coisas mais insuportáveis, prefiro ir ao dentista dez vezes do que ver show. Se o show é numa casa pequena, com acústica, é interessante. Mas geralmente tem um PA enorme, o cara tá mandando aquilo como se fosse num estúdio. Nunca vi um PA com som legal na vida, não foi feito para isso. Você vê um cara como o Paul, é evidente que ele ama fazer show. Mas eu acho incrível é a vida do escritor, o cara que faz uma obra incrível e depois tá em casa pensando numa outra obra. Ele não tá todo fim de semana tendo que cantar os três primeiros parágrafos do livro, repetir o livro pela enésima vez. Imagina um livro que escrevi aos 15 anos? (risos). Por outro lado, a crise bateu na minha porta mas rolou uma abertura grande para o mercado exterior. Meu disco é bancado por uma gravadora alemã, não passou por nenhuma dessas leis daqui. Não que eu não queira usar as leis daqui, adoraria gravar um disco pela Lei Rouanet, ou seja qual for a lei que o Brasil proporcione para a arte, já que sou brasileiro e moro aqui. Como sou novidade, nos últimos 3, 4 anos, as coisas têm andado num pé diferente para mim lá na Alemanha.

Uma história que ouvi outro dia é que o Quincy Jones esteve no Rio numa ocasião e pediu a um taxista que o levasse à sua casa. Vocês já se conheceram?
Nunca. Nos anos 90 ele tinha uma revista e colocou o Manual prático para festas, bailes e afins como o segundo disco que ele mais ouviu no ano. Uma vez me ligaram para falar que o Quincy estaria no Brasil, só que era numa festa em que haviam trocentos artistas. Foi tipo "fala pro Ed ir lá". Não foi nem ele que me ligou. Tinha todos os medalhões da MPB lá. Fiquei sem saco de ir, parecia aquelas festas tipo Prêmio de Música Brasileira, em que fica aquele clima e você tem que tomar um banho de sal grosso depois. Um ambiente pesado, de inveja, tudo de mais horroroso (risos)... Pensei: "Deixa eu ficar aqui mesmo".

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